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Brasil x Haiti: do histórico Jogo da Paz à Copa de 2026, uma relação que vai além dos gramados

A história entre Brasil e Haiti ganhou novos capítulos com a atuação brasileira na missão de paz da Organização das Nações Unidas

19 de junho de 2026
em Esportes
Tempo de leitura: 13 min
brasil-haiti

Brasil e Haiti tem relação histórica (Arte: Abraão Torres/Rios de Notícias)

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Caio Silva – Rios de Notícias

MANAUS (AM) – Quando a Seleção Brasileira desembarcou em Porto Príncipe, em agosto de 2004, para o Jogo da Paz, a partida foi além do futebol e virou símbolo de aproximação entre Brasil e Haiti em meio à crise política no país caribenho. Mais de 20 anos depois, os dois voltam a se enfrentar na Copa do Mundo de 2026.

Realizado em um cenário de instabilidade, violência e incertezas, o jogo passou a representar uma tentativa de aproximação diplomática brasileira com a população haitiana. Mais de duas décadas depois, aquele momento ainda é lembrado como um capítulo importante de uma relação construída também por meio da cooperação humanitária e do acolhimento.

A história entre Brasil e Haiti ganhou novos capítulos com a atuação brasileira na missão de paz da Organização das Nações Unidas (ONU), a resposta ao terremoto de 2010 e a chegada de milhares de haitianos ao Brasil em busca de novas oportunidades.

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Brasil e Haiti em 2004 (Foto: Divulgação/CBF)

Agora, a ligação entre os dois países volta a ganhar destaque com o confronto entre Brasil e Haiti pela Copa do Mundo.

Leia também: Torcida brasileira transforma Escadaria do Rocky em palco de festa antes de Brasil x Haiti

Crise política abriu caminho para missão internacional

Segundo o historiador César Augusto, a crise haitiana se agravou em 2004, quando o presidente Jean-Bertrand Aristide deixou o país após meses de confrontos políticos e acusações envolvendo corrupção, perseguição política e autoritarismo.

“O Haiti estava profundamente conflagrado por grupos políticos e militares que queriam a deposição de Aristide. A partir daí, nós vamos ter uma tentativa de paz por meio deste deslocamento de tropas militares para o Haiti”, explica.

Com o agravamento da situação, a ONU criou a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH). O Brasil assumiu o comando militar da operação, considerada uma das principais missões internacionais lideradas pelo país.

Missão de paz do Exército brasileiro no Haiti (Foto: Sgt Mache/Exército Brasileiro/CCOMSEX)

Para César Augusto, a participação brasileira também tinha um objetivo estratégico no cenário mundial.

“Foi um momento de afirmação desta liderança em termos internacionais, sobretudo no contexto da ONU, onde o Brasil defendia a reestruturação do Conselho de Segurança e a abertura de novas cadeiras para tornar a organização mais democrática”, destaca.

Além da presença militar, a atuação brasileira buscava criar uma aproximação com a população haitiana. Foi nesse contexto que surgiu a ideia de levar a Seleção Brasileira ao país.

Jogo da Paz transformou futebol em símbolo diplomático

Seleção brasileira com craques da época (Foto: Divulgação)

A partida entre Brasil e Haiti, realizada em Porto Príncipe, reuniu grandes nomes do futebol brasileiro. A seleção chegava ao país como campeã da Copa do Mundo de 2002 e contava com estrelas como Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Adriano.

Segundo o historiador, a ideia do jogo ganhou força após uma declaração de um representante haitiano na ONU. “O embaixador do Haiti na ONU disse que seria melhor que o Brasil levasse a seleção brasileira para lá do que tropas e soldados”, relata.

César Augusto – Historiador – Foto: Arquivo Pessoal

Apesar do clima de insegurança, a chegada dos jogadores foi marcada por uma forte recepção popular.

“Os jogadores chegaram ao país cercados por um forte esquema de segurança, mas foram recebidos por uma multidão. Era o fascínio que a Seleção Brasileira exercia sobre a população haitiana”, afirma César Augusto.

Para o historiador, o momento teve mais significado simbólico do que esportivo. “Cada gol do Brasil era comemorado pela torcida haitiana. Era muito mais um ambiente de festa do que propriamente de competição”, recorda.

Campanha de entrega de armas marcou o evento

Um dos episódios mais lembrados daquele período foi a campanha que incentivava a entrega voluntária de armas em troca de ingressos para acompanhar a partida.

A ação buscava reduzir a circulação de armamentos e reforçar a mensagem de paz associada ao evento. “Esse episódio teve um papel tanto prático quanto simbólico. O papel prático foi justamente retirar armamentos de circulação. Mas havia também um efeito pedagógico muito forte, mostrando que o futebol estava acima das armas”, explica César Augusto.

Segundo ele, o jogo contribuiu para uma trégua momentânea entre grupos rivais. “A ida da seleção brasileira foi uma tentativa de pacificação. Houve uma trégua no período da realização deste jogo”, afirma.

Terremoto de 2010 aproximou ainda mais os dois países

Se o Jogo da Paz criou uma aproximação simbólica, o terremoto de janeiro de 2010 transformou essa relação em uma experiência humanitária.

A tragédia devastou Porto Príncipe e outras regiões do Haiti, deixando milhares de mortos e milhões de pessoas afetadas.

O desastre agravou uma crise social já existente e levou milhares de haitianos a buscar novas possibilidades em outros países, incluindo o Brasil.

Para César Augusto, a política de acolhimento brasileira foi construída dentro de um contexto de aproximação iniciado anos antes. “Então, há uma política de acolhimentos e de vistos humanitários para receber a população haitiana”, afirma.

A chegada dos haitianos fortaleceu a presença da comunidade no Brasil, principalmente em áreas como construção civil, indústria, logística e serviços.

Além das relações políticas, o historiador destaca elementos históricos que aproximam as duas nações. “Há uma afinidade histórica entre Brasil e Haiti. Ambos são países marcados pela escravidão, por profundas desigualdades sociais e pela forte presença da população negra”, ressalta.

‘O Brasil se tornou um segundo país para mim’

A trajetória do professor de Matemática Joseph Maleus representa uma dessas histórias construídas entre Brasil e Haiti.

Pouco tempo depois do terremoto de 2010, após concluir o ensino médio, ele deixou o país em busca de oportunidades. “Logo após o terremoto que atingiu o Haiti em 2010, eu concluí o ensino médio. Diante da falta de oportunidades de estudo e trabalho em meu país, decidi buscar um novo caminho no Brasil”, conta.

Joseph Maleus – Professor de Matemática – Foto: Arquivo Pessoal

Joseph afirma que encontrou acolhimento e conseguiu construir uma nova trajetória. “Graças ao caráter acolhedor e humanitário do povo brasileiro, consegui rapidamente regularizar a minha situação e obter residência permanente. Hoje vivo no Brasil há mais de 10 anos e já adquiri a cidadania brasileira”, destaca.

No Amazonas, ele construiu carreira na educação e atualmente atua como professor da rede estadual. “Com muito esforço e dedicação, formei-me em Matemática, concluí especializações e atualmente trabalho como professor da rede estadual na área de formação”, afirma.

Para ele, o Brasil passou a representar uma nova casa. “O Brasil se tornou um segundo país para mim, um verdadeiro país-mãe, onde encontrei oportunidades para construir minha vida e realizar meus objetivos”, contou.

Uma relação que vai além do futebol

Ao lembrar do Jogo da Paz, Joseph avalia que a partida teve um impacto importante para aproximar os povos.

“A Seleção Brasileira era muito admirada no Haiti e o carinho pelo futebol brasileiro fez muitos haitianos comemorarem a vitória ao lado dos brasileiros”, lembra.

Segundo ele, o evento ajudou a fortalecer uma relação que continuou após a tragédia de 2010. “Esse evento fortaleceu os laços entre os países e facilitou a solidariedade brasileira após o terremoto de 2010. O uso da seleção ajudou a promover paz, diálogo, integração cultural e aproximação entre o povo brasileiro e haitiano”, destaca.

Relação entre Brasil e Haiti vai além do futebol

Para o internacionalista Lucas Orlando, a participação do Brasil na Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), iniciada em 2004, marcou a atuação do país no cenário internacional.

“Essa participação representou muito mais do que uma operação de paz. Foi uma clara demonstração da capacidade brasileira de atuar como ator de projeção regional e global, comprometido com os princípios do multilateralismo e da cooperação internacional”, afirmou.

Lucas Orlando – Especialista em Diplomacia – Foto: Arquivo Pessoal

O especialista também ressalta a importância histórica do Haiti, primeira república negra independente do mundo, criada após uma revolução de pessoas escravizadas contra o sistema colonial.

“Estamos falando da primeira república negra independente do mundo. Esse fato possui enorme relevância para a história das Américas e para a luta pela autodeterminação dos povos”, destacou.

Segundo Lucas Orlando, o confronto entre Brasil e Haiti na Copa do Mundo de 2026 simboliza uma relação construída para além do esporte.

“Quando vemos Brasil e Haiti em uma competição esportiva, estamos diante de muito mais do que uma partida de futebol. É o encontro entre duas nações conectadas por uma história recente de cooperação, desenvolvimento e assistência humanitária”, concluiu.

Mais de vinte anos depois do Jogo da Paz, Brasil e Haiti voltam a se encontrar em um cenário diferente: dentro de campo. Mas a história construída fora das quatro linhas continua sendo o principal elo entre os dois países.

*Em colaboração com Junior Almeida

Tags: Acolhimento HumanitárioBrasilDiplomaciahaitiImigração Haitianajogo da pazRelação Histórica

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