Júnior Almeida – Rios de Notícias
PARINTINS (AM) – Antes dos grandes rituais, dos efeitos de luz e das apresentações coreografadas que hoje marcam o Festival Folclórico de Parintins, a emoção na arena do Bumbódromo era bem diferente.
Parte dessa transformação passou pelas ideias de Ito Teixeira, artista que ajudou a introduzir elementos que mudaram a forma de contar histórias dentro do maior festival folclórico a céu aberto do mundo. Atualmente, Ito é diretor de concentração e de galpão do Garantido.
Em entrevista à Rede RIOS DE COMUNICAÇÃO, Ito relembrou uma das mudanças que considera mais importantes para o festival: a introdução das tribos amazônicas.
“Os dois bois brincavam como índios americanos. Então nós tivemos a ideia de fazer uma tribo, mas uma tribo no estilo amazônico”, contou.
Segundo ele, a primeira experiência foi a criação da Tribo dos Karajás. Ainda adolescente, Ito Teixeira começou a experimentar essas mudanças na apresentação dos bois no início da década de 1980.
Em 1982, ao lado do primo Amarildo Teixeira, introduziu a tribo, considerada uma das primeiras tribos amazônicas do Festival de Parintins.
“As tribos deram tão certo que fomos criando mais discípulos, preparando profissionais para que crescessem. Chegou um tempo em que o festival era tribo”, afirmou.
Para Ito, o impacto ultrapassou a arena e contribuiu para fortalecer a identidade regional. “O gringo vinha brincar de índio. E o amazonense passou a ter orgulho de ser indígena, porque antes não queria ser chamado de indígena.”
Nascimento do ritual
As tribos abriram caminho para outra inovação que se tornaria uma das marcas registradas do espetáculo de Parintins: o ritual indígena.
Ito conta que começou a experimentar apresentações com fogo, tochas e módulos cenográficos que se conectavam dentro da arena. A ideia foi evoluindo até ganhar um formato próprio.
“Comecei a fazer os módulos acoplados. Trouxe vários módulos e saí montando. Foi outra mudança no festival. E eu dei o nome para tudo isso de ritual.”
Com o passar dos anos, novos personagens e elementos foram incorporados às apresentações. “Fui trazendo o pajé para dentro, fui trazendo a cunhã-poranga, fazendo aquelas apresentações de ritual. Depois a toada veio para reforçar isso tudo.”
A ideia de apagar as luzes
Outra mudança lembrada por Ito foi a decisão de utilizar a escuridão como recurso cênico nas apresentações dos bois. A ideia surgiu após uma observação simples no próprio Bumbódromo.
“Eu percebi que apenas duas torres davam iluminação suficiente para a arena. Aí pensei: nós vamos apresentar com apenas duas torres. Quando sair, eu apago a luz.”
A experiência deu certo e acabou alterando a forma como o público participava do espetáculo. “Foi uma mudança extraordinária. A torcida passou a fazer parte do contexto do ritual. As velas, as luzes da galera, tudo começou a fazer parte da apresentação.”
Segundo ele, o uso da iluminação abriu caminho para outros recursos que hoje são considerados indispensáveis no festival. “Vieram as luzes de palco, a iluminação de show, toda essa estrutura que existe hoje.”
Nova geração
Atualmente diretor de galpão e diretor de concentração do Boi Garantido, Ito destaca que seu papel passou a ser compartilhar experiência com os artistas mais jovens que hoje comandam a criação dos espetáculos.
“Somos da outra geração e hoje a gente vem como apoio. Eles ouvem a gente, pedem opinião e quem ganha são eles, que estão crescendo.”
Ao avaliar a evolução do festival ao longo das últimas décadas, Ito resume as mudanças com uma frase que considera essencial para entender a história da arena. “Tudo veio da audácia de fazer.”
*Com colaboração de Keynes Breves






