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‘Adultização’ na internet: denúncia de youtuber sobre rede de exploração infantil acende alerta sobre crimes digitais

Após denúncia do influenciador Felca, especialistas apontaram ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS os impactos psicológicos, lacunas na legislação e desafios nas investigações de crimes digitais

10 de agosto de 2025
em Especiais
Tempo de leitura: 9 min
adultizacao-felca-crimes-rede

Adultização de crianças tomou conta das redes sociais nos últimos dias (Arte: Abraão Torres/Rios de Notícias)

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Júnior Almeida – Rios de Notícias

MANAUS (AM) – Um vídeo publicado pelo influenciador Felipe Bressanim, conhecido como Felca, trouxe à tona uma realidade perturbadora e se tornou um dos assuntos mais comentados da internet nos últimos dias. A gravação, intitulada “Adultização”, foi publicada em seu canal no YouTube na última quinta-feira, 8/8, e já ultrapassou 22 milhões de visualizações.

Em 50 minutos, Felca apresenta um compilado de denúncias contra influenciadores digitais, incluindo o caso de Hytalo Santos, e discute os riscos da exposição e da adultização de crianças nas redes sociais — frequentemente associadas à exploração sexual e à monetização de conteúdo com menores de idade.

O youtuber também demonstra como o algoritmo de plataformas digitais pode favorecer a entrega desse tipo de conteúdo a pedófilos. A denúncia é reforçada por uma entrevista com uma psicóloga especializada em infância e adolescência, que fala sobre os impactos emocionais e sociais da exposição precoce.

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Leia também: Mulheres vítimas de violência agora podem pedir ajuda pela internet no AM

Dados alarmantes

As denúncias de Felca encontram respaldo em números divulgados pela SaferNet Brasil. Apenas no primeiro semestre de 2024, a organização recebeu 874 denúncias de links com exploração sexual infantil no Telegram. Outro levantamento aponta que mais de 1 milhão de brasileiros participam de grupos de pornografia infantil em aplicativos de mensagens.

Impactos invisíveis

Ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS, a psicóloga Débora Pacheco alertou para os efeitos da exposição precoce às redes sociais, que moldam a autoestima e a percepção de valor das crianças de forma nociva:

“Quando uma criança cresce sob o placar de curtidas e comentários, aprende cedo demais que vale pelo que o outro aprova. Isso aumenta a ansiedade de desempenho, a comparação constante e a baixa autoestima”, explica.

Psicóloga Débora Pacheco – (Foto: João Dejacy/Rios de Notícias)

Segundo ela, a chamada adultização — quando comportamentos, estéticas e temas adultos são impostos a crianças — “rouba etapas” importantes do desenvolvimento infantil:

“O corpo vira vitrine, e a criança passa a se observar de fora, como objeto. Isso fragiliza a construção do ‘quem eu sou’ e encurta drasticamente a infância”, afirma a psicóloga.

Além dos impactos emocionais, Pacheco destaca os efeitos neurológicos: o cérebro em desenvolvimento, por ser altamente plástico, pode ter circuitos mentais moldados por essas experiências, favorecendo a normalização da exposição íntima e aumentando os riscos de cyberbullying, grooming, sextorsão e da circulação ilegal de imagens.

“Infância não é vitrine de engajamento. A erotização e a exposição precoce não amadurecem ninguém — adoecem. Cabe à família, à escola, às plataformas e à Justiça reduzir a exposição, aumentar a proteção e ensinar competência digital com afeto e limites. Quando o adulto segura o limite com firmeza e cuidado, a criança conquista algo que nenhum algoritmo entrega: segurança para ser quem é, no próprio tempo”

Débora Pacheco, psicóloga

Desafios jurídicos

À reportagem, a advogada Eliza Portela lembra que o Brasil já conta com legislações como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o Marco Civil da Internet e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), mas que a efetiva aplicação ainda é falha.

Advogada Eliza Portela – (Foto: Divulgação/Acervo Pessoal)

“Crianças conseguem criar perfis com dados falsos, burlar a idade mínima e até monetizar conteúdo. As plataformas têm o dever de fiscalizar e agir contra conteúdos prejudiciais, assim como as autoridades competentes — inclusive quando o incentivo parte dos próprios pais”

Eliza Portela, advogada

Eliza reforça que não há no país uma legislação única e específica sobre proteção digital infantil, e que tecnologias como a inteligência artificial já são utilizadas na criação e disseminação de conteúdo ilegal envolvendo menores.

“Pais ou responsáveis que participam ou incentivam esse tipo de exposição também cometem infração e podem ser processados criminalmente. Ainda que se discuta uma legislação mais específica, é fundamental lembrar que os pais e responsáveis são os principais guardiões da integridade física e mental dessas crianças”, afirma a advogada.

Investigação e denúncia

O delegado Henrique Brasil, titular da Delegacia Especializada em Repressão a Crimes Cibernéticos, explicou que a identificação dos autores desses crimes é dificultada pelo uso de perfis falsos e pela velocidade de propagação do conteúdo.

“A vítima está sempre suscetível à revitimização. Outra pessoa pode postar novamente o conteúdo, compartilhar, apagar… Isso traz uma dificuldade muito grande”

Henrique Brasil, delegado

Outro gargalo nas investigações é a dependência de ordens judiciais para acesso a dados sensíveis. Para prevenção, o delegado reforça algumas orientações:

  • Evite publicar fotos de crianças com uniformes escolares ou com geolocalização ativada;
  • Não compartilhe informações sobre rotinas;
  • Mantenha perfis privados;
  • Converse abertamente com crianças e adolescentes sobre segurança digital e riscos da exposição.

Casos suspeitos de exploração infantil, pedofilia ou crimes digitais podem ser registrados em qualquer delegacia, além dos canais:

Os casos suspeitos de exploração infantil, pedofilia e crimes digitais podem ser registrados em qualquer delegacia. O delegado ressalta que também é possível denunciar por meio do Disque 100, do Disque 181 ou diretamente à SaferNet, que é responsável pelo monitoramento da internet no Brasil e recebe esse tipo de denúncia.

  • Disque 100
  • Disque 181
  • SaferNet (www.safernet.org.br)

“A orientação fundamental é não reenviar nem armazenar conteúdos ilícitos. Para a investigação, o ideal é coletar dados como links, capturas de tela e qualquer informação que ajude a identificar os responsáveis”, orienta o delegado.

Assista ao vídeo de Felca

Tags: Adultização infantilcrimes cibernéticosDenúncia FelcaExploração infantil digitalfelcaProteção infantil na internet

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