Letícia Rolim – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Desde os primórdios da trajetória política da capital do Amazonas, com Jorge de Morais assumindo o cargo de primeiro prefeito de Manaus, até os dias atuais, com David Almeida à frente da gestão municipal, um fato chama atenção: a ausência de uma prefeita mulher no comando da capital amazonense.
Em 2023, a vereadora Yomara Lins (PRTB), foi a primeira mulher a assumir a Prefeitura de Manaus, temporariamente, durante a ausência de David Almeida (Avante) e do vice-prefeito Marcos Rotta (PP).

Leia também: ‘Política não é algo em que você se perpetue’, afirma pré-candidata Maria do Carmo Seffair
Apesar de ter sido a primeira e última vez, isso se tornou um marco, demonstrando que a representatividade feminina na política é não apenas possível, mas também fundamental para uma democracia verdadeiramente inclusiva e igualitária.
Embora tenha um aumento de 34% no número de mulheres ingressando na política nos últimos anos, a desigualdade de gênero continua a prevalecer, limitando o acesso e a ascensão das mulheres em cargos de liderança. Esse cenário não é exclusivo de Manaus, mas reflete uma questão nacional que requer mudanças estruturais e culturais.
Durante o pouco tempo que esteve á frente do principal cargo do Executivo municipal, Yomara destacou a urgência em promover a participação ativa das mulheres na política, garantindo que elas não apenas tenham voz, mas também ocupem os mais altos cargos de decisão.
Inclusão da mulher na política
Essa lacuna não é mera coincidência, mas sim resultado de uma série de fatores que, ao longo do tempo, têm contribuído para a sub-representação feminina na esfera política. Entre esses fatores, a persistente violência de gênero, que muitas mulheres enfrentam ao ingressar no mundo da política.
Em resposta ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS, o analista político Diogo da Luz aponta que essa realidade reflete uma preocupação com a representatividade feminina nos órgãos públicos. Ele acredita que as mulheres contribuem para uma gestão mais inclusiva e sensível às necessidades da população.
No entanto, Diogo ressalta que medidas, como cotas, não necessariamente garantem uma evolução significativa na participação das mulheres na política.
“Contudo, minha impressão é que as sociedades que fizeram aumentar a participação feminina de maneira impositiva, como cotas e outras práticas, não evoluíram, pelo menos de forma mensurável. A combinação que parece ser vencedora no mundo é de democracia, igualdade perante a lei e participação voluntária das mulheres”, destaca o analista político.
Para Diogo, a vereadora Yomara Lins, pode ter sido uma das precursoras na quebra desse tabu, e ainda citou a ex-prefeita de Boa Vista do Ramos, Socorro Pereira.
“A vereadora ou prefeita Yomara Lins talvez tenha sido uma daquelas que rompeu um tabu. Parintins, Manaus e outras cidades têm chance de eleger uma prefeita, mas, ao que sei, a primeira a se eleger prefeita no Amazonas foi Maria do Socorro Pereira, em 1983”, disse Diogo.
Violência impede crescimento da mulher
A cientista política Liege Albuquerque trouxe à tona questões cruciais sobre a violência contra as mulheres no Brasil, destacando o relatório recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgado nesta quinta-feira, 7/3. Segundo a pesquisa, 18 estados apresentaram taxas de feminicídio acima da média nacional, revelando um cenário preocupante.
Albuquerque ressalta que houve um crescimento em diversas regiões, evidenciando o aumento da violência contra a mulher. A pesquisa aponta que na região Norte, o número de feminicídios passou de 133 em 2022 para 137 em 2023. Já no Sudeste, houve um crescimento expressivo, com 538 vítimas em 2023, em comparação com 512 em 2022.
“Saiu o resultado da violência contra mulheres no Brasil. Dados comparativos, que cresceu, em tudo quanto foi de estado, na maioria dos estados. O Amazonas foi um que cresceu, então é um estado com muita violência contra a mulher, é um estado que gera violência contra a mulher, o machismo é o homem se achar com poder, sobre a mulher”, disse Albuquerque.
Machismo e falta de apoio de mulheres
Albuquerque também levanta questões sobre a falta de apoio das próprias mulheres e o machismo arraigado na sociedade.
“Mulher já não vota em mulher tradicionalmente, infelizmente. No Brasil, e no Amazonas, o machismo impera muito, vide a violência contra a mulher. Então, na verdade, é muito complicado se colocar como mulher, até porque os partidos não apoiam as mulheres, qualquer partido que você vá, você pode ouvir isso em on e em off”, ressaltou Liege.
A cientista política destaca que as mulheres enfrentam dificuldades em obter apoio dos partidos políticos, mesmo diante da gravidade da situação. Ela ressalta que a representatividade feminina ainda é uma batalha a ser enfrentada, especialmente em um cenário onde o machismo prevalece e a violência contra a mulher persiste.
“Eu tenho uma amiga, que é jornalista e advogada e que já vai para a quarta eleição. Os partidos não investem na eleição dela, e acaba contando com ajuda de familiares. É muito complicado se colocar dessa forma, se o partido ganha uma grana que é do contribuinte, do fundo partidário, para investir, deveria investir nas mulheres, mas não investe”, destacou a cientista política.
Liege levanta a questão sobre qual foi a última vez que a gente teve uma prefeita com realmente condições de ganhar a prefeitura.
“Vanessa Grazziotin já faz o quê? Faz umas cinco eleições para trás. Desde então, nunca mais a gente teve uma mulher no segundo turno das eleições. Desde a Vanessa, e se não me engano, ela havia sido a primeira mulher, então para você ver como é que é o cenário”, relembrou Albuquerque.

Novos nomes
A empresária e reitora da Fametro, Maria do Carmo Seffair, pré-candidata do Partido NOVO à Prefeitura de Manaus, destaca sua independência e determinação em ocupar espaços políticos historicamente dominados por homens. Ela ressalta a importância de se tornar uma representante das mulheres, enfatizando sua experiência como uma mulher que trabalha, é independente e concilia múltiplos papéis na sociedade.
“Talvez as mulheres não se sintam muito representadas por outras mulheres. E espero que eu venha a ser, de fato, a representante das mulheres. Sou uma mulher que trabalha, independente, que luta, vai para rua, mas quando chega em casa, tem que dar conta. Não tem jeito. E nesse sentido, penso que as mulheres já deveriam ter ocupado esse espaço. Nós somos a maioria do eleitorado feminino. Somos a maioria nas universidades. Mulheres têm essa capacidade de dar conta de múltiplas funções, múltiplas formas de trabalhar”, destacou Seffair.

Doutora em Direito, Seffair defende a educação como base fundamental para a transformação da sociedade.
“Eu tenho investido em fazer educação política para os jovens dentro da faculdade há cinco anos. Temos um núcleo para isso. Porque são as escolhas políticas que vão fazer a diferença na nossa vida. E a cada dia há a necessidade de se integrar esse exercício de cidadania”, afirmou.
Dados
Um levantamento realizado pelo Instituto Alziras e seus parceiros revela um panorama da presença feminina na política municipal brasileira. No Norte do país, apenas 15% dos municípios têm mulheres como prefeitas, totalizando 68 cidades. Já no Nordeste, essa proporção sobe para 17%, com 307 municípios liderados por mulheres.
Por outro lado, as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul apresentam números inferiores, com 12%, 8% e 9% respectivamente, representando um total de 55, 137 e 106 cidades governadas por prefeitas.
O levantamento ressalta que, apesar das mulheres constituírem 51% da população brasileira, sua representação política nos municípios ainda é baixa, com apenas 12% das prefeituras. Um dado que também chama atenção é a sub-representação das mulheres negras, que compõem 28% da população, mas governam apenas 4% dos municípios.
Contudo, os homens continuam como maioria na política municipal, ocupando o cargo de prefeito em 88% das cidades do país. Esses números refletem a persistente desigualdade de gênero no cenário político brasileiro.
Análise global
O analista político Diogo da Luz ofereceu uma análise sobre a participação das mulheres na política ao redor do mundo.
“Os países que mais têm mulheres na política são curiosamente, Ruanda com 63% da Câmara e 40% do Senado, Bolívia com aproximadamente 50% e Cuba com 49%. O primeiro em grande parte como resultado das lutas tribais e do genocídio de 94, que fizeram a população feminina representar 70% do total. É talvez o único país do mundo onde disparou a quantidade de mulheres na política mais por necessidade que qualquer outra razão”, citou Da Luz.
Ao abordar a situação específica de Ruanda, o analista ressaltou que o país, embora ainda enfrente desafios democráticos, tem progredido gradualmente. Por outro lado, países como Noruega, Islândia, Suécia e Finlândia demonstram altos níveis de participação das mulheres na política, acompanhados por índices elevados de igualdade de gênero e democracia.
“Embora Ruanda ainda seja um país mal colocado no ranking das democracias, tem avançado com o passar dos anos um pouco mais que seus vizinhos diretos mas menos que os países mais democráticos do continente. Daí vêm Noruega, Islândia, Suécia e Finlândia, onde a participação das mulheres fica acima de 40%, com democracia e motivação espontânea das mulheres na política”, relatou o analista.
Da Luz sugere que o principal obstáculo para a participação das mulheres na política é a aversão delas a ambientes pouco transparentes, comuns nesse meio. Dessa forma, ele acredita que países que promovem esses valores têm mais sucesso em atrair mulheres para a política.






