Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Manaus cresceu, a frota de veículos disparou e os congestionamentos se tornaram parte da rotina da capital. Mesmo assim, a cidade ainda não possui metrô, Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) ou monotrilho em operação. O transporte coletivo continua dependente principalmente dos ônibus, enquanto carros e motocicletas ocupam cada vez mais espaço nas ruas.
A discussão sobre um novo modelo de mobilidade voltou à pauta com um estudo elaborado pela Secretaria de Estado de Infraestrutura (Seinfra), em 2024, que avalia alternativas como BRT, BRS, VLT e monotrilho para melhorar os deslocamentos na capital.
Mas por que, mesmo depois de anos de projetos e promessas, Manaus ainda não conseguiu implantar um sistema de transporte sobre trilhos?
A resposta passa pelo crescimento acelerado da cidade, pelas características do solo e da rede de drenagem, pelo custo das obras e, principalmente, pelo histórico de projetos que não saíram do papel.
Diante desse cenário, o Portal RIOS DE NOTÍCIAS ouviu especialistas em geografia, engenharia e mobilidade urbana para entender quais são os principais obstáculos para a implantação de um sistema de alta capacidade em Manaus e quais alternativas poderiam se adaptar melhor às características da capital.
As análises consideram desde as condições do solo e da rede de drenagem até custos, capacidade de transporte e integração entre diferentes modais.
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Mais veículos, mesma estrutura
O tamanho do desafio pode ser percebido pela evolução da frota. Segundo dados do Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU), o Amazonas contabilizou 1.340.249 veículos entre janeiro e julho de 2026.
Desse total, 1.053.677 veículos estão registrados em Manaus, o equivalente a cerca de 79% da frota estadual. Os outros 286.572 veículos pertencem aos municípios do interior do Amazonas.
Dados do Departamento Estadual de Trânsito do Amazonas (Detran-AM), também enviados ao riosdenoticias.com.br, apontam que 42.321 novos veículos foram registrados no estado entre janeiro e julho de 2026.
O crescimento da frota ocorre em ritmo superior ao aumento populacional. Entre 2014 e 2024, o número de veículos em Manaus cresceu 119%, enquanto a população aumentou 27%.
O avanço da frota amplia a pressão sobre as principais vias da capital. Entre os corredores apontados pelo estudo da Secretaria de Estado de Infraestrutura (Seinfra) estão as avenidas Djalma Batista, Constantino Nery, Torquato Tapajós e Governador José Lindoso.
O levantamento também identifica problemas que contribuem para os congestionamentos, como semáforos sem sincronização adequada, cruzamentos críticos, estacionamentos irregulares e dificuldades de circulação para pedestres.
O sonho do monotrilho
A ideia de levar um sistema sobre trilhos para Manaus ganhou força no final dos anos 2000. Em 2009, o monotrilho foi apresentado como uma das principais obras de mobilidade para preparar a cidade para a Copa do Mundo de 2014.
O projeto previa aproximadamente 20 quilômetros, ligando a zona Norte ao Centro.
Durante a gestão do então governador Omar Aziz (PSD), a proposta avançou para a contratação e chegou a ter contrato com o Consórcio Monotrilho Manaus, com valor estimado em R$ 1,46 bilhão. A obra, porém, não foi concluída.
O projeto enfrentou questionamentos de órgãos de controle. Em 2010, o Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Amazonas (MPAM) apontaram problemas no projeto básico.
A Caixa Econômica Federal também informou que o financiamento não seria liberado enquanto exigências legais não fossem cumpridas.
Em 2012, a Justiça Federal determinou a suspensão da implantação do monotrilho, citando problemas no projeto e na licitação, além de possíveis impactos sobre o patrimônio histórico de Manaus.
O sistema não ficou pronto para a Copa e acabou retirado dos compromissos de mobilidade relacionados ao Mundial.
Mais de uma década depois, Manaus continua sem transporte de passageiros sobre trilhos.
O solo de Manaus é um obstáculo?
Para especialistas, a implantação de um sistema sobre trilhos na capital não pode ser analisada apenas pelo número de passageiros que ele seria capaz de transportar. As características físicas da cidade também precisam entrar na equação.
O geógrafo e doutor em Geografia Urbana Marcos Castro explica que Manaus está localizada na Bacia Sedimentar Amazônica e possui áreas de platôs, fundos de vale e uma extensa rede de igarapés.
“A subtração da cobertura vegetal pode expor o solo a processos erosivos. E a expansão de uma cidade, se não for a partir de um processo de planejamento adequado, pode revelar essas áreas de fragilidade”, afirma.

Monotrilho, VLT ou metrô?
Entre os sistemas sobre trilhos, o monotrilho aparece como uma das alternativas consideradas tecnicamente mais adequadas às características da capital.
O engenheiro geólogo Izaías Nascimento dos Santos explica que o sistema elevado reduz a necessidade de intervenções subterrâneas.
“O monotrilho é mais simples do ponto de vista geotécnico, pois é um sistema elevado e o túnel deixa de ser necessário”, afirma.

O VLT de superfície também poderia ser utilizado, mas exigiria preparação do terreno, controle de drenagem, tratamento de solos e cuidados para evitar recalques.
Já o metrô subterrâneo seria o sistema de maior complexidade geotécnica, principalmente pelas características do solo e das condições hidrogeológicas de Manaus.
Considerando apenas a dificuldade geotécnica, Izaías estabelece a seguinte ordem: monotrilho, VLT de superfície e metrô subterrâneo.
Isso não significa, porém, que o monotrilho seja automaticamente a melhor escolha.
Custo, demanda, impacto ambiental, capacidade de transporte e integração com outros modais também precisam ser considerados.
E o BRT?
O BRT aparece como uma alternativa diferente. Em vez de trilhos, o sistema utiliza ônibus de alta capacidade em corredores estruturados, normalmente com faixas exclusivas.
A principal vantagem está na possibilidade de implantação com menor complexidade de infraestrutura em comparação com um sistema ferroviário.
O estudo da Seinfra também considera o BRS, que aproveita faixas exclusivas para ônibus já existentes.
A diferença é que, enquanto monotrilho, VLT e metrô exigem infraestrutura ferroviária específica, o BRT mantém a operação sobre pneus.
Por isso, a discussão não precisa necessariamente ser “trilhos contra ônibus”. A questão é definir qual combinação de modais atende melhor cada região da cidade.
Os rios também podem entrar na conta
Para Mario Ricardo Carvalho, mestre em Engenharia e representante do Observatório Nacional de Segurança Viária no Amazonas, Manaus precisa aproveitar outra característica que já faz parte da geografia da capital: os rios.
O especialista defende a criação de uma rede hidroviária integrada ao transporte terrestre. “Somente o transporte rodoviário não será suficiente para resolver os problemas de mobilidade de Manaus”, afirma.

A proposta inclui ligações hidroviárias entre diferentes regiões da cidade, conectadas a terminais de ônibus e, futuramente, a outros sistemas de alta capacidade.
Entre as possibilidades estão ligações entre as zonas Oeste, Sul e o Centro, além de uma alternativa entre as zonas Leste e Sul.
Para o eixo Norte–Sul, Mario Ricardo considera que o monotrilho poderia ser estudado. “Eu vejo potencial para que ele seja estudado principalmente no eixo zona Norte–Zona Sul, justamente por ser uma alternativa elevada”, diz.
O problema não é apenas escolher o modal
A experiência do monotrilho mostra que uma grande obra de mobilidade depende de muito mais do que uma decisão política.
Planejamento, financiamento, licitação, estudos técnicos, impactos ambientais e características do território podem determinar se um projeto sai do papel ou permanece como promessa.
O estudo atual da Seinfra também aponta que soluções de menor escala podem melhorar a mobilidade enquanto projetos maiores são avaliados.
Sincronização de semáforos, reorganização de retornos, melhoria dos pontos de ônibus, fiscalização de estacionamentos, recuperação da drenagem e calçadas mais acessíveis estão entre as medidas citadas.
Manaus ainda procura uma resposta
A capital amazonense já ultrapassou 1 milhão de veículos e continua aumentando a frota. Enquanto isso, a cidade segue sem metrô, VLT ou monotrilho em operação. O debate atual, portanto, vai além de escolher entre monotrilho, VLT ou BRT.
Manaus precisa definir como pretende integrar ônibus, transporte hidroviário e possíveis sistemas de alta capacidade para acompanhar o crescimento da população e da frota.
Depois de anos de projetos interrompidos, a pergunta que permanece é menos sobre qual modal é mais moderno e mais sobre qual deles pode ser tecnicamente viável, financeiramente sustentável e integrado à realidade de Manaus.
A cidade já cresceu. Agora, precisa decidir como vai se mover.






