Lauris Rocha – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – O período das convenções partidárias, iniciado em 20 de julho e que segue até 5 de agosto, trouxe um novo elemento para o debate eleitoral no Amazonas: a capacidade dos partidos de organizar grandes eventos em meio ao período mais quente do ano. Para cientistas políticos e sociais ouvidos pelo Portal Rios de Notícias, a logística das convenções deixou de ser apenas uma questão operacional e passou a representar um fator que pode influenciar diretamente a imagem dos candidatos perante o eleitorado.
Além das convenções, os especialistas chamam atenção para outro desafio que se aproxima. A partir de 16 de agosto, quando começa oficialmente a campanha eleitoral, candidatos intensificarão caminhadas, reuniões e visitas às comunidades justamente durante o período de estiagem e sob os efeitos do possível Super El Niño, fenômeno que deverá elevar ainda mais as temperaturas na região amazônica. Cabe aos partidos adotar medidas preventivas para garantir a segurança dos participantes.
“Os partidos que realizam convenções precisam disponibilizar água mineral em quantidade suficiente para evitar que as pessoas passem mal e, em casos mais graves, que ocorra até uma tragédia.”, pondera o cientista político Helso Ribeiro.
A discussão ganhou força após um ato político do governador e pré-candidato à reeleição Roberto Cidade (União Brasil), realizado na segunda-feira, 27/7, no bairro Alvorada 2, zona Centro-Oeste de Manaus. Durante o evento, uma mulher passou mal em meio à multidão e precisou ser socorrida. Testemunhas relataram que o calor intenso, a grande concentração de pessoas e a dificuldade de circulação dificultaram o atendimento.

Outro episódio ocorreu durante a convenção que oficializou as pré-candidaturas do senador Omar Aziz (PSD) ao Governo do Amazonas e do senador Eduardo Braga (MDB) à reeleição, realizada no Clube do Trabalhador do Sesi, na zona Leste de Manaus. Segundo a organização, milhares de pessoas participaram do evento. Durante o ato, foi anunciado no sistema de som que uma criança e um adolescente haviam se perdido em meio ao público, situação que evidenciou os desafios de controle e organização de grandes aglomerações.
Para o cientista social e advogado Carlos Santiago, independentemente da legenda ou do candidato, eventos dessa dimensão exigem planejamento rigoroso.
“Isso causa mal-estar para muitos participantes por causa das características climáticas da região. Seja em ambientes fechados ou abertos, o calor intenso pode provocar desconforto e comprometer a segurança das pessoas.”
Clima extremo e planejamento
O cenário torna-se ainda mais desafiador diante das projeções para o Super El Niño 2026, fenômeno que deverá intensificar o calor e prolongar o período de estiagem na Amazônia. Entre julho e setembro, Manaus tradicionalmente registra algumas das temperaturas mais elevadas do ano, fator que aumenta os riscos em eventos com grande concentração de público.
Para o cientista social e doutor em Sociedade e Cultura na Amazônia, Israel Pinheiro, a logística deve ser encarada como parte estratégica das campanhas eleitorais.

“É fundamental que partidos e candidatos contem com equipes preparadas para cuidar da logística, da estrutura, da distribuição de água e das condições de permanência do público, principalmente em um período de clima extremo.Ter bebedouros, acesso fácil à água e até reduzir o tempo de convenções muito longas pode contribuir para evitar que as pessoas passem mal.””
Segundo ele, a organização de uma convenção partidária deve considerar desde espaços ventilados até pontos de hidratação, facilidade de circulação e duração dos eventos.
Desafio nas campanhas de rua
Na avaliação do especialista, a preocupação não deve se limitar às convenções. Com o início oficial da campanha, candidatos intensificarão visitas a bairros e comunidades, exigindo planejamento adequado para deslocamentos e atendimento ao público.
“É preciso compreender a logística da capital e do interior do Amazonas. As conversas nas comunidades, as caminhadas e os encontros com eleitores também precisam considerar o contexto climático da Amazônia.”, reflete o cientista social.
Para Israel Pinheiro, o cuidado com a estrutura dos eventos também comunica uma mensagem política ao eleitor.
“Quando esses transtornos acontecem, passa-se a impressão de que o candidato está mais preocupado com o palanque do que com as pessoas. Pode parecer um detalhe, mas isso revela prioridades. O eleitor observa se existe preocupação com o bem-estar do público ou apenas com a realização do evento. Esse também é um aspecto ético da política e influencia a imagem de quem disputa um cargo público.”
Essa avaliação, segundo os especialistas, faz da logística um componente cada vez mais estratégico das campanhas eleitorais, especialmente em um cenário de calor extremo, grandes mobilizações e disputa acirrada pelo voto no Amazonas.






