Júnior Almeida – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A rivalidade entre Caprichoso e Garantido ganhou destaque em uma reportagem especial do The New York Times, um dos mais influentes jornais do mundo.
A equipe do veículo, composta pela jornalista Ana Ionova e o fotógrafo Dado Galdieri, foi até a Ilha Tupinambarana para acompanhar de perto o Festival de Parintins, considerado o maior espetáculo folclórico a céu aberto do mundo.
Em uma reportagem especial publicada nessa terça-feira, 14/7, o veículo norte-americano apresenta Parintins não apenas como o palco de um festival folclórico, mas como uma cidade onde a paixão pelos bois-bumbás define o cotidiano e as relações entre os moradores e até as marcas.
A reportagem, intitulada ‘Red Bull ou Blue Bull? Nesta cidade brasileira, você tem que escolher’ , começa descrevendo uma cena que, para quem vive na ilha tupinambarana, parece comum.
Bares ocupados por torcedores vestidos de vermelho ou azul, cadeiras e latas de cerveja nas cores dos bois, mototáxis personalizados e até bancos, lojas e faixas de pedestres pintados e adequados para representar uma das duas agremiações.
“Aqui, na pequena cidade brasileira de Parintins, ficar neutro não é uma opção“, resume o jornal.


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Para ilustrar a intensidade da disputa, o veículo ouviu moradores que cresceram em meio à rivalidade. “Se você nasce aqui, ou é vermelho ou é azul. Você tem que escolher“, afirmou Kellen Pinto, de 48 anos, cuja família vive em Parintins há gerações.
O The New York Times destaca que, diferentemente de outras cidades, a divisão não acontece por futebol nem por política.
“Nesta cidade de 100 mil habitantes, situada em uma ilha no Rio Amazonas, o que divide as pessoas é a forte lealdade a dois bois rivais, representados pelas cores azul e vermelha“, descreve a reportagem.
O jornal também percorre na história do Festival de Parintins e relembra o surgimento dos bois. Segundo a publicação, o Garantido nasceu em 1913, quando “uma família começou a entreter as crianças de sua vizinhança, composta por pescadores e descendentes de africanos escravizados, com um boneco gigante de um touro branco“.
No mesmo período surgiu o Caprichoso, representado por um boi preto, criado por outra família durante as celebrações do fim da colheita. “O touro, em contraste com seu rival branco, era uma forma de os irmãos cumprirem uma promessa que fizeram quando migraram do árido nordeste do Brasil em busca de chuva e prosperidade“, descreve a reportagem.
A reportagem também mostra que a rivalidade ultrapassa a arena. Há famílias que evitam pronunciar o nome do boi adversário, casas decoradas exclusivamente com uma única cor e moradores que proíbem a entrada de visitantes usando as cores rivais.
Em um dos relatos à reportagem, a moradora Ivanete Vieira da Silva, de 86 anos, afirma que sua família sempre torceu pelo Caprichoso. “Ninguém escolheu o outro, graças a Deus“, disse ao jornal.
A sobrinha dela, Alessandra Lopes, conta que levou a tradição para as novas gerações. “Foi assim que aprendemos. E passei isso para os meus filhos“, afirmou.
Do lado vermelho da cidade, o coordenador artístico do Garantido, Telo Pinto, também defende a importância da própria agremiação. “Nosso boi é autêntico, tem história. Ele representa verdadeiramente o povo“, declarou ao periódico.
O texto ainda mostra que a rivalidade chega à vida amorosa dos moradores. Casais contam que as diferenças entre Caprichoso e Garantido já provocaram discussões e até separações. “Em assuntos do coração, você não escolhe. Mas é preciso muito amor para fazer dar certo”, disse uma das entrevistadas.
Apesar da intensidade da disputa, o The New York Times conclui que a rivalidade é encarada pelos moradores, em grande parte, como uma celebração da cultura local.
Hoje, as disputas acontecem durante três noites na arena do Bumbódromo, reunindo milhares de espectadores e apresentações marcadas por alegorias monumentais, música, dança e referências à cultura indígena e amazônica.
Ainda segundo a reportagem, o Caprichoso abriu a primeira noite com dançarinos “vestidos com penas e strass”, que representavam “heróis locais, criaturas da floresta e guerreiros indígenas”.
Na sequência, o Garantido levou à arena “cenas do folclore indígena” em meio a carros alegóricos mecânicos com “leopardos rugindo e serpentes sibilantes”, em uma demonstração da grandiosidade do evento, como descreveu o periódico.






