Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A lenda de Kamara, que aborda a origem da vida, a proteção da floresta e a resistência cultural dos povos indígenas, foi resgatada pelo Boi-Bumbá Garantido para o Festival de Parintins 2026. A narrativa da Grande Onça-Mãe leva à arena uma mensagem voltada à ancestralidade, espiritualidade e ao respeito à natureza.
Na cosmologia do povo Kamarayana, Kamara não é vista como uma criatura selvagem ou ameaça da floresta. Ela ocupa um lugar sagrado na tradição indígena e é considerada a Grande Onça-Mãe, entidade responsável pela criação da vida e pela manutenção do equilíbrio natural.
Segundo a tradição oral, tudo o que existe tem origem em Kamara: florestas, rios, animais, ciclos da natureza e até pensamentos humanos seriam manifestações de sua força espiritual. Nesse contexto, a onça deixa de ser apenas um animal e passa a representar a própria essência da vida.
Povo Kamarayana e memória ancestral
A narrativa está ligada ao povo Kamarayana, grupo indígena associado à etnia Hixkaryana, de língua karib, que habita a região do Alto Nhamundá, na divisa entre Amazonas e Pará.

Conhecidos como “povo-onça”, os Kamarayanos mantêm uma relação espiritual profunda com Kamara. A lenda foi preservada principalmente pela tradição oral dos anciãos, que transmitiram os ensinamentos às novas gerações.
Com composição de Paulo Lindoso, Geandro Matos e Jorge Renato, a toada traduz para a linguagem musical a cosmologia do povo Kamarayana, apresentando Kamara como guardiã da vida e da floresta.

Em um dos trechos, a obra descreve a criação do mundo a partir da essência da Onça-Mãe:
“Em madeira, esculpiu estrelas, deu à luz, com seu pássaro de fogo a voar, pedras talhadas em montanhas, cores e pétalas, coração da terra, da onça-mãe”, diz a toada.
O compositor Geandro Matos, autor da toada “Kamara”, explica que o processo criativo partiu da sinopse encaminhada pela Comissão de Arte do Garantido.
“Nossa proposta veio da Comissão de Arte. Com a sinopse em mãos, comecei a estudar esse material e a trabalhar na criação da toada”, conta.
Natureza e espiritualidade
Para o doutor em História Bruno Miranda, Kamara representa uma narrativa de criação com caráter genealógico, que explica a origem do povo Kamarayana (Hixkaryana).
“A importância reside no fato de que essa narrativa é a narrativa da criação de um povo, da sua origem, tem caráter genealógico, ou seja, como surgiu o grupo Kamarayana”, destaca.
Segundo o historiador, a figura da Onça-Mãe expressa a forma como povos indígenas amazônicos constroem suas narrativas de origem, conectando natureza e espiritualidade.

“Destaco que mito não é algo simples ou ‘folclórico’, mas uma narrativa sagrada, espiritual e cósmica, que faz parte da vida do povo. Isso integra, de maneira auspiciosa, vida, sabedoria, espírito, cosmo e terra”, afirma.
Para ele, levar a lenda à arena do Festival de Parintins amplia o acesso às cosmologias indígenas e suas formas próprias de narrar o mundo.
“Sem dúvidas, trata-se do direito de ser ouvido e do direito de contar sua própria história, não uma história criada por ‘gente de fora’, mas vivida e escrita pelos próprios Kamarayana, e como esse povo constitui parte desse caleidoscópio cultural que é Parintins e a Amazônia”, conclui.
Valorização das culturas originárias
A historiadora e mestre em História Social Evelyn Ramos destaca que o Festival de Parintins tem grande alcance cultural e funciona como espaço privilegiado para a difusão de saberes amazônicos pouco conhecidos fora das comunidades de origem.
“Estamos diante de uma narrativa que nos permite conhecer outras formas de compreender a origem da vida, da floresta e dos próprios povos. Em um momento de valorização das culturas indígenas, isso contribui para ampliar o reconhecimento da diversidade cultural amazônica”, afirma.
Para ela, Kamara se destaca pelo vínculo com a ancestralidade e por articular memória, território, identidade e espiritualidade.
“A história de origem de um povo também ajuda a explicar sua relação com a natureza, com os ancestrais e com o espaço que ocupa. Por isso, quando essa narrativa chega à arena, ela ultrapassa o campo do entretenimento e nos convida a refletir sobre a riqueza das cosmologias indígenas amazônicas”, diz.

A pesquisadora reforça ainda a importância da tradição oral na preservação desses saberes.
“Muitas dessas narrativas chegaram até os dias atuais justamente porque foram preservadas pelos seus detentores e continuamente transmitidas às novas gerações. Kamara faz parte desse conjunto de saberes que permanecem vivos porque continuam sendo contados, lembrados e ressignificados ao longo do tempo”, destaca.
Ela acrescenta que valorizar essas narrativas também é reconhecer a diversidade cultural da Amazônia.
“Muitas vezes, a Amazônia é lembrada por sua floresta e seus rios, mas se esquecem das populações que construíram formas próprias de compreender e viver nesse território ao longo de milhares de anos”, conclui.






