Júnior Almeida – Rios de Notícias
PARINTINS (AM) – Em meio às lembranças da infância na Baixa da Xanda, às histórias contadas pelo pai e à fé que atravessa gerações na família, Maria do Carmo Monteverde permanece como uma das mais importantes guardiãs da memória e das tradições do Boi Garantido.
A filha de Lindolfo Monteverde, criador do boi encarnado, completou 88 anos na última sexta-feira, 29/5. A idade de Maria carrega um simbolismo que atravessa a história do Festival Folclórico de Parintins.
Em entrevista concedida à Rede Rios de Comunicação durante a tradicional Ladainha do Boi Garantido, realizada no dia 12 de junho do ano passado, Maria relembrou a origem da promessa que deu início a uma das manifestações mais importantes da cultura parintinense.

O momento reuniu integrantes da velha guarda, torcedores, devotos e simpatizantes para homenagear São João Batista, um dos padroeiros do boi. A reza cantada é um legado deixado por Lindolfo Monteverde, que transformou a fé em um dos pilares da identidade do Garantido.
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Segundo Maria, a história começou muito antes do boi ganhar projeção nacional e internacional. Na época, Parintins era uma pequena comunidade cercada pela floresta, sem médicos ou qualquer estrutura de saúde.
“Ele [Lindolfo] já brincava o boi quando fez a promessa. Estava com 11 anos e já brincava aqui na área onde nasceu, que foi neste curral”, recordou.
Lindolfo nasceu no dia 2 de janeiro de 1902, e viveu em uma localidade conhecida como ‘Baixa de dona Alexandrina’ a Xanda, que era sua mãe. Décadas depois, a vila de pescadores se tornou o que é hoje, a Baixa de São José.

A filha conta que Lindolfo foi acometido por uma forte febre provocada pela malária, doença que assolava a região. Sem recursos médicos, a família recorreu aos conhecimentos tradicionais.
“Não tinha médico, não tinha ninguém. Era só o povo que morava aqui na mata. Minha avó sabia de muitos remédios caseiros, deu tudo o que sabia, mas não conseguiu melhorar a saúde dele“
Maria Monteverde, filha de Lindolfo Monteverde

Com o agravamento da doença, a mãe de Lindolfo recorreu à fé. Ela pediu ao filho que escolhesse um dos santos celebrados pela família para se apegar em oração. Entre os nomes citados estavam São Sebastião, Santa Luzia, São João Batista, Santo Antônio e São Pedro.
“E aí ela foi dizendo os nomes, nós temos São Sebastião, nós temos Santa Luzia, nós temos Santa Maria, nós temos o São João Batista, nós temos o Santo Antônio, nós temos São Pedro. Quando ela terminou de falar os nomes, ele disse: ‘Eu quero São João Batista para me curar'”
Segundo as histórias transmitidas dentro da família, logo após fazer o pedido, Lindolfo adormeceu. Nos dias seguintes, a recuperação surpreendeu a família. “Com dois ou três dias ela viu a melhora. E que melhora foi essa? Nunca mais ele adoeceu daquela febre horrível.”
Curado, o menino retomou a brincadeira que mudaria para sempre a história cultural da Ilha Tupinambarana. “Ele disse para minha avó: ‘Mamãe, agora eu vou continuar o meu boi porque já estou bom'”.
A promessa jamais foi esquecida e décadas depois, transformou-se na tradicional ladainha realizada todos os anos e que continua reunindo centenas de pessoas em um ato de devoção e resistência.
Maria também recorda que o Garantido sobreviveu graças ao esforço coletivo da família. Quando Lindolfo precisou deixar Parintins para servir ao Exército, em Manaus, os irmãos assumiram a responsabilidade de manter o boi vivo.
“Ele tinha mais cinco irmãos homens. Quando viajava para Manaus, deixava os irmãos cuidando do boi.” Naquele tempo, a brincadeira acontecia de forma simples, pelas ruas da Baixa da Xanda, muito distante da grandiosidade que hoje toma conta do Bumbódromo.
“O boi foi a atração deste reduto aqui, que nós chamamos Baixa da Xanda ao longo de muitas décadas”, disse Maria, que testemunhou a transformação daquela manifestação popular em um espetáculo que hoje é conhecido mundialmente.
Mesmo assim, o orgulho pelo legado do pai continua sendo o sentimento mais forte. “Eu me sinto muito feliz. Muito, muito, muito feliz pelo nome do meu pai e da família.”
*Com colaboração de Jéssica Lacerda






