Redação Rios
BRASIL – O anúncio feito pelo governo dos Estados Unidos (EUA) nesta quinta-feira, 28/5, indicando que irá enquadrar como organizações terroristas internacionais as duas maiores facções criminosas brasileiras – Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) – foi recebido com preocupação por especialistas.
Eles manifestam receio sobretudo em relação à insegurança jurídica e a possíveis impactos no mercado financeiro, uma vez que operações recentes apontam, por exemplo, a ligação do PCC com a economia formal. Os pesquisadores afirmam ainda que a decisão pode comprometer a soberania nacional e, na prática, até mesmo dificultar a troca de informações entre os países.
De acordo com o governo americano, a medida, tomada à revelia do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e após a visita do pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro aos EUA, será efetivada no dia 5 de junho. Procurado, o Itamaraty ainda não se manifestou até a última atualização desta reportagem.
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“Quem deveria estar mais preocupado agora, neste momento, é o sistema bancário”, afirma Mauricio Dieter, professor de Direito Penal e Criminologia da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). “Se há alguma conexão que possa implicar indícios (de elo com o PCC), eles poderão bloquear ações e ativos de empresas no exterior. Cria uma insegurança jurídica enorme”, acrescenta.
Operações recentes, como a Carbono Oculto, deflagrada no ano passado, indicaram a infiltração de facções como o PCC na economia formal, com esquemas que envolvem não apenas integrantes da organização, mas também espécies de “parceiros de negócio” do crime organizado, atuando até da Avenida Brigadeiro Faria Lima, principal centro financeiro do país. Há ainda indícios de que grupos ligados ao PCC controlam centenas de postos de combustíveis no Brasil.
Até pela extensão da atuação do crime organizado atualmente, Dieter ressalta que a medida do Departamento de Estado dos Estados Unidos abre brecha para diferentes repercussões, o que pode incluir até o aumento de restrições de viagens de brasileiros para os Estados Unidos.
“Isso afeta a própria capacidade de intervenção dos Estados Unidos no nosso território ou em ativos brasileiros no exterior pela mera suspeita de conexão com o Comando Vermelho ou o PCC”, acrescenta. “É um pretexto para avançar em questões que estavam muito bem resguardadas pela diplomacia”.
Movimentação tem sentido geopolítico, avalia pesquisador
Na avaliação de Roberto Uchôa, pesquisador da Universidade de Coimbra, a medida adotada pelo governo dos Estados Unidos não ocorre em um sentido de cooperação com o governo brasileiro, que vinha se posicionando contra a classificação de organizações brasileiras como terroristas.
“É um movimento que tem muito mais sentido geopolítico, de pressão sobre o governo brasileiro e sobre o Brasil, que amplia o que o governo dos Estados Unidos tem feito com vários países da América Latina e que utiliza poderes coercitivos – seja por ameaça de sanções, intervenções ou, em última análise, ações militares – para pressionar governos a tomar decisões que favoreçam os interesses dos Estados Unidos”, afirma.
Como já mostrou o Estadão, quando o tema vinha sendo ventilado, pesquisadores divergiram sobre as chances de uma possível intervenção nos moldes do que se vê na Venezuela, que tem assistido a ataques direcionados pelo governo Trump a embarcações sob a premissa de combater o Tren de Aragua, facção com atuação mapeada inclusive no Brasil.
Medida pode ser entrave para cooperação em investigações
Ao mesmo tempo, pesquisadores e autoridades colocam em xeque possíveis ganhos investigativos e tecnológicos com o novo enquadramento de PCC e Comando Vermelho. Segundo Uchôa, se o objetivo fosse contribuir com o governo brasileiro, o caminho seria o da cooperação, dando continuidade a iniciativas já em andamento.
“Principalmente para combater dois pontos: o tráfico de armas e a lavagem de dinheiro”, afirma o pesquisador. “Em vez disso, é mais uma sinalização da política de interferência dos Estados Unidos em países da América Latina. O Brasil é apenas a bola da vez”.
No mês passado, os governos do Brasil e dos Estados Unidos firmaram um acordo de cooperação para intensificar o combate ao crime organizado transnacional, com ações voltadas à interceptação de cargas ilícitas de armas e drogas entre os dois países. As medidas incluem a adoção de um programa de compartilhamento de informações em tempo real.
“O que a gente sabe, ouvindo promotores, especialistas e policiais que trabalham com o tema, é que, quando você classifica uma organização como terrorista, há níveis de sigilo que são colocados nas informações e isso pode dificultar o acesso pelas polícias estaduais”, afirma a diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo.
Autoridades ouvidas pelo Estadão, como o promotor de Justiça Lincoln Gakiya – maior autoridade no país no combate ao PCC – e o procurador de Justiça e ex-secretário Nacional de Segurança Pública Mário Luiz Sarrubbo, afirmam que a medida pode favorecer criminosos em vez de endurecer o combate ao crime. Isso porque, ao aumentar o nível de risco atribuído às facções, o governo americano deixa de tratá-las como caso de polícia e passa a considerá-las um problema militar.
A consequência disso é que a Drug Enforcement Administration (DEA) e o FBI deixariam de investigar diretamente as facções, que passariam a ser um problema da CIA e das Forças Armadas dos Estados Unidos.
“Eu, por exemplo, troco informações toda semana com a DEA e o FBI. Com a transferência para a CIA, isso não vai ocorrer”, afirmou o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, que é jurado de morte pelo PCC.
Anúncio ocorreu após visita de Flávio Bolsonaro
O anúncio da medida pelos Estados Unidos ocorre após visita feita na última terça-feira, 26, por Flávio Bolsonaro ao presidente americano, Donald Trump. Na ocasião, o parlamentar disse ter pleiteado a inclusão das facções na lista de organizações terroristas internacionais. No dia seguinte, o senador se reuniu para discutir o assunto com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, responsável pelo comunicado da decisão.
“A administração Trump vai continuar usando todas as ferramentas disponíveis para proteger nossa nação e nossos interesses de segurança, mantendo drogas ilícitas longe das nossas ruas e acabando com os fluxos de renda que financiam narcoterroristas violentos”, escreveu Rubio.
Apesar da designação um dia após o encontro com Flávio, a gestão Trump já estudava há meses o enquadramento dos dois grupos e mantinha diálogo com o governo brasileiro sobre a intenção de efetivar o plano.
Rubio afirmou no comunicado do Departamento de Estado dos EUA que as duas facções possuem influência e conexões ilícitas que “se estendem muito além das fronteiras do Brasil, da nossa região” e também atingem o território americano.
Na prática, o anúncio indica que PCC e CV serão enquadrados tanto como Specially Designated Global Terrorists (SDGTs), que abrange também grupos criminosos americanos, quanto como Foreign Terrorist Organizations (FTOs), voltado a grupos estrangeiros com atuação nos Estados Unidos. Segundo mapeamento do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), o Primeiro Comando da Capital está presente em ao menos 28 países, incluindo os Estados Unidos.
“Pode parecer, para a população brasileira, uma saída, mas é uma ‘cortina de fumaça’. O que precisamos para enfrentar o crime organizado são acordos bilaterais”, afirma Carolina Ricardo.
Em nota, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública afirmou lamentar que “um tema com implicações profundas na soberania e autonomia do Brasil, na economia, sistema financeiro e nos mecanismos de cooperação regional e internacional tenha sido capturado pela disputa eleitoral e que a medida norte-americana seja incentivada como solução de um problema mais complexo, sem considerar os riscos de saídas unilaterais para uma economia do porte da brasileira”.
*Com informações da Agência Estado






