Júlio Gadelha – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A criminalidade é a principal preocupação de 64,4% da população no Amazonas. É o que revela a pesquisa AtlasIntel realizada em maio de 2026, que capturou um forte sentimento de urgência dos amazonenses diante da crescente insegurança no estado.
Para entender o impacto real desses números no cotidiano, a equipe de reportagem do portal Rios de Notícias percorreu pontos estratégicos da zona Norte de Manaus, onde ouviu os usuários do transporte público no Terminal de Integração 3 (T3), na Cidade Nova, e frequentadores da área comercial da avenida Francisco Queiroz, no conjunto Manoa.
Os relatos coletados nas ruas da capital amazonense refletem diretamente o medo e a vulnerabilidade que aparecem nas estatísticas.
Medo no transporte público
No Terminal 3, a rotina de quem depende do transporte coletivo é marcada pela vigilância constante e pela necessidade de mudar hábitos simples para tentar evitar assaltos. O assistente administrativo Jaderson Lima relatou adotar uma postura defensiva diária, mantendo os pertences sempre à vista. De acordo com ele, o temor faz com que esconda os aparelhos celulares na bolsa e monitore o redor antes de embarcar.
“Normalmente eu fico colocando meus celulares escondidos na bolsa e inclusive antes de subir no ônibus eu toda hora eu tô acompanhando ver se não tem ninguém apalpando meus bolsos. É muito perigoso”, afirma Jaderson.
O mesmo receio é compartilhado pela dona de casa Juliana Lopes, que expressou a angústia vivida por sua própria família. Ela afirmou ter medo e, embora nunca tenha sido assaltada pessoalmente, relatou que seu irmão e seu cunhado já foram vítimas de criminosos, perdendo dinheiro e o aparelho celular na capital.
“Eu tenho um pouquinho de medo, mas sempre coloco Deus na frente para ele me proteger e guardar. Graças a Deus, nunca fui assaltada, mas meu irmão e o meu cunhado já foram assaltados. Meu irmão foi pra faculdade no Centro, foi assaltado, tinha dinheiro lá e tinha tudo no celular dele”, declarou Juliana.


Os horários mais perigosos e mudança na rotina
No conjunto Manoa, trabalhadores de diferentes setores apontaram que a vulnerabilidade aumenta nas primeiras horas do dia e no início da noite. O vendedor Rafael Guerreiro identificou que a madrugada, no momento em que a população sai para o trabalho entre 4h30 e 6h, e a noite, na faixa das 18h às 21h, como os períodos mais perigosos para os pedestres.
“De madrugada, quando a pessoa tá saindo pro trabalho, 4h30 para 6h da manhã e na parte da noite às 18h para às 21h, acho perigoso. É, porque enquanto tem quase ninguém na rua os ladrões aproveitam, não tem ninguém olhando”, explicou Rafael sobre os motivos de evitar esses horários.
A cuidadora de idosos Valsilvia Monteiro confirmou a preocupação com os horários da criminalidade, citando o exemplo da filha, que trabalha em uma fábrica do Distrito Industrial e precisa sair de casa às 5h30. Ela apontou a faixa entre 5h e 6h da manhã como o momento principal para a ação de assaltantes.
“A minha filha trabalha no distrito, né, em fábrica, ela sai 5 e meia da manhã, é um perigo. Esse é o horário principal pra ser assaltada, 5 horas da manhã, 6 horas, é o horário deles”, relatou a cuidadora.
Valsilvia explicou que a insegurança afeta inclusive a rotina diária de cuidados básicos, relatando que já deixou de frequentar postos de saúde de madrugada devido ao risco elevado para conseguir retirar uma ficha de atendimento.
O impacto da violência também interfere diretamente no sustento de quem trabalha por conta própria. O locutor comercial Fabricio Dantas relatou já ter presenciado criminosos realizando assaltos na região. Conforme revelou o trabalhador, a insegurança o forçou a abandonar as vendas ambulantes que realizava com sua motocicleta nas ruas, por medo de perder o veículo e seus pertences pessoais.
“Já presenciei muito isso aí. Bandido tomando moto, celular, tomando bolsa de senhoras, tomando celulares de jovem por aí. Já deixei de trabalhar na rua por conta disso, né? Eu era vendedor ambulante. Trabalhava com a minha moto na rua. Hoje eu não posso fazer isso porque eu tenho medo de perder até meu veículo, entendeu? Meu celular e os pertences”, desabafou Fabricio.


Cobrança por ações políticas efetivas
A ausência de políticas públicas efetivas gera um forte sentimento de abandono e descontentamento direcionado à classe política.
O pizzaiolo Marcleito Castro criticou a postura de políticos, afirmando que, embora a maioria prometa melhorias durante o período eleitoral, as propostas não são cumpridas após a eleição.
“Que todo ano tem a política, mas a maioria dos políticos, né, que se elegem, prometem, mas não cumprem. A questão da segurança é a principal que falta na cidade para todo mundo? Governador, precisa dar mais segurança para a população. Pessoas se sentem inseguras pela rua, parada de ônibus, e outros locais também”, disse Marcleito.
Em tom crítico, Valsilvia Monteiro argumentou que os governantes não demonstram preocupação com os cidadãos comuns, concluindo que as autoridades não dão a devida atenção a essa parcela dos moradores.
“O nosso governante não se importa com as pessoas. A maioria são essas pessoas que não têm estudo, né, que são de baixa renda, a autoridade não liga pra essa gente”, criticou.


O raio-x dos problemas do estado
Além da segurança, o cenário de insatisfação medido pela pesquisa AtlasIntel aborda o acesso à saúde, citado por 55,3% das pessoas, e da corrupção, mencionada por 37,1% das pessoas. A qualidade da educação, fecha o grupo dos principais gargalos com 27,8%.

Outros temas estruturais, como infraestrutura (24,3%) e pobreza e desigualdade social (15,5%), completam a lista de prioridades sob a ótica dos moradores do estado.
A pesquisa AtlasIntel foi realizada por meio da metodologia Atlas RDR (Recrutamento Digital Aleatório), coletando respostas de forma orgânica durante a navegação na web.
O levantamento possui um nível de confiança de 95% e encontra-se devidamente registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número de identificação AM-09404/2026.






