Kataryne Dias – Rios de Notícias
IRANDUBA (AM) – “Chega um período do ano em que ninguém consegue abrir a janela ou a porta por causa da quantidade de moscas que vêm do lixão”. O relato de moradores expõe uma realidade vivida há décadas por famílias que convivem com o lixão de Janauari, no município de Iranduba, que cresce silenciosamente e avança sobre a floresta, ameaçando o solo, a água e a saúde da população.
É nesse cenário de denúncias recorrentes e impactos ambientais que nasce o novo documentário produzido pela Rede Rios de Comunicação, dentro do projeto DocumentaRios. A produção investiga os efeitos do descarte irregular de resíduos e aponta possíveis irregularidades na destinação do lixo no município, além da ausência de respostas efetivas do poder público.
O documentário foi publicado nesta sexta-feira, 5/6, data em que é celebrado o Dia Mundial do Meio Ambiente, reforçando o debate sobre a preservação ambiental e a gestão de resíduos sólidos na região.

O trabalho teve início após denúncias feitas por moradores ao Portal Rios de Notícias, especialmente após decisão da Justiça do Amazonas que determinou a suspensão imediata das obras de implantação de um aterro sanitário, atendendo a um pedido do Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM).
A interrupção do projeto reacendeu o debate sobre a gestão de resíduos sólidos no município e a falta de soluções estruturais para o problema.
Lixão cresce e pressiona o meio ambiente
Imagens históricas do Google Earth mostram que, em 2007, a área ocupada pelo lixão era de aproximadamente 32.996 m², o equivalente a cerca de quatro campos de futebol.

Já em 2026, a área saltou para cerca de 107.927 m², mais de 15 campos de futebol, um aumento de aproximadamente 74.931 m², representando crescimento de 227% no período analisado.

O avanço territorial do lixão levanta questionamentos sobre fiscalização ambiental e cumprimento da legislação brasileira de resíduos sólidos.
‘Impacto é acumulativo’, alerta especialista
O professor ambiental e pesquisador da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Carlos Freitas, alerta que os danos provocados por lixões são progressivos e afetam diferentes níveis do meio ambiente.
“O impacto ambiental de um lixão é acumulativo. Quanto mais tempo ele permanece sem tratamento, maiores são os danos. O chorume contamina o lençol freático e a água subterrânea. Além disso, há atração de urubus e ratos, que podem transmitir doenças. O odor também é um problema sério”, explicou.

Segundo ele, a degradação do solo afeta diretamente a biodiversidade local. “As espécies vegetais vão sendo eliminadas gradativamente porque o solo se torna inapropriado. A fauna também é afetada, com o afastamento de espécies que não se alimentam de resíduos e a substituição por outras adaptadas ao ambiente degradado”, completou.
Moradores relatam problemas diários
Segundo o líder comunitário Benedito Leite, a população convive há anos com problemas como mau cheiro, chorume e proliferação de insetos.
“Chega um período do ano em que ninguém consegue abrir a janela ou a porta por causa da quantidade de moscas. A gente vê que o poder público e a Câmara fecham os olhos para um problema que o município enfrenta há cerca de 30 anos”, afirmou.

Riscos à saúde
O médico infectologista João Abdala alerta que a proximidade com lixões representa risco elevado, especialmente para crianças e idosos.
“As moscas contaminam alimentos e podem causar doenças gastrointestinais. Além disso, gases tóxicos podem provocar problemas respiratórios. Quanto mais próximo do lixão, maior o risco, principalmente para crianças e idosos”, explicou.

O produtor rural Nazareno de Jesus também fez um apelo às autoridades. “O que temos aqui é um problema grave de contaminação do solo e do lençol freático. As crianças têm apresentado surtos de diarreia, além de prejuízos financeiros com a desvalorização dos imóveis”, disse.

Já o presidente comunitário André Peres classificou a situação como grave problema de saúde pública. “Esse é um caso de urgência de saúde pública. É um crime ambiental acontecendo diante de todos. Como falar em cidade turística convivendo com lixões?”, questionou.

Impactos podem reduzir qualidade de vida
O infectologista também alertou para impactos de longo prazo na saúde da população exposta continuamente ao lixão.
“A exposição constante pode levar ao aumento de doenças crônicas, problemas hepáticos, respiratórios e leptospirose. Isso pode reduzir a expectativa de vida em comparação com populações que não vivem nesse ambiente”, afirmou.

Órgãos não se manifestam
O riosdenoticias.com.br entrou em contato com a Prefeitura de Iranduba para solicitar posicionamento sobre as denúncias, mas não houve retorno até a conclusão do documentário.

O Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) também foi procurado para comentar possíveis investimentos e fiscalização do projeto do aterro sanitário, mas informou que não se manifestaria.
O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) foi acionado para esclarecer medidas diante do risco de contaminação por chorume em igarapés e no Rio Negro, mas informou que enviaria nota oficial, o que não ocorreu até o fechamento desta reportagem.
Documentário
Com reportagem de Kataryne Dias, imagens de André Luiz Nascimento e Tunico Santos, edição de imagens de Fabíola Moreira, produção e edição de texto de Fábio Leite, designer de Abraão Torres e direção de jornalismo de Rômulo Araújo, o sexto documentário do projeto DocumentaRios já está disponível no canal oficial do Portal Rios de Notícias no YouTube.






