Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Na semana do Dia do Jornalista, imagens compartilhadas nas redes sociais mostram o repórter João Lucas da Silva Mariano sendo empurrado por um perito criminal enquanto fazia a cobertura de um acidente de trânsito, na manhã desta quinta-feira, 9/4, na avenida dos Oitis, bairro Distrito Industrial, em Manaus.
O caso foi registrado pelo repórter e pelo cinegrafista Duilio Candido Venâncio no 9º Distrito Integrado de Polícia (DIP) e está sob responsabilidade do delegado Fabiano Rosas Nascimento.
A Secretaria de Estado de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) classificou o episódio como um “ato isolado” e informou que está sendo apurado.
O episódio envolveu o perito Gláucio Gradela e o repórter João Lucas da Silva Mariano, da Rede Onda Digital. Segundo jornalistas que estavam no local, o perito se irritou ao alegar que a equipe estaria desrespeitando a vítima ao se aproximar da cena do acidente.
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Testemunhas, no entanto, afirmam que os profissionais mantinham distância e não registravam imagens do corpo. Mesmo assim, o repórter acabou sendo empurrado, gerando um momento de tensão.
Durante a confusão, o perito mandou o repórter se calar, alegando que a equipe estava atrapalhando o trabalho da perícia. Outros jornalistas reagiram, defendendo que a orientação poderia ter sido feita de forma educada.
Em vídeos que circulam nas redes sociais, é possível ver João Lucas questionando: “A gente tá atrapalhando em que?”
João Lucas contou ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS que a confusão começou enquanto gravava uma reportagem.
“Nós estávamos fazendo o nosso trabalho de cobertura a um acidente fatal. Quando eu estava fazendo o meu material, o perito se aproximou e já empurrou o meu cinegrafista. Depois, começou a coagir todos os repórteres a sair do perímetro”, relatou.

Segundo ele, ao final de sua gravação, o perito voltou a empurrar o cinegrafista. “Na hora que eu tava terminando de fazer meu stand-up [momento que repórter grava sobre o caso], ele veio por trás do meu cinegrafista e empurrou ele pra sair”, disse.
João Lucas afirmou ainda que a equipe foi pressionada a se afastar a uma distância que inviabilizaria a cobertura do acidente. “Ele começou a coagir a gente a sair e a gente foi pra uma distância muito longa, onde não ia conseguir cobrir aquele acidente de jeito nenhum”.
O repórter também destacou que não houve diálogo prévio antes da abordagem mais ríspida. “Ele não falou comigo, não conversou comigo, já chegou falando ‘sai daqui, sai daqui, vocês têm que sair daqui’”.
Ao pedir uma abordagem mais respeitosa, ele afirma ter sido novamente empurrado. “Foi quando ele me empurrou duas vezes e falou algo como ‘ah, é? então vai sair assim’”, relatou.
A repórter Brenda Karollyne, do portal Imediato, afirmou que foram “surpreendidos por um perito que, infelizmente, foi de maior grosseria com a imprensa, sendo que a gente estava ali no limite que ele havia estabelecido. Nós só estamos aqui levando a informação e trabalhando do mesmo jeito que ele estava”.
Boletim de ocorrência
O caso foi registrado no 9º Distrito Integrado de Polícia (DIP) e está sob responsabilidade do delegado Fabiano Rosas Nascimento. O boletim aponta que o cinegrafista Duilio Candido Venâncio também teria sido empurrado e que vídeos do episódio foram anexados como prova.
A Rede Onda Digital divulgou nota de repúdio: “O repórter foi empurrado enquanto exercia sua função. Repudiamos qualquer forma de violência ou intimidação contra jornalistas e reforçamos nosso compromisso com a liberdade de imprensa. Agredir um jornalista é atentar contra o direito da população à informação”.
Posicionamento da SSP-AM
A Secretaria informou que determinou a apuração imediata dos fatos pela Corregedoria Geral do Sistema de Segurança Pública. Segundo a SSP-AM, a conduta do servidor “não representa o padrão institucional e é considerada um ato isolado”.
O órgão ainda explicou que o perito orientou presentes, incluindo jornalistas, a respeitar o isolamento da área, mas que as determinações não teriam sido integralmente cumpridas. A secretaria reafirmou respeito à liberdade de imprensa, destacando que protocolos operacionais devem ser seguidos.
Sindicato dos peritos se posiciona
O Sindicato dos Peritos Oficiais do Estado do Amazonas (Sindperitos-AM) divulgou nota afirmando que respeita a atuação da imprensa, mas ressaltou que “não pode tolerar situações em que, em busca de sensacionalismo ou repercussão nas redes sociais, vestígios sejam perdidos, provas comprometidas e a justiça prejudicada”.
A instituição destacou que a segurança e a integridade do processo investigativo devem prevalecer sobre interesses individuais. A nota reforça ainda o compromisso com a transparência, a legalidade e a defesa da categoria pericial, cobrando das autoridades o cumprimento rigoroso das normas e a responsabilização em caso de falhas.
O que diz a lei do Isolamento da cena
A Polícia Científica do Amazonas informou que atua seguindo rigorosamente os protocolos da cadeia de custódia, estabelecidos pelo Pacote Anticrime (Lei nº 13.964/2019).
A legislação prevê “o isolamento imediato da cena do crime, preservação dos vestígios e proíbe a entrada de pessoas não autorizadas antes da liberação do perito, garantindo a integridade das provas e evitando contaminações que possam comprometer a investigação”.
No entanto, relatos e imagens registradas no local apontam que os jornalistas atuavam durante o exercício da profissão a metros de distância da cena do acidente fatal.
Posicionamento do Sindicato dos Jornalistas
Em nota, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas (Sinjor-AM) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) se solidarizaram com os profissionais de comunicação e exigiram a “imediata apuração dos fatos e a adoção das medidas legais cabíveis” por parte da Secretaria de Segurança Pública e da Corregedoria de Polícia“.






