Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – O analista jurídico Fabio Sieg Martins, que integrava um dos grupos de montanhistas em trilha no Pico do Paraná, detalhou o trajeto percorrido pelo jovem Roberto Farias Thomaz, que estava desaparecido desde a madrugada do dia 1º de janeiro após realizar a trilha na montanha, localizada no litoral do estado. Roberto foi encontrado com vida nesta segunda-feira, 5/1.
Após ser encaminhado ao hospital, Roberto conversou com Fabio Sieg e relatou como se perdeu durante o percurso e de que forma conseguiu sobreviver.
Segundo o montanhista, o jovem estava debilitado, porém em estado estável no momento do encontro. Ele apresentava ferimentos nas mãos, com bolhas e cortes, além de hematomas nas pernas, canelas inchadas e perda de peso.
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Trilha confusa
De acordo com Fabio Sieg, Roberto confirmou que realizou a descida pelos grampos – estruturas de ferro fixadas na rocha, utilizadas para auxiliar escaladas e descidas – e não pela trilha conhecida como Camelos, como se imaginava no início das buscas.
Após deixar o cume, Roberto se perdeu no vale que leva ao rio Cacatu, uma área de mata fechada, com trilhas confusas e de difícil navegação. Ele relatou que chegou a seguir diferentes caminhos, mas, em determinado ponto, não conseguiu mais retornar, passando a descer em direção ao rio, o que aumentou significativamente os riscos da situação.
“Depois ele seguiu outra trilha e daí não conseguiu mais voltar”, relatou Sieg.
‘Milagre’
Um dos momentos mais críticos da sobrevivência foi a passagem por uma cachoeira considerada de difícil transposição. Questionado sobre como conseguiu ultrapassar o obstáculo, Roberto contou que acabou se lançando, em um ato extremo de sobrevivência.
A forma como ele conseguiu superar o trecho foi descrita por quem ouviu o relato como algo próximo de um “milagre”, dadas as condições do local.
Segundo Fabio Sieg, Roberto chegou ao hospital bastante debilitado, com ferimentos nas mãos provocados pelo contato constante com pedras e vegetação, além de pernas muito machucadas, com sinais de impactos contra rochas ao longo do percurso.
Resistência física
Durante o trajeto, Roberto perdeu uma das botas, o que ajudou a confirmar que as pegadas encontradas anteriormente na região eram, de fato, dele.
“Havia grandes possibilidades de ser uma pegada dele mesmo”, afirmou Sieg.
Ainda conforme o montanhista, mesmo com miopia severa, Roberto seguiu por cerca de dois dias sem óculos, que foram perdidos quando ele precisou sair rapidamente de um ponto onde o nível da água começou a subir de forma repentina. Mesmo enfraquecido, continuou acompanhando o curso do rio, respeitando seus limites físicos.
“As possibilidades de o Roberto já estar morto eram muito grandes, mas, graças a Deus, o pessimismo nunca prospera. O ‘piá’ conseguiu. O corpo humano é fantástico”, disse.
Fabio Sieg relatou ainda que, antes de o jovem ser encontrado, as chances de ele estar vivo eram consideradas mínimas, estimadas em cerca de 10%, devido ao tempo prolongado na mata e às condições adversas.
“Parece que Deus colocou a mão nele e protegeu o guri”, afirmou.
Desaparecimento
De acordo com as informações apuradas, Roberto e Thayane iniciaram a subida da montanha na tarde de quarta-feira, 31 de dezembro, com o objetivo de assistir ao nascer do sol no primeiro dia do ano. Durante a trilha, Roberto apresentou mal-estar, incluindo episódios de vômito, e acabou ficando para trás.
O jovem chegou ao topo da montanha por volta das 4h da manhã de quinta-feira, quando decidiu descansar. No percurso, eles encontraram outros grupos que também realizavam a trilha, mas Roberto acabou seguindo sozinho no retorno à base, onde foi localizado posteriormente pelas equipes de resgate.






