Elen Viana – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A Amazônia enfrenta um “colapso silencioso do lixo”, marcado pela falta de saneamento básico, ausência de aterros sanitários e expansão descontrolada de lixões a céu aberto, enquanto o tema praticamente passou despercebido na programação oficial da COP30, realizada em Belém (PA).
No Amazonas, 91,9% dos municípios ainda utilizam lixões como principal forma de descarte de resíduos sólidos, o maior índice do país, segundo o IBGE. Entre os 62 municípios do estado, 61 não possuem aterro sanitário.
A consequência, segundo especialistas, é um cenário de contaminação crescente de rios, solo, igarapés e comunidades inteiras, sem fiscalização e sem políticas públicas estruturais.
Mesmo diante desse cenário, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), realizada em Belém (PA), não incluiu, na programação oficial, debates específicos sobre destinação ou reaproveitamento de resíduos sólidos, tema diretamente relacionado à sobrevivência ambiental e social da Amazônia.
Apesar da gravidade, apenas cinco dos 286 painéis da COP30 abordaram o tema resíduos sólidos até a última sexta-feira, 21/11. A “falta de interesse” contrasta com a urgência do problema no Brasil, onde a geração de lixo segue aumentando, conforme o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2024, da Abrema.

Impacto ignorado nas negociações climáticas
Especialistas ouvidos pelo Portal RIOS DE NOTÍCIAS apontam que a falta de atenção internacional ao tema contribui para manter o problema invisível.
Para o pesquisador da Ufam Neliton Marques, resíduos sólidos “não atraem os holofotes” porque não geram a mesma percepção de poluição que indústrias e transportes.
“A conferência aconteceu na Amazônia, uma região marcada por falhas históricas no saneamento. Os lixões são grandes emissores de gases de efeito estufa, mas não ganham visibilidade”, afirmou.

O pesquisador Rodrigo Couto reforça que o lixo não desperta interesse político ou econômico suficiente para entrar no centro das negociações.
“Muitas cidades amazônicas não têm sequer o básico em saneamento. Fala-se muito em floresta, mas pouco sobre as condições mínimas para que os municípios possam gerir seus resíduos sem comprometer rios, solos e ecossistemas”, disse.

Segundo a ISWA, o tratamento adequado e o reaproveitamento do lixo poderiam reduzir de 15% a 25% das emissões globais de carbono, potencial ignorado pela agenda climática predominante.
No interior do AM, dados inexistem e lixões se acumulam
Enquanto a COP30 discute metas globais, municípios amazônicos convivem com o avanço diário de lixões sem controle ambiental. Em Manaus, a capital produz cerca de 2,4 mil toneladas de lixo por dia, segundo dados da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp).
Já no interior, o cenário é marcado por ausência quase total de informações: o Amazonas não possui dados atualizados, consolidados ou monitorados sobre a quantidade de resíduos produzidos nos demais 61 municípios.

O professor Carlos Freitas, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), explica que a situação é crônica e deveria ter sido resolvida há anos. Para ele, a falta de políticas públicas e de infraestrutura adequada permite que a poluição siga se espalhando, trazendo risco direto à saúde pública, à segurança alimentar e às populações tradicionais.
“É um problema extremamente sério, que já deveria ter sido resolvido há cerca de 15 anos. Infelizmente, não existem políticas públicas com decisão suficiente para implantar aterros sanitários ou tecnologias mais seguras. Com o tempo, a qualidade dos igarapés é completamente alterada e degradada. Isso representa um risco enorme para a saúde pública, para a segurança alimentar e para as comunidades tradicionais, que dependem desses igarapés para abastecimento de água e, muitas vezes, de proteína, como o peixe”, explica Freitas.

Segundo o pesquisador, o abandono é ainda mais evidente em cidades do interior, como Parintins, Eirunepé e Benjamin Constant. Nessas localidades, o volume de resíduos cresce sem qualquer monitoramento ou política de tratamento, configurando o que ele chama de “colapso silencioso do lixo” na Amazônia.
Em Parintins, por exemplo, o lixão público fica na estrada Odovaldo Novo, próximo ao Centro de Ensino Superior de Parintins (CESP–UEA) e ao bairro Djard Vieira, a poucos metros de residências, áreas de mata e corpos d’água.
“Alguns municípios não têm área de expansão. Parintins é um caso terrível, por estar em uma ilha, o lixão fica dentro da própria ilha convivendo com toda a população. Eirunepé tem o lixão muito próximo da área do aeroporto. Já em municípios próximos à Tríplice Fronteira, as áreas são de várzea, e o lixão enche de água em determinadas épocas, agravando ainda mais a situação. Um simples saco de lixo, deixado de um dia para o outro, forma chorume. Imagine isso em uma montanha de resíduos: o líquido percola pelo subsolo, contamina o lençol freático e todos os igarapés conectados”, acrescenta o professor.

Novo aterro em Manaus
Apesar do avanço representado pela construção do primeiro aterro sanitário de Manaus, as soluções trazem impactos sociais imediatos. O novo empreendimento está sendo construído ao lado do atual aterro controlado, no km 19 da AM-010, no bairro Lago Azul, zona Norte.
Com investimento superior a R$ 20 milhões, a obra ocupará 67 hectares divididos em quatro células operacionais de quase cinco hectares cada. A previsão de funcionamento é para fevereiro de 2026, com vida útil estimada em 20 anos, conforme estabelecido em Termo de Ajustamento de Conduta (TAC).

O professor Carlos Freitas destaca, porém, que um aterro sanitário exige uma série de procedimentos rigorosos para minimizar impactos ambientais, e que isso não apaga décadas de degradação acumulada.
“Um aterro sanitário tem vários procedimentos para limitar a contaminação. Desde a construção, a formação das baias, as piscinas revestidas com diferentes camadas para evitar infiltração do chorume. Mas é importante lembrar que a área onde está o lixão de Manaus, onde agora se propõe o aterro, já foi completamente alterada e degradada pelos 50 anos de funcionamento do lixão. Fazer uma nova estrutura não resolve os problemas antigos”, afirma ele.
A nova obra foi destacada pelo prefeito David Almeida (Avante) como um dos pilares da participação de Manaus na COP30, apresentada como uma iniciativa de resultados “concretos” e “mensuráveis”.
“A cidade de Manaus está fazendo a sua parte. Todo o lixo que vier para o aterro será tratado adequadamente e vamos abrir uma usina para aproveitar o gás e produzir biometano”, afirmou o prefeito.
Segundo ele, a mudança representa um avanço decisivo para a transição energética da capital, com impermeabilização do solo, tratamento de chorume, captação de metano para produção de biometano e reutilização da água tratada.
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Aterro avança, mas preocupa vizinhos
Embora o prefeito de Manaus, apresente o novo aterro sanitário como um marco de modernização e como um dos projetos destacados na COP, o planejamento e a execução da obra contrastam com a realidade vivida pelos moradores do Lago Azul, comunidade localizada ao lado do atual lixão.
Segundo os moradores, a obra foi iniciada sem consulta pública ou qualquer tipo de aviso prévio, mesmo estando a menos de 50 metros das residências. Eles afirmam que os impactos já começaram a ser sentidos, especialmente com o aumento do fluxo de caminhões, poeira constante e receio de agravamento de problemas ambientais e de saúde.

A moradora Rosângela Freitas, que vive há 16 anos na comunidade, conta que a vizinhança foi pega de surpresa com o início das obras, já que nenhuma reunião, aviso formal ou consulta prévia foi realizada antes das máquinas chegarem ao local.
“Nós ficamos sabendo por um trabalhador que estava fazendo a cerca. Ele disse que seria um aterro sanitário, mas oficialmente ninguém comunicou nada. Procuramos os órgãos públicos e, até agora, não tivemos resposta. Esse aterro já está impactando nosso dia a dia com barulho e até rachaduras nas casas. E vai piorar muito quando começar a funcionar, porque a gente não tem encanação, só poço artesiano. Vai ter contaminação da água, moscas, mosquitos. Os animais já estão invadindo as casas”, relata.

O morador Expedito Pereira, que vive há 35 anos na região, confirma que não houve qualquer diálogo prévio com a comunidade. Ele reforça que o atual lixão já provocou danos significativos aos igarapés próximos, como o Matrinxã e o Acará, um histórico que aumenta o temor sobre o novo aterro.
“Quando a gente soube, reunimos os moradores. Estamos muito preocupados. O primeiro lixão já degradou um braço do rio Tarumã, que é o igarapé do Matrinxã, ali atrás. Acabou com a água da região. E a Prefeitura nunca procurou nenhum morador. A gente pode falar com propriedade porque somos vizinhos do aterro sanitário”, afirma.

Grande parte das famílias depende exclusivamente de poços artesianos, justamente o tipo de captação mais vulnerável à contaminação quando há proximidade com lixões ou aterros.
“Porque nós moradores não sabíamos realmente o que ia ser essa construção, onde a maioria da comunidade vive de poço. Nós não temos água encanada, e a nossa preocupação é poluir a nossa água. Como é que a gente vai viver sem água, com as crianças pra tomar banho? Que água nós vamos usar? No final, só queremos continuar no nosso lugar”, relata a moradora Maria José.
Os impactos do novo aterro tendem a ser ainda mais graves porque a região já convive historicamente com a ausência de saneamento básico, essa condição que amplia os riscos de contaminação, surgimento de doenças e degradação da água.
Para o especialista Rodrigo Couto, os problemas relatados pelos moradores não podem ser compreendidos isoladamente: eles estão diretamente ligados à falta de infraestrutura essencial, especialmente no abastecimento de água e na coleta e tratamento de esgoto, lacunas persistentes na zona Norte de Manaus.
“Muitas cidades amazônicas e regiões da própria capital ainda não dispõem do básico em saneamento e gestão de resíduos, o que faz com que a população conviva diariamente com lixões a céu aberto, contaminação da água e riscos à saúde. Enquanto não houver condições mínimas de saneamento, esses territórios continuarão expostos a problemas que vão muito além do lixo”, afirma ele.

A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Manaus e com a Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp) para solicitar esclarecimentos sobre a construção do novo aterro, os impactos sentidos pelos moradores e a existência de um possível plano de reassentamento. Até o fechamento desta matéria, não houve resposta. O espaço permanece aberto para manifestação.
Saneamento básico como chave
Apesar do cenário crítico, a concessionária Águas de Manaus afirma que existem projetos de expansão do abastecimento e do saneamento básico na zona Norte.
A coordenadora de tratamento de esgoto, Tannia Mattos cita o programa Trata Bem Manaus, que pretende garantir a universalização dos serviços de coleta e tratamento de esgoto na capital, com foco justamente nas áreas mais afastadas.
“Estamos desenvolvendo esse projeto por meio do Trata Bem Manaus, que visa à expansão e ao crescimento do saneamento na cidade. Essas áreas mais afastadas já estão contempladas em nosso planejamento de universalização”, explica.

A concessionária reconhece, porém, que as metas são desafiadoras e dependem de investimentos elevados, especialmente nas áreas que concentram os maiores déficits de infraestrutura. Apesar disso, afirma que já possui projetos em andamento para avançar na expansão dos serviços.
“Atualmente, Manaus possui 35% de cobertura de esgoto e nossa previsão é chegar a 90% até 2033. Temos estudos prontos, como os projetos de implantação de redes de água e esgoto em becos, rip-raps e palafitas. Para os próximos anos, estão previstos mais de R$ 2 bilhões em investimentos, a concessionária tem capacidade de atender essa meta desafiadora”, afirma Mattos.

A presidente-executiva do Instituto Trata Brasil (ITB), Luana Pretto, reforça que a falta de avanço no saneamento básico mantém milhares de famílias da região Norte em um ciclo contínuo de doenças e desigualdades.
Segundo ela, a ausência de coleta e tratamento de esgoto, água tratada e destinação adequada do lixo intensifica problemas de saúde pública e aprofunda vulnerabilidades sociais.
“Estamos falando de uma série de doenças associadas à falta de saneamento básico. Dengue, esquistossomose, leptospirose, hepatite e até a própria diarreia estão diretamente ligadas ao não acesso ao básico. E isso faz com que as crianças tenham prejuízo no seu desenvolvimento, os adultos tenham uma menor produtividade e que os próprios rios sofram com a deterioração desse esgoto bruto sendo lançado”, afirma ela.
Manaus ocupa atualmente o 87º lugar no Ranking do Saneamento 2025 do Instituto Trata Brasil, permanecendo entre as 20 piores cidades do país em indicadores como atendimento de água, coleta e tratamento de esgoto, investimento por habitante e índice de perdas na distribuição.

Para a presidente, esse desempenho revela um cenário crítico que exige ações emergenciais para que a capital avance na oferta de serviços essenciais. Onde ampliar a coleta e o tratamento de esgoto, é fundamental não apenas para reduzir doenças, mas para garantir a preservação ambiental da bacia amazônica.
“Pensar em saneamento é pensar na preservação do ecossistema amazônico e na qualidade de vida da população. Muitas famílias e, sobretudo, crianças ainda sofrem com a falta do básico. Mas, com planejamento, investimento e continuidade das políticas públicas, é possível mudar essa realidade”, afirma Pretto.
Em uma região onde o lixo expõe desigualdades históricas e compromete a saúde de cidades inteiras, especialistas são unânimes: qualquer solução passa pelo saneamento básico. Sem água potável, coleta e tratamento de esgoto e gestão adequada de resíduos, toda medida será apenas paliativa.












