Lauris Rocha – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Celebrado nesta sexta-feira, 19/9, o Dia Mundial pela Limpeza da Água mobiliza países ao redor do mundo em ações de conscientização sobre a importância da preservação dos recursos hídricos e da limpeza de rios, lagos e oceanos.
Em Manaus, na região amazônica, onde os igarapés cortam a cidade e fazem parte da paisagem urbana, a data ganha um significado ainda mais urgente, enfrentar a poluição que ameaça a maior bacia hidrográfica do planeta.
Leia também: Em Manaus, comunidades tradicionais têm acesso à água no maior bairro indígena do país
Para quem vive às margens desses cursos d’água, como a autônoma Larissa Bahia, a realidade é marcada por problemas cotidianos, como o mau cheiro e os riscos à saúde. Moradora do bairro Compensa, na zona Oeste da capital, ela relatou os impactos da poluição no igarapé próximo à sua casa.


“Eu acho que é muito ruim para o ar que a gente respira. Esse ar poluído, quando vem o vento, é prejudicial para todo mundo. Mas principalmente para as crianças e os idosos, que são mais vulneráveis, com a saúde mais frágil. Eles adoecem com mais facilidade”, afirmou.
O pequeno Pietro Santiago, de apenas nove anos, também percebe o problema no trajeto diário até a escola, passando pela margem do igarapé.
“Eu acho errado jogar lixo no rio. Devia jogar no lixo, o lixo”, disse, com simplicidade e consciência.


Igarapé do São Raimundo
O Igarapé de São Raimundo é um curso d’água localizado na capital e forma uma sub-bacia hidrográfica, parte importante da paisagem e história urbana de Manaus, embora hoje enfrente sérios problemas de poluição e degradação ambiental.
Nesta parte da cidade, também na zona Oeste, a cena se repete: lixo acumulado às margens do Rio Negro, próximo a casas flutuantes e a um importante ponto de lazer da cidade, o Parque Rio Negro (que abriga um mirante com vista privilegiada para o rio).
A aposentada Graça Balbi, que caminha todos os dias pela área, fez um apelo emocionado. “Eu acho que nossos governantes deveriam olhar isso com mais carinho. A saúde da população, o futuro das nossas crianças e adolescentes dependem da preservação. Não adianta só o poder público limpar, cada um precisa fazer a sua parte”, pontuou.


Dona Graça ainda dá o exemplo de preservação aos recursos hídricos ao afirmar que descarta seus lixos em locais corretos. “Se eu estou chupando um bombom, um picolé, guardo o papel no bolso ou na bolsa para jogar no lixo certo. Mas infelizmente, poucas pessoas fazem isso. A maioria joga ali mesmo, a céu aberto, contaminando o rio. É por isso que está essa porcaria que vemos hoje”, ressaltou.
Amazônia ameaçada: plásticos em rios, fauna e até no solo
Um estudo conduzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com o Instituto Mamirauá, revelou um cenário alarmante: a contaminação por resíduos plásticos está espalhada por ecossistemas terrestres e aquáticos da Amazônia, com riscos diretos à saúde, especialmente das populações ribeirinhas e indígenas.
A pesquisa, publicada na revista científica Ambio, analisou 52 estudos e encontrou presença de plástico, desde macro até nanopartículas, em água, solo, fauna, flora e sedimentos.

A crise é global. As Nações Unidas estabeleceram o prazo até agosto deste ano para que cerca de 180 países apresentassem propostas para o primeiro tratado internacional de combate à poluição plástica. E, mesmo com toda a sua riqueza natural, a Amazônia já aparece entre as regiões com rios mais contaminados por plásticos do mundo.
Trata Bem Manaus
A concessionária Águas de Manaus também procura fazer sua parte ampliando a cobertura de esgoto na capital amazonense através do “Trata Bem Manaus”, programa que visa tratar a água suja proveniente das residências.


“É um programa de universalização de rede coletora na cidade. Hoje a nossa capacidade está com 34% e a gente quer chegar até 2033 com 90% de cobertura na cidade. O que a população ganha com isso? Primeiro, nós vamos trazer toda a implantação nos seus bairros e vamos deixar uma espera para que a população se interligue no nosso sistema, para que a gente consiga tratar toda a água suja, todo o seu esgoto que sai das suas residências”, disse destacou o Gerente de Projetos da Águas de Manaus, Waldiney Lima.

Valorização dos igarapés
De acordo com a concessionária a água poluída das casas será transportada para uma estação de tratamento.
“Vamos fazer o tratamento devido e devolver para o meio ambiente. Qualidade, saúde, dignidade são os benefícios que a população irá ganhar. Nós vamos ter uma valorização imobiliária e o ponto focal é recuperar os nossos igarapés. Toda essa implantação, toda essa estrutura, toda essa cobertura e implantação de rede coletora vai trazer melhorias para a nossa cidade e para os nossos igarapés.”, finalizou o gerente da Águas de Manaus.
Semulsp aponta volume de resíduos retirados
Segundo a Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp), já foram retiradas mais de 2,4 mil toneladas de resíduos dos cursos d’água da capital em 2025, incluindo cerca de 390 toneladas recolhidas apenas no mês de julho. As ecobarreiras instaladas em pontos estratégicos também impediram que aproximadamente 2,5 mil toneladas de lixo chegassem ao rio Negro.

O coordenador do serviço de limpeza de rios e igarapés da Semulsp, Marlon Chagas, informou que as equipes trabalham diariamente, inclusive aos domingos e feriados, para conter o lixo. Segundo ele, as chuvas intensas arrastam resíduos para os igarapés, o que exige atuação imediata.
“Antes de o lixo chegar ao rio Negro, cercamos o material com botes, levamos para a balsa e depois enviamos ao aterro sanitário”, explicou.
Um chamado à responsabilidade coletiva
O Dia Mundial pela Limpeza da Água é mais do que uma data no calendário, é um chamado à ação coletiva para reduzir o consumo de plástico, dar o destino correto ao lixo e cobrar políticas públicas de saneamento básico.
A mensagem de quem se preocupa com a natureza é clara: “Que as pessoas tivessem mais amor… amor à vida, amor à natureza. Porque isso tudo é falta de amor”, declarou Graça Balbi.

“É muito ruim, porque essas pessoas não se prejudicam sozinhas, elas também afetam quem tenta fazer a coisa certa. Hoje em dia não tem nem desculpa, a prefeitura tem estrutura para o descarte. A coleta passa anunciando. É importante preservar, não só por nós, mas por quem vem depois da gente”, reforça Larissa Bahia.






