Júnior Almeida – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Um vídeo publicado pelo influenciador Felipe Bressanim, conhecido como Felca, trouxe à tona uma realidade perturbadora e se tornou um dos assuntos mais comentados da internet nos últimos dias. A gravação, intitulada “Adultização”, foi publicada em seu canal no YouTube na última quinta-feira, 8/8, e já ultrapassou 22 milhões de visualizações.
Em 50 minutos, Felca apresenta um compilado de denúncias contra influenciadores digitais, incluindo o caso de Hytalo Santos, e discute os riscos da exposição e da adultização de crianças nas redes sociais — frequentemente associadas à exploração sexual e à monetização de conteúdo com menores de idade.
O youtuber também demonstra como o algoritmo de plataformas digitais pode favorecer a entrega desse tipo de conteúdo a pedófilos. A denúncia é reforçada por uma entrevista com uma psicóloga especializada em infância e adolescência, que fala sobre os impactos emocionais e sociais da exposição precoce.
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Dados alarmantes
As denúncias de Felca encontram respaldo em números divulgados pela SaferNet Brasil. Apenas no primeiro semestre de 2024, a organização recebeu 874 denúncias de links com exploração sexual infantil no Telegram. Outro levantamento aponta que mais de 1 milhão de brasileiros participam de grupos de pornografia infantil em aplicativos de mensagens.
Impactos invisíveis
Ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS, a psicóloga Débora Pacheco alertou para os efeitos da exposição precoce às redes sociais, que moldam a autoestima e a percepção de valor das crianças de forma nociva:
“Quando uma criança cresce sob o placar de curtidas e comentários, aprende cedo demais que vale pelo que o outro aprova. Isso aumenta a ansiedade de desempenho, a comparação constante e a baixa autoestima”, explica.

Segundo ela, a chamada adultização — quando comportamentos, estéticas e temas adultos são impostos a crianças — “rouba etapas” importantes do desenvolvimento infantil:
“O corpo vira vitrine, e a criança passa a se observar de fora, como objeto. Isso fragiliza a construção do ‘quem eu sou’ e encurta drasticamente a infância”, afirma a psicóloga.
Além dos impactos emocionais, Pacheco destaca os efeitos neurológicos: o cérebro em desenvolvimento, por ser altamente plástico, pode ter circuitos mentais moldados por essas experiências, favorecendo a normalização da exposição íntima e aumentando os riscos de cyberbullying, grooming, sextorsão e da circulação ilegal de imagens.
“Infância não é vitrine de engajamento. A erotização e a exposição precoce não amadurecem ninguém — adoecem. Cabe à família, à escola, às plataformas e à Justiça reduzir a exposição, aumentar a proteção e ensinar competência digital com afeto e limites. Quando o adulto segura o limite com firmeza e cuidado, a criança conquista algo que nenhum algoritmo entrega: segurança para ser quem é, no próprio tempo”
Débora Pacheco, psicóloga
Desafios jurídicos
À reportagem, a advogada Eliza Portela lembra que o Brasil já conta com legislações como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o Marco Civil da Internet e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), mas que a efetiva aplicação ainda é falha.

“Crianças conseguem criar perfis com dados falsos, burlar a idade mínima e até monetizar conteúdo. As plataformas têm o dever de fiscalizar e agir contra conteúdos prejudiciais, assim como as autoridades competentes — inclusive quando o incentivo parte dos próprios pais”
Eliza Portela, advogada
Eliza reforça que não há no país uma legislação única e específica sobre proteção digital infantil, e que tecnologias como a inteligência artificial já são utilizadas na criação e disseminação de conteúdo ilegal envolvendo menores.
“Pais ou responsáveis que participam ou incentivam esse tipo de exposição também cometem infração e podem ser processados criminalmente. Ainda que se discuta uma legislação mais específica, é fundamental lembrar que os pais e responsáveis são os principais guardiões da integridade física e mental dessas crianças”, afirma a advogada.
Investigação e denúncia
O delegado Henrique Brasil, titular da Delegacia Especializada em Repressão a Crimes Cibernéticos, explicou que a identificação dos autores desses crimes é dificultada pelo uso de perfis falsos e pela velocidade de propagação do conteúdo.
“A vítima está sempre suscetível à revitimização. Outra pessoa pode postar novamente o conteúdo, compartilhar, apagar… Isso traz uma dificuldade muito grande”
Henrique Brasil, delegado

Outro gargalo nas investigações é a dependência de ordens judiciais para acesso a dados sensíveis. Para prevenção, o delegado reforça algumas orientações:
- Evite publicar fotos de crianças com uniformes escolares ou com geolocalização ativada;
- Não compartilhe informações sobre rotinas;
- Mantenha perfis privados;
- Converse abertamente com crianças e adolescentes sobre segurança digital e riscos da exposição.
Casos suspeitos de exploração infantil, pedofilia ou crimes digitais podem ser registrados em qualquer delegacia, além dos canais:
Os casos suspeitos de exploração infantil, pedofilia e crimes digitais podem ser registrados em qualquer delegacia. O delegado ressalta que também é possível denunciar por meio do Disque 100, do Disque 181 ou diretamente à SaferNet, que é responsável pelo monitoramento da internet no Brasil e recebe esse tipo de denúncia.
- Disque 100
- Disque 181
- SaferNet (www.safernet.org.br)
“A orientação fundamental é não reenviar nem armazenar conteúdos ilícitos. Para a investigação, o ideal é coletar dados como links, capturas de tela e qualquer informação que ajude a identificar os responsáveis”, orienta o delegado.






