Júnior Almeida – Rios de Notícias
PARINTINS (AM) – O Boi Caprichoso revelou nessa quarta-feira, 25/6, na Escola de Artes Irmão Miguel Pascalle, o seu projeto de arena para o Festival de Parintins 2025.
Com o tema “É Tempo de Retomada”, o espetáculo deste ano terá como subtema para cada noite de apresentação: Amyipaguana – Retomada pelas Lutas, Kizomba – Retomada pela Tradição e Kaá-etê – Retomada pela Vida.
A coletiva de imprensa reuniu nomes importantes do Conselho de Arte, lideranças de povos originários e movimentos sociais — como o povo Tupinambá, Suraras do Tapajós, familiares de Chico Mendes (povo Yawanawá), o Quilombo do São Benedito e integrantes da Amazônia de Pé.
Em entrevista à Rede Rios de Comunicação, o presidente do Caprichoso, Rossy Amoedo, destacou que o conceito de retomada ultrapassa a temática da arena e se manifesta também dentro do boi, ao citar a reabertura da Escolinha de Artes do Caprichoso.

“A nossa maior retomada está dentro do próprio Boi. Reabrimos a escolinha que formou artistas como Ericky Nakanome, Edmundo Oran, Cleise Simas. Vamos além do chão e da modelagem: temos oficinas de 3D, games e publicidade. Estamos formando crianças para um futuro que começa agora”
Rossy Amoedo, presidente do Caprichoso
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Amoedo também enfatizou o nível técnico do espetáculo deste ano, afirmando que o Caprichoso chega à arena com confiança total no trabalho construído. “O boi está muito seguro daquilo que vai entrar. Acabamento, efeitos, plasticidade… o alegórico será um dos pontos altos“, concluiu.
O Manto Tupinambá: presença sagrada
Um dos momentos que mais chamou atenção da coletiva foi a apresentação do Manto Tupinambá, que integrará o espetáculo como uma entidade viva, e não como figurino ou alegoria.

“Ele não é cenário. É uma presença sagrada. Quando o manto entrou no galpão, os problemas técnicos cessaram. Isso não é folclore, é cultura viva”, destacou Ericky Nakanome, presidente do Conselho de Arte.
O manto será peça central do Ritual Tupinambá, que encerra a primeira noite, atuando como símbolo de proteção e ancestralidade.
Temática das três noites
Primeira Noite – Amyipaguana: Retomada pelas Lutas
A noite abre com a evocação das crenças originárias e a resistência indígena, com destaque para a lenda “Yurupari: da Demonização à Retomada Indígena”, seguida da Revolução Maracá, protagonizada por mulheres líderes e majés. O Ritual Tupinambá, com participação do manto sagrado, fecha a noite em duas etapas: encenação e manifesto.
Segunda Noite – Kizomba: Retomada pela Tradição
Celebra a ancestralidade afro-amazônica com personagens históricos invisibilizados, como Dona Sila Marçal e o marujeiro Calango. A lenda “Sacaca Merandolino” e o ritual “Musudi Munduruku” completam a noite, que ainda traz a figura típica dos marandoeiros.
Terceira Noite – Kaá-etê: Retomada pela Vida
É um grito pela Amazônia viva, denunciando a destruição causada pelo extrativismo predatório. A lenda “Waurãga e os Wauã-Kãkãnemas”, o momento coreográfico “Yacuruna: O Senhor das Águas”, e o ritual de cura Yawanawá encerram a jornada de retomada com um chamado pela preservação do bioma amazônico.
Lançamento do livro “Tempo de Retomada”
Durante a coletiva, foi lançado o livro “Tempo de Retomada”, da poeta e pesquisadora indígena Trudruá Dorrico, obra que inspirou o tema do Caprichoso para 2025. A autora compartilhou um relato pessoal sobre sua redescoberta identitária como mulher Macuxi, impulsionada pela literatura indígena.

“A retomada é, antes de tudo, física. Estamos lutando pelos territórios, reforestando, protegendo modos de vida. Escrevi este livro como um grito por justiça e reconhecimento. Ele é também uma forma de descolonizar a arte e os corpos que nela se expressam”, afirmou Trudruá.
A autora ressaltou o papel da literatura como tecnologia de resistência: “Escrever é trazer outras imagens do corpo indígena, mais positivas. É democratizar também o direito à narrativa”.






