Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – O Amazonas registrou um aumento preocupante nos casos de estupro em 2024. De acordo com o Mapa da Segurança Pública 2025, foram 1.552 vítimas contabilizadas no estado no último ano, o que representa um crescimento de 42,91% em comparação a 2023, quando houve 1.086 ocorrências.
A taxa de estupros por 100 mil habitantes também teve alta: subiu de 25,61 em 2023 para 36,25 em 2024. Apesar de ainda estar abaixo da média da Região Norte (62,44), os números refletem uma tendência de agravamento da violência sexual no estado.
Região Norte lidera o ranking nacional
A Região Norte aparece como a que concentra as maiores taxas de estupro do país. Além do Amazonas, destacam-se os seguintes estados:
- Rondônia – 87,73 por 100 mil habitantes
- Roraima – 84,68
- Amapá – 81,96
Perfil das vítimas
No Amazonas, a maioria das vítimas é do sexo feminino, totalizando 1.355 casos, o equivalente a 87% das ocorrências. Também foram registrados 173 estupros contra homens e 24 vítimas cujo sexo não foi identificado.
Especialista aponta falhas no atendimento e necessidade de ação em rede
Em entrevista ao Portal Rios de Notícias, a advogada Amanda Pinheiro — fundadora do ‘Instituto As Manas’ e especialista em direitos das mulheres — apontou a ausência de políticas públicas eficazes como um dos fatores que agravam o cenário.
“As políticas não estão chegando a quem realmente precisa. Se em Manaus já há dificuldades de acesso, nos municípios do interior esse entrave é ainda maior, diante da inexistência de atendimentos e programas especializados”, afirmou.

Ela defende que o enfrentamento aos crimes sexuais deve ser feito em rede, com atuação articulada entre Judiciário, Ministério Público, polícias, serviços de saúde e assistência social. “É fundamental que a polícia esteja capacitada para realizar um atendimento humanizado, evitando que as vítimas sejam revitimizadas ao relatar o que sofreram”, pontuou.
Justiça lenta e impunidade
Amanda ressalta que o Judiciário também precisa agir com mais firmeza e agilidade. “A certeza da impunidade ainda fortalece a conduta dos violadores sexuais. É essencial que penas mais severas sejam aplicadas, e que as ações penais tramitem com celeridade.”
Ela alerta ainda que muitos casos sequer chegam a ser formalmente investigados. “Em municípios como Silves, por exemplo, agentes de saúde registram casos de violência sexual no sistema SINAN, mas não há correspondência nos inquéritos ou ações judiciais. A subnotificação ainda é uma barreira grave.”
Educação como ferramenta de transformação
A especialista defende a educação como principal estratégia de combate à violência sexual e de gênero. “A repressão criminal é necessária, mas só a educação nos lares e nas escolas, desde a infância, pode transformar o comportamento social e combater a objetificação do corpo feminino.”
Segundo Amanda, a naturalização da violência, enraizada em padrões culturais, ainda impede muitas vítimas de denunciar. “Violência não é normal. É crime. É preciso mudar a forma como se enxerga a figura feminina, e isso começa nas comunidades.”
Interior, ribeirinhos e indígenas: os mais desassistidos
A advogada reforça que o interior do Amazonas e as comunidades indígenas estão entre os públicos mais vulneráveis e desassistidos. “Enquanto não houver atendimento especializado nessas regiões, não há política pública efetiva de enfrentamento. O acesso precisa ser garantido com intérpretes e estruturas adequadas.”
Ela sugere ainda o monitoramento de sentenciados por crimes sexuais e a criação de cadastros de violadores condenados, como forma de evitar reincidência. “Muitas vezes, os agressores estão dentro das próprias casas. Por isso, a educação sexual precisa ser um tema recorrente nas escolas, nas igrejas e centros comunitários.”






