Gabriel Lopes – Rios de Notícias
PARINTINS (AM) – A lenda amazônica Yurupari – O Legislador (ou Jurupari), do álbum “É Tempo de Retomada”, do Boi Caprichoso, será levada para a arena no 58° Festival Folclórico de Parintins. A composição de Ronaldo Barbosa e Ronaldinho Júnior fala sobre a divindade presente na religiosidade de alguns povos indígenas.
Encontrado especialmente nas aldeias do Alto Rio Negro, no Noroeste do Amazonas, Yurupari é conhecido como legislador pois trouxe as novas leis de Guaraci (deus Sol) para o mundo. A lenda está associada aos ritos de passagem masculinos, ao conhecimento xamânico e à autoridade espiritual.
“Yurupari pode ser uma lenda para muitos, porém, quando analisamos do ponto de vista antropológico, é a crença de alguns povos originários que merece ser respeitada. Além disso, a toada vem desmitificar uma versão maléfica que Yurupari recebeu já nos primeiros anos de evangelização no Brasil colonial”, comentou o historiador Davi Serrão.
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A análise do historiador Bruno Miranda Braga destaca que uma das imagens mais correspondentes dessa lenda são as chamadas “Flautas de Jurupari” que integram diferentes “cosmogonias” de diferentes sonoridades e instrumentação sagrada dos indígenas, sendo ele considerado “dono das flautas sagradas”.
Nesse sentido, o trecho “ao som da flauta é festa…” alude para um estado de graça, de benfazeja ante o Yurupari e mostra também sua conexão e lugar de poder, de liderança e de legislador, que simbolicamente com suas flautas designava benção. Já “ao som do tambor guerra…”, designa combate, mas não necessariamente um combate interétnico (etnias diferentes), mas uma guerra com seu espírito.
“A toada ao cantar ‘Virgens cabelos cobrindo o Pukamuká…’, destaca a posição de esconder as mulheres nos ritos, sendo Pukamuká uma ‘máscara sagrada’, de forma cônica, usada durante as cerimônias, feita com peles de macacos e costuradas com cabelo de mulher. Presente em diferentes eventos da vida indígena, o Yurupuri era uma constante”, disse Braga.
É documentada a alusão e invocação ao Yurupari, e sua presença nas festividades, casamentos e outros, especialmente nos grupos indígenas do Amazonas durante o século XIX. Agora, a lenda promete ser um dos pontos altos da apresentação do Boi Caprichoso no Festival de Parintins deste ano.






