MANAUS (AM) – O Amazonas figura entre os estados com maior crescimento percentual no número de vítimas de feminicídio, segundo dados divulgados nesta quarta-feira, 11/6, pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, por meio do Mapa da Segurança Pública de 2025.
O estado ocupa a quarta colocação no ranking nacional, com um aumento de 30,74% nos casos registrados em 2024.
A capital, Manaus, também aparece em destaque negativo: é o terceiro município do país com maior número de feminicídios no ano passado, com 16 registros.
A coordenadora da Procuradoria da Mulher da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), Akerna Corado, em entrevista ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS, explica que a maioria dos casos no estado está diretamente ligada à violência doméstica. “No Amazonas, quase 100% dos feminicídios têm relação direta com esse tipo de violência”, afirma.
Desafios na aplicação da legislação
Akerna ressalta que um dos principais obstáculos para enfrentar o feminicídio é o funcionamento da rede de proteção às mulheres.
“O grande desafio está na efetividade dessas ferramentas: atendimento psicológico prioritário, suporte cirúrgico, aluguel social, entre outros. Tudo isso é essencial para que a mulher consiga romper o ciclo de violência, especialmente quando é financeiramente dependente do agressor.”
Coordenadora da Procuradoria da Mulher da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), Akerna Corado – (Foto: Reprodução/ Arquivo pessoal)
Segundo ela, o problema da violência contra a mulher muitas vezes está enraizado em experiências vividas desde a infância.
“É comum que tanto vítimas quanto agressores tenham presenciado violência doméstica no ambiente familiar. Isso cria um ciclo. Além disso, fatores como uso de álcool, drogas e, em casos mais raros, transtornos mentais também influenciam.”
A coordenadora destaca ainda que o combate à violência exige uma atuação conjunta entre poder público e iniciativa privada. “Na prevenção, é necessário investir em campanhas educativas desde as escolas até os ambientes de trabalho, além de capacitar profissionais da rede pública para identificar possíveis vítimas.”
Já no enfrentamento direto à violência, Akerna defende o fortalecimento da rede de apoio pública, com maior capacidade de atendimento e centralização dos serviços. “É fundamental reunir delegacias, IML, Defensoria, Ministério Público e juizados em um único local. Isso evita o desgaste da vítima, que muitas vezes desiste do processo diante da burocracia.”
Ela acredita que a agilidade no processo e a responsabilização do agressor têm efeito pedagógico. “Se a punição é certa e rápida, a sociedade entende que há consequências. O oposto — a impunidade — só reforça a continuidade da violência.”
Fatores estruturais e sociais
O advogado Wellington Lima aponta que o alto índice de feminicídios no Amazonas também está relacionado a fatores sociais e demográficos. “O estado tem baixos índices educacionais, além de dificuldades econômicas e questões culturais que contribuem para esse tipo de crime.”
Ele também chama atenção para o aumento de notificações no interior do estado.
“Antes, muitos casos de agressão nem chegavam às autoridades. Hoje, com o acesso à internet, delegacias e canais de denúncia, as vítimas conseguem pedir ajuda. Isso amplia as estatísticas, mas também revela uma realidade que sempre existiu.”
Advogado Wellington Lima – (Foto: Reprodução/ Arquivo pessoal)
Segundo Lima, as medidas protetivas precisam ser aplicadas com mais rapidez. “O ideal é que sejam tomadas nas primeiras 24 horas após a denúncia. Depois disso, a chance de eficácia diminui.”
O advogado ressalta ainda que muitas mulheres permanecem em situações de risco por dependência emocional, financeira ou habitacional. “Sem alternativas de moradia, por exemplo, muitas continuam vivendo com seus agressores.”
Feminicídio como crime autônomo
Lima também destaca a evolução da legislação: o feminicídio, que antes era apenas uma qualificadora do homicídio, hoje é considerado crime autônomo, com pena mais elevada.
No entanto, ele pondera que o aumento da pena, por si só, não tem sido suficiente para reduzir os casos. “É necessário rigor na aplicação da lei. Sem punição efetiva, a violência continua a crescer.”