Nayandra Oliveira – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – O delegado Cícero Túlio, titular do 1º Distrito Integrado de Polícia (DIP), detalhou nesta segunda-feira, 19/5, em entrevista ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS, como ocorreu a prisão de Sophia Livas de Morais Almeida, suspeita de exercer ilegalmente a medicina em Manaus. Ela foi detida durante a Operação Azoth, deflagrada pela Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), em uma academia localizada na zona Centro-Sul da capital.
Segundo o delegado, a investigação teve início há cerca de um mês, após novas denúncias surgirem na esteira da Operação Hipócrates, que já havia resultado na prisão de outro falso médico. “Passamos a receber informações sobre outras pessoas se passando por profissionais da medicina. Uma dessas denúncias nos levou até essa mulher, que se infiltrou em um grupo de médicos e chegou a conquistar a confiança de vários deles”, explicou Cícero Túlio.
Acesso a hospital e uso indevido do nome de médica real
De acordo com a investigação, Sophia conseguiu se infiltrar em um programa de acompanhamento de crianças cardiopatas e gestantes com fetos diagnosticados com doenças graves. Por meio de contatos com médicos reais, ela passou a frequentar um hospital universitário em Manaus, onde se apropriou da identidade de uma médica com nome semelhante ao seu.
“Ela passou a emitir atestados e receituários falsos utilizando o nome dessa profissional, o que prejudicou pessoas atendidas por ela. Em pelo menos dois casos, pacientes apresentaram os atestados no trabalho e acabaram sendo demitidos após a fraude ser descoberta”, afirmou o delegado.
As denúncias foram encaminhadas ao Conselho Regional de Medicina (CRM), que conseguiu localizar a médica verdadeira — a qual negou ter assinado os documentos. A partir dessa confirmação, a Polícia Civil deflagrou a operação que resultou na prisão da suspeita.
Fraude envolveu médicos, pacientes e até autoridades em Brasília
As investigações apontam que a falsa médica também enganava outros profissionais, utilizando os consultórios de colegas para atender pacientes — principalmente crianças com autismo e problemas cardíacos. Ela ainda participava da organização de um congresso médico previsto para ocorrer em julho, em Manaus, e chegou a ser enviada a Brasília com recursos dos próprios organizadores.
“Ela participou de reuniões com representantes dos ministérios da Saúde e da Educação, além de visitar gabinetes no Congresso Nacional. Tudo isso se passando por médica e coordenadora do evento”, relatou o delegado.
Suposto vínculo com o prefeito
Nas redes sociais, Sophia afirmava ser sobrinha do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante). Em publicações, aparecia ao lado do político em eventos públicos, com legendas como “Te amo, tio” e “Não escolhi nascer numa família pública”.
Em nota, o prefeito negou qualquer relação familiar com a suspeita. “A foto publicada por ela nas redes sociais, afirmando ser uma imagem dela criança sendo carregada por mim, é, na verdade, uma foto minha com minha filha, Fernanda Aryel. Já a outra imagem, em que apareço ao lado dela, foi uma selfie tirada em local público — como acontece com frequência, sempre que sou abordado por pessoas pedindo para registrar o momento”, explicou.
Para o delegado, a falsa médica usava essa suposta ligação para ganhar credibilidade. “Provavelmente, ela utilizava esse tipo de argumento para abrir portas e se infiltrar em círculos de influência. Isso faz parte do estelionato que ela vinha praticando”, afirmou.
Indiciamentos e alerta à população
Sophia foi indiciada por uso de identidade falsa, falsidade ideológica, curandeirismo, charlatanismo, emissão de atestados falsos e estelionato contra pessoas em situação de vulnerabilidade. A Polícia Civil ainda avalia outros documentos apreendidos para verificar a existência de novos crimes.
Cícero Túlio fez um alerta aos profissionais de saúde e à população: “É fundamental ter cautela com quem tem acesso a hospitais e consultórios. Em caso de suspeitas, denúncias devem ser encaminhadas ao CRM e às autoridades competentes. Isso pode evitar tragédias.”
A suspeita permanece presa preventivamente, e a PC-AM acredita que novas vítimas devem surgir nos próximos dias. As investigações continuam.
*Com colaboração de Júnior Almeida






