Júnior Almeida – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – “Parece que sem o estímulo do celular o nosso cérebro não ‘anda com as próprias pernas’”. O relato é do estudante Gabriel Freitas, de 23 anos, que passa grande parte do dia entre o computador das aulas online e o celular das redes sociais. Segundo o jovem, a rotina está cercada entre notificações e uma sensação crescente de ansiedade quando tenta se desconectar.
“Toda hora é um estímulo, toda hora uma notificação. Quando fico sem esse estímulo, como é que tu faz? Às vezes parece que o cérebro não consegue imaginar nada sozinho, porque tá sempre recebendo conteúdo da tela. Ficar sem, já me causa incômodo, me gera ansiedade”.
Gabriel Freitas, estudante
O estudante reconhece que o hábito já interfere na própria rotina, quando tenta pega o celular “instintivamente”, interrompe tarefas para ver notificações e nota dificuldade em manter a mente quieta. “Eu tento parar, ir treinar, fazer algo, porque eu percebo que o celular tá me sugando. Mas até tu deixar de pegar o celular automaticamente, leva tempo”.
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A experiência de Gabriel não é um caso isolado, e reflete uma tendência global, no qual o Brasil é o 2º país do mundo onde as pessoas passam mais tempo diante de telas. Segundo dados da plataforma Electronics Hub, são nove horas por dia, o equivalente a 56,6% do tempo acordado.
‘Hiperestimulação silenciosa’
Para a psicóloga Déborah Pacheco, que é colunista do Portal RIOS DE NOTÍCIAS, a rotina descrita por Gabriel representa um fenômeno cada vez mais comum em clínicas. Segundo a especialista, o problema se trata de uma “hiperestimulação silenciosa”.
“O cérebro passa a funcionar como se estivesse sempre esperando a próxima recompensa rápida. Isso é intensificado pelos vídeos curtos, que treinam o cérebro a saltar de estímulo em estímulo, reduzindo a tolerância ao tédio e enfraquecendo a atenção profunda”.
Deborah Pacheco, psicóloga

Na prática, a psicóloga vê jovens que:
- Não conseguem manter o foco por mais de alguns minutos;
- Têm dificuldade de ler textos longos;
- Esquecem tarefas no meio do processo;
- Perdem a paciência com atividades lentas.
“Quando falamos em ‘podridão cerebral’, não é perda de inteligência, mas o enfraquecimento das vias que sustentam a aprendizagem, a produtividade e a saúde mental”, explica a especialista.
Déborah também observa um novo tipo de impacto: a dependência crescente da inteligência artificial. “A IA é uma ferramenta fantástica. O problema é quando substitui o nosso pensamento, o ato de pensar é uma dádiva que não pode ser quebrada”.
Segundo ela, o uso automático e acrítico da tecnologia tem provocado o “empobrecimento da linguagem, de pessoas que antes escreviam bem passam a depender da IA até para frases simples”, afirma.
A psicóloga alerta que o uso inadequado da Inteligência Artificial aumenta a sensação de incapacidade, frustração e bloqueio mental. “A IA deve apoiar o pensamento humano, não substituí-lo. O cérebro precisa ser ativado”.
Crianças: a geração mais vulnerável ao vício em telas
Os dados do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, de 2025, reforçam a preocupação e apontam que o uso da internet entre bebês e crianças pequenas mais que quadruplicou em uma década.
- De 9% para 44% entre crianças de 0 a 2 anos.
- De 26% para 71% entre 3 e 5 anos.
- De 41% para 82% entre 6 e 8 anos.
Segundo a psicóloga Déborah, o impacto nessa faixa etária é ainda mais profundo. “Quando uma criança só se acalma com telas, isso não é gosto. É dependência emocional e comportamental”.
Sinais de alerta:
- Irritabilidade quando o celular é retirado;
- Dificuldade de brincar sozinhos;
- Queda no rendimento escolar;
- Uso de múltiplas telas ao mesmo tempo;
- Desinteresse por atividades criativas.
Cérebro é capaz de se reorganizar
“Se o cérebro não usa certas funções, ele economiza energia e deixa de desenvolvê-las. É desuso”, destaca Deborah. Mas como recuperar habilidades prejudicadas? A psicóloga explica que há caminhos, e que o cérebro é capaz de se reorganizar.
- Dieta digital consciente, com limites de horário, rotina de sono sem telas e nada de vídeos curtos antes de dormir.
- Treino de atenção profunda envolvendo leitura sem interrupções, escrita manual, artes e métodos de estudo focados.
- Fortalecimento da linguagem, colocando em prática conversas mais longas, argumentação e escrita frequente.
- Movimento, sol e natureza. Segundo a profissional, esse é o trio que devolve equilíbrio ao córtex pré-frontal.
- Educação emocional digital para entender que tecnologia não pode ser “muleta emocional”.
O caso de Gabriel Freitas sintetiza o que especialistas observam no país inteiro: as telas viraram parte da vida, mas também passaram a dominar a vida. “A gente pega o celular só pra ver se tem alguma novidade. E mesmo quando não tem, tu olha”.
Gabriel tenta estabelecer limites, mas reconhece que ainda luta com o impulso automático. “É como um vício que mexe na rotina, no foco, na cabeça”. O caso do estudante mostra que, cada vez mais, a desconexão virou uma habilidade, talvez a mais difícil, que o cérebro moderno precisa reaprender.












