Júnior Almeida – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Após o presidente Donald Trump afirmar, nesse sábado, 3/1, que os Estados Unidos assumiriam o controle das reservas de petróleo da Venezuela, um paradoxo histórico voltou ao centro da discussão global: como a nação que detém a maior reserva de petróleo do planeta se tornou o país mais pobre da América do Sul?
Atualmente, a Venezuela concentra a maior reserva comprovada de petróleo do mundo, com cerca de 303 bilhões de barris, o equivalente a aproximadamente 17% de todo o petróleo conhecido no planeta. Os dados são da Energy Information Administration (EIA), órgão oficial de estatísticas energéticas dos Estados Unidos.
O volume coloca o país à frente de gigantes do setor, como Arábia Saudita (267 bilhões de barris), Irã (209 bilhões) e Canadá (168 bilhões). Em tese, o país vizinho do Brasil tem uma riqueza capaz de sustentar décadas de crescimento econômico.
Na prática, grande parte desse petróleo é extrapesado, o que exige tecnologia avançada, refinarias específicas e altos investimentos – fatores que hoje impedem a exploração do recurso.
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Produção em queda
Segundo a Statistical Review of World Energy, a produção venezuelana despencou ao longo das últimas décadas. O país chegou a produzir 3,7 milhões de barris por dia em 1970, mas atingiu um fundo histórico em 2021, com apenas 665 mil barris diários.
Em 2024, houve leve recuperação, com produção em torno de 1 milhão de barris por dia, ainda assim menos de 1% da produção global.
Uma economia refém do petróleo
O petróleo moldou a economia venezuelana ao longo de todo o século XX. Após grandes descobertas nas décadas de 1920 e 1930, o país se tornou um dos principais produtores globais e, em 1960, ajudou a fundar Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

Em 1976, o setor foi nacionalizado, dando origem à PDVSA, estatal venezuelana que passou a concentrar praticamente toda a atividade petrolífera. Com o tempo, a economia se tornou altamente dependente do recurso, deixando o país vulnerável a choques externos e à queda da produção.
Inflação e perda do poder de compra
A dependência do petróleo, somada à queda de receitas e às sanções, levou a Venezuela a uma das piores crises inflacionárias da história recente. Segundo o Banco Central da Venezuela (BCV), a inflação atingiu 344.510% em 2019, deixando o país em um cenário de hiperinflação.
Produtos básicos passaram a custar milhares de vezes mais em poucos meses. A moeda oficial do país é o bolívar, que sofreu sucessivas reconversões monetárias ao longo dos anos. Na prática, o país passou a operar parcialmente com o dólar americano, utilizado informalmente no comércio e nos serviços como forma de proteção contra a desvalorização.
País mais pobre da América do Sul
Apesar da abundância de recursos naturais, a Venezuela é hoje o país mais pobre da América do Sul. As projeções de PIB per capita do país, estimado em US$ 3.103, são da Statistics Times.

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que 94% da população venezuelana vive em situação de pobreza, reflexo direto da crise econômica prolongada, do desemprego, da inflação e da perda de acesso a serviços básicos.
Países mais pobres:
1º Venezuela – cerca de US$ 3.103 (menor da região) Statistics Times
2º Bolívia – cerca de US$ 4.585 Statistics Times
3º Paraguai – cerca de US$ 6.799 Statistics Times
4º Suriname – cerca de US$ 6.843 Statistics Times
5º Equador – cerca de US$ 7.210 Statistics Times
Sanções e a relação com os EUA
Os Estados Unidos mantêm uma relação histórica com o petróleo venezuelano desde os anos 1920. Antes das sanções mais duras, impostas a partir de 2017 e ampliadas em 2019, os EUA eram o principal destino do petróleo do país.
Hoje, segundo o governo americano, apenas a Chevron mantém operações limitadas na Venezuela, por meio de autorizações específicas. A PDVSA, por sua vez, sofreu cortes orçamentários severos, interrompendo ciclos de manutenção e investimento.
De acordo com a Reuters, em 2024 a PDVSA faturou cerca de US$ 17,5 bilhões com exportações, com produção média pouco acima de 800 mil barris por dia.
China disputa petróleo
Com as restrições impostas pelos EUA, a Venezuela havia passado a direcionar grande parte de suas exportações para a China, muitas vezes em acordos de petróleo em troca de empréstimos.

Segundo informações da Reuters, parte da dívida venezuelana está sendo quitada por meio do envio de petróleo bruto transportado por grandes superpetroleiros, em operações acompanhadas por órgãos de monitoramento marítimo.
Estudos do Instituto Tricontinental, com base em dados da Global South Insights, estimam que as sanções lideradas pelos EUA provocaram perdas de cerca de US$ 226 bilhões em receitas petrolíferas entre 2017 e 2024, valor superior ao PIB atual do país.
Boletins do Banco Central da Venezuela indicam que a economia cresceu 7,71% no primeiro semestre de 2025, impulsionada principalmente pelo setor de hidrocarbonetos.
No terceiro trimestre de 2025, o PIB avançou 8,71% na comparação anual, com crescimento de 16,12% na atividade petrolífera. Ainda assim, o país segue um frágil e altamente dependente do petróleo.












