Letícia Rolim – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A nova série da Netflix, “Pedaço de Mim”, traz à tona uma condição raríssima conhecida como superfecundação heteroparental. Trata-se de uma gravidez em que gêmeos possuem pais biológicos diferentes, um fenômeno registrado apenas 20 vezes no mundo até o momento.
Para explorar melhor esse tema curioso, o Portal RIOS DE NOTÍCIAS consultou a Dra. Pâmela Duarte, ginecologista e especialista em Reprodução Humana Assistida. A especialista detalhou como ocorre a superfecundação heteroparental, a qual aborda a história da personagem Liana, interpretada por Juliana Paes na série.
“A superfecundação heteroparental pode ocorrer quando uma mulher ovula mais de um óvulo e mantém relações sexuais com parceiros diferentes dentro de um período de até 24 horas do pico do hormônio ovulatório. A liberação dos óvulos e a fertilização por espermatozoides de diferentes parceiros resultam em gêmeos com pais biológicos distintos”, explica a especialista.

Para que isso aconteça, há alguns fatores que aumentam as chances de ocorrência, conforme explica a ginecologista.
“A ovulação no ciclo menstrual habitual, costuma ocorrer com óvulo único. Mas em situações raras naturais ou em uso de medicações para estimular ovulação, aumenta o risco de liberação de mais de um óvulo, e a superfecundação nesta circunstância pode ter uma propensão maior de ocorrer”, detalhou Duarte.
Como é possível identificar
O método para descobrir a paternidade de ambos os fetos é invasivo, utilizando a biópsia de vilo corial, que pode ser realizada entre 12 e 16 semanas de gravidez.
“Neste caso de gemelaridade, o médico obstetra especialista em medicina fetal verifica se a paciente está apta para o procedimento e insere uma agulha guiada por ultrassonografia via abdominal no útero da paciente para retirar um pequeno fragmento de vilo das placentas de ambos os fetos”, explica a médica.
Pâmela ressalta que o procedimento apresenta um pequeno risco, de 1%, de sangramento e de levar a um abortamento.
Riscos adicionais
Uma gravidez considerada “normal” já apresenta diversos desafios e riscos. No entanto, quando se trata de uma superfecundação heteroparental esses riscos podem ser ainda maiores.
Segundo Duarte, para que uma gravidez ocorra são necessários diversos mecanismos e alterações no organismo da mãe, especialmente em seu sistema imunológico. Isso ocorre porque a mãe carrega um bebê com uma parte do DNA diferente, o que, sem a modulação adequada, pode levar à rejeição do feto, visto como um “corpo estranho” dentro do útero.
“Na superfecundação com dois DNA’s paternos, esse risco se eleva. Sabemos também que, para gestações de mais de um feto, os riscos de hipertensão gestacional são aumentados, o que também se agrava em circunstâncias imunológicas adversas”, explica a especialista.
Caso nacional
Entre os vinte casos registrados em todo o mundo, um foi no Brasil. O caso nacional aconteceu em 2021, no município de Mineiros, no sudoeste de Goiás, com uma jovem de 19 anos. Na ocasião, a mulher se relacionou com dois homens no mesmo dia e engravidou dos dois.
A mãe explicou que apesar da semelhança, surgiram dúvidas em relação às paternidades. Quando eles tinham oito meses de idade, ela fez os exames de DNA com o homem que ela achou que fosse o pai. O resultado deu positivo apenas para um filho. Ela então refez os exames, que confirmaram a paternidade da outra criança.






