Lauris Rocha – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Pacientes da Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (FCecon) atendidos pelo Programa Melhor em Casa, do Governo Federal, denunciaram ao RIOS DE NOTÍCIAS condutas desrespeitosas por parte de profissionais da equipe que atua na unidade em Manaus. O caso mais recente envolve um áudio que circula nas redes sociais, no qual profissionais debocham de um menino de 12 anos com câncer no cérebro.
Embora seja um programa federal, no Amazonas o Melhor em Casa é coordenado pela Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) e tem base operacional dentro da FCecon. As declarações atribuídas a enfermeiros e técnicos do programa surgem após a Fundação ter sido recentemente alvo da Operação Metástase, do Ministério Público do Amazonas (MP-AM), que investiga suspeitas de corrupção e desvio de recursos da saúde pública.
Áudio revela deboche com criança em cuidados paliativos
No áudio atribuído por denunciantes a duas enfermeiras e um técnico de enfermagem do Melhor em Casa é possível ouvir comentários sobre o estado de saúde do menino e até insinuação de que a mãe “quer que o filho morra”. Em tom de deboche, uma assistente social acrescenta “tá mesmo! Ela depende dele”.
As falas geraram revolta entre familiares e pacientes atendidos pelo programa
“Eu luto com meu filho há sete anos. Desde que ouvi esse áudio, não consigo dormir. Sonhei que meu filho estava morrendo. É muito dolorido saber que pessoas responsáveis pelo cuidado dele falam com tanto desprezo”, desabafou Vanilce Silva de Oliveira, de 30 anos, mãe do paciente Juquinha, citado nas gravações.
Vanilce afirma que a equipe ouvida no áudio acompanhava o filho desde fevereiro e que o caso não foi um episódio isolado. “Quando pedi doações de fraldas nas redes sociais, essa assistente social foi à minha casa gritando, dizendo que eu estava ‘expondo o programa’. Foi um desrespeito enorme”, relatou.
Vereadores pedem investigação
A repercussão do caso chegou à Câmara Municipal de Manaus (CMM). Durante a sessão da última terça-feira, 11/11, o vereador Sérgio Baré (PRD) anunciou que solicitará ao MP-AM a abertura de uma investigação formal sobre a conduta dos profissionais envolvidos.
“O respeito e a empatia são essenciais no serviço público, especialmente no atendimento a pacientes vulneráveis”, afirmou Baré. “Já vi filhos abandonarem mães e irmãos se afastarem, mas nunca uma mãe abandonar um filho”, relatou Baré.

Já o vereador Dione Carvalho (Agir) se manifestou pedindo ações urgentes de humanização no atendimento domiciliar da rede pública.
“Nós parlamentares temos o dever de agir por essas pessoas injustiçadas, conte comigo para levar essa denúncia ao Ministério Público”, concluiu o vereador defensor das crianças cardiopatas.
Ex-funcionária confirma práticas abusivas
Uma ex-profissional do Melhor em Casa, que trabalhou na base da FCecon e pediu anonimato, confirmou ao RIOS DE NOTÍCIAS a autenticidade do áudio. Segundo ela, as conversas ofensivas e o desrespeito aos pacientes “eram rotina dentro do programa”.
“Eu estava presente quando o áudio foi gravado. Esse tipo de comentário era comum. Uma vez, uma paciente com câncer avançado foi buscar medicação, e assim que ela saiu, um técnico disse: ‘Ainda bem que ela foi embora, ela estava podre’. Eu saí de lá porque não aguentava mais”, relatou.
A denunciante afirma que chegou a comunicar os episódios à coordenação da empresa terceirizada responsável pelas Equipes Multiprofissionais de Apoio (EMAP), mas não obteve resposta. “Nada foi feito. Essas pessoas continuaram trabalhando normalmente. Eu ainda sofri retaliações por tentar denunciar”, contou.

Após a repercussão
Ainda segundo a ex-funcionária, o programa reúne profissionais da SES-AM e terceirizados da EMAP, mas carece de acompanhamento efetivo. “É um programa federal, deveria contar com profissionais capacitados e humanos, não pessoas que tratam a dor alheia com descaso”, criticou.
Após a divulgação do áudio, a Secretaria de Estado de Saúde enviou uma equipe à casa de Vanilce, no último sábado, 8/11. Segundo a mãe, a secretaria informou que os profissionais citados, a assistente social, o técnico de enfermagem e as enfermeiras, foram demitidos.
Juquinha foi transferido para acompanhamento pelo Instituto de Saúde da Criança do Amazonas (ICAM) e uma nova equipe iniciou os atendimentos na terça, 11.
“A secretária foi muito respeitosa. Pediu desculpas, garantiu que não sabia do que acontecia e disse que não vai se repetir. Espero que realmente tenham sido demitidos. Meu filho merece respeito, amor e um tratamento digno”, concluiu Vanilce.

Manifestações
Procurada pela REPORTAGEM, a SES-AM informou que abriu uma sindicância para apurar os fatos.
“A Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) repudia e não compactua com atos que desrespeitem a dignidade dos pacientes e de suas famílias, e informa que afastou as profissionais e abriu sindicância para apurar os fatos. Os profissionais do programa Melhor em Casa passam por capacitação a cada quadrimestre, com o objetivo de fortalecer e melhorar as práticas e, assim, garantir a qualidade do atendimento”, afirmou em nota.
Sobre o programa
Criado pelo Governo Federal, o Melhor em Casa tem o objetivo de oferecer atendimento domiciliar a pacientes com doenças crônicas ou limitações físicas que impossibilitam o deslocamento até unidades de saúde.






