Vívian Oliveira – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Estreou em Manaus, na última quinta-feira, 1º/6, o documentário “Uýra – A Retomada da Floresta”, que conta a trajetória de uma artista transgênero indígena que viaja pela Amazônia em uma jornada de autodescoberta e usa a arte performática para conscientizar jovens indígenas e ribeirinhos como os guardiões das mensagens ancestrais da floresta.
Em cartaz no Casarão de Ideias, centro de Manaus, até o próximo domingo, 11/6, o longa tem o propósito de conscientizar, desafiar estereótipos e engajar o público com as temáticas trabalhadas como preservação do meio ambiente, inclusão social, entre outros.
De acordo com João Fernandes, gestor do Casarão, o público manauara ainda não despertou para a valorização do artista da terra. “Fala-se muito em ‘aposte no Norte, veja o Norte, consuma o Norte’, mas a galera do Norte não faz isso. A procura ainda é tímida”, protestou.
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Mas apesar disso, Uýra tem recebido muitas mensagens de amigos, amigas e parentes (indígenas) que assistiram ao documentário e ficaram impactados com a mensagem. “Desde a estreia até hoje, tenho recebido mensagem de pessoas que assistiram ao filme e curtiram muito.”

Estreia na comunidade
Em outubro de 2022, o filme fez sua premiére nacional na comunidade Nossa Senhora de Fátima 1, na periferia de Manaus, onde Uýra vive com a família.
“Deu muita gente. Pessoas que me viram crescer e vi crescer. Pessoas da comunidade que ‘invadimos’ juntos e juntas há 28 anos. Teve carro de som, panfletagem, o apoio dos mercadinhos doando descartáveis, colamos cartazes. Distribuímos pipoca, sopão e pipoca grátis, todos feitos por gente da comunidade. A ocupação gerou uma pequena importante economia e foi muito bonita”, lembrou Uýra.
“E a história de Fátima repercutiu fora daqui, de uma forma política que é o que nos interessa porque desde a concepção do documentário, em 2020, eu pedi que a estreia fosse na minha comunidade. Em outubro do ano passado, entendi que era hora do documentário vir para o Brasil e acionei a produtora Ythana Isis, que articulou tudo e movimentou a comunidade”, explicou.

No mesmo período da estreia em Fátima, Uýra recebeu um convite para exibir o longa em uma Festival Internacional de São Paulo, com a condição de ser inédito. Porém, Uýra não abriu mão de ter a estreia na comunidade em que cresceu.
“A coisa mais importante para mim era exibi-lo na minha comunidade de origem. Eu habito nesse lugar há quase 30 anos. Fátima 1 é muito violenta. As pessoas não dormem direito. E se não dorme direito, não se sonha. E esse filme tem a capacidade de fazer sonhar. E no dia 15 de outubro de 2020 ele foi exibido. O festival de São Paulo teve que aceitar isso”, contou.
Premiações
Desde a sua estreia, “Uýra – A retomada da Floresta” já foi premiado em festivais de cinema no exterior como melhor documentário pelo Júri Popular no Frameline International LGBTQ+ Film Festival em São Francisco, na Califórnia; Melhor Longa-Metragem Indígena no Bend Film Festival; e Prêmio do Júri na London Film Week; entre outros prêmios e indicações.

Sobre Uýra
Uýra Sodoma é uma entidade híbrida que entrelaça o conhecimento biológico científico e a sabedoria ancestral dos povos indígenas. Ele chama as plantas por seus nomes populares e latinos, mas evoca suas propriedades medicinais, sabor, cheiro e poderes. O resultado é uma compreensão intrincada e complexa da floresta, uma teia de conhecimento e pesquisa. Uýra se apresenta como “uma árvore que anda”.
Nasceu em 2016, durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, quando a bióloga decidiu expandir suas pesquisas acadêmicas e buscar formas de trazer o debate sobre o meio ambiente, conservação e direitos LGBT para comunidades nos arredores de Manaus. Mediante aulas de biologia ou performances fotográficas, usando maquiagem e camuflagem, textos e instalações, Uýra fala sobre e com a floresta.
“Uýra – A Retomada da Floresta” é uma coprodução Brasil e Estados Unidos, tem direção de Juliana Curi e produção de Uýra Sodoma, João Henrique Kurtz, Lívia Cheibub e Martina Sönksen, com distribuição da Olhar Distribuição.






