Júnior Almeida – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A onça-pintada resgatada nadando exausta às margens do Rio Negro, em Manaus, voltou à natureza após 39 dias de reabilitação intensa no antigo Zoológico do Tropical Hotel, hoje transformado em um centro de acolhimento à vida selvagem mantido pelo Grupo Fametro, sob gestão da empresária Maria do Carmo Seffair.
A REDE RIOS DE COMUNICAÇÃO acompanhou todo o processo de recuperação do felino, desde os primeiros cuidados até a soltura na zona rural de Novo Airão, município a 196 quilômetros de Manaus. Os registros farão parte do projeto DocumentaRios, um documentário que será lançado ainda esta semana.
Segundo Maria do Carmo, o espaço do ZooTropical deixou de ser apenas um zoológico e passou a acolher animais resgatados.
“Este lugar, que já foi o zoológico do Hotel Tropical, hoje tem outra função. Mantivemos o espaço porque muitos animais não têm mais condição de voltar à natureza, e então assumimos essa responsabilidade. Aqui virou um centro de acolhimento à vida selvagem”, afirmou a empresária.

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Reabilitação intensa
A onça, um macho jovem, chegou ao santuário com mais de 30 fragmentos de chumbo alojados na cabeça e a visão comprometida. A partir daí, uma força-tarefa entre o ZooTropical, a Secretaria de Proteção Animal (Sepet), pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e equipes ambientais do Estado iniciaram um protocolo de recuperação.
O biólogo Nonato Amaral, responsável técnico pelo manejo do felino, relata que o processo exigiu dedicação integral.
“Foi um trabalho árduo. Precisávamos recuperar a visão e reativar os instintos de predador. Quando confirmamos, por análise laboratoral, que se tratava de um animal verdadeiramente selvagem, nossa missão passou a ser prepará-lo para uma soltura segura”, explicou.

Segundo Amaral, o zoológico foi fundamental para restabelecer o comportamento natural da espécie. “Reduzimos todos os estímulos artificiais para manter os instintos de fera. O objetivo era restituir o comportamento selvagem, com o mínimo de interferência humana”.
Durante os 39 dias de reabilitação, o felino cicatrizou ferimentos, recuperou parte da visão e voltou a demonstrar reações típicas de vida livre, como arranhões, escavações e respostas defensivas.


Monitoramento científico
Para retornar à floresta, o animal recebeu uma coleira GPS cedida pelo Instituto Onça-Pintada. “Esse colar vai nos mostrar os corredores ecológicos que ele percorre, se se aproxima de comunidades e como estabelece território. Ele registra localização a cada hora e deve funcionar por até 24 meses”, informou Amaral.


Operação de soltura
A operação de soltura envolveu carro, helicóptero e lancha. A secretária de Proteção Animal do Estado, Joana Darc, destacou o esforço conjunto.
“Esse resgate só aconteceu porque várias instituições se uniram, Batalhão Ambiental, Ufam, Sepet, ZooTropical. O atendimento veterinário, exames e cirurgias foram decisivos. Hoje é missão cumprida”, disse a secretária.
A área escolhida, na margem direita do Rio Negro, foi definida por ser remota, segura e ambientalmente adequada para o felino.
A bióloga Clarisse Bassi, da Secretaria de Meio Ambiente de Novo Airão, reforçou que o local faz parte de um mosaico de unidades de conservação. “É uma região protegida, com características ideais para a espécie. Como ele veio dessa mesma margem do Rio Negro, esperamos que se estabeleça dentro do parque”.

“É uma região protegida e adequada ao felino, que veio dessa mesma margem do Rio Negro. O risco de aproximação de comunidades existe, mas apostamos que ela se estabeleça dentro do parque”, explicou.
Moradores da região acompanharam a chegada da equipe e a expectativa pela soltura. Um deles, que vive na comunidade onde o helicóptero pousou com o felino, relatou à reportagem a emoção de ver pela primeira vez uma onça tão de perto.

“A gente fica muito feliz por receber uma onça aqui em nosso território. Nunca tinha visto uma ao vivo. É uma alegria ter o pessoal do meio ambiente aqui acompanhando tudo”, comentou Valmir Duarte.
Pouso da aeronave
Antes da chegada do helicóptero, uma equipe da Ufam precisou preparar o terreno. O pesquisador Rogério Fonseca explicou o motivo. “Limpar a área evita que o rotor da aeronave aspire objetos. Também avaliamos telhados e estruturas próximas. É um procedimento essencial para garantir segurança de todos, inclusive do animal”.


A onça pousou na comunidade anestesiada e dentro de um caixote de madeira desenvolvido especificamente para o transporte. De lá, seguiu de lancha até o ponto final da missão, distante de residências. Fonseca destacou o impacto científico da operação. “Esse colar vai gerar dados que podem virar dissertações, teses, projetos futuros. É um legado para a conservação”.

A soltura encerrou mais de 24 horas de operação contínua, um dos resgates de fauna mais complexos dos últimos anos no Amazonas. Agora, o felino retorna à floresta monitorado e acompanhado por pesquisadores.
DocumentaRios


A trajetória completa da onça-pintada será retratada no segundo episódio do DocumentaRios, projeto audiovisual lançado este ano pela Rede Rios de Comunicação. No episódio, a equipe acompanha cada etapa da operação, do resgate na margem do Rio Negro à soltura do felino em área de floresta preservada.












