Elen Viana – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A entrega do produto é uma etapa fundamental para o empreendedor que vende pela internet. Pensando nisso, a empresária Maiane Corrêa priorizou o cuidado, a delicadeza e a agilidade ao escolher as Motogirls — um serviço de entregas feito exclusivamente por mulheres, em Manaus.
Maiane é proprietária de uma papelaria que atua com vendas físicas, mas tem foco no atendimento online. Ela conheceu o serviço das Motogirls por meio de grupos de empreendedores e, desde então, tornou-se uma das clientes mais assíduas da empresa.
“A gente tem que pensar não somente na venda. Por exemplo, não adianta eu fazer um bom atendimento na loja e o pedido chegar amassado ou o entregador ser ríspido com o cliente. Eu preciso contratar uma empresa que vá fazer essa entrega representando a minha loja”, afirmou a empresária.

Antes de conhecer o grupo de entregadoras, Maiane relatou dificuldades para encontrar um serviço de logística que atendesse suas expectativas.
“É preciso confiar. O cliente não quer saber quem entregou, ele quer saber da loja. Quando o cliente recebe um produto danificado, ele não culpa o entregador, mas sim a loja que contratou esse serviço. Então, é importante ter responsabilidade em cada etapa da venda”, reforçou a empreendedora.
O início das Motogirls
Foi justamente essa necessidade de confiança que motivou a criação das Motogirls, fundadas por Kelle Moraes, de 32 anos. A empresa nasceu durante a pandemia de Covid-19, em 2021, quando a demanda por entregas disparou e o mercado passou a exigir serviços mais qualificados.

“Eu sou formada em administração e sempre fui apaixonada por motos. Durante a pandemia, comecei a ver uma oportunidade de mercado e, como já tinha habilitação e moto, decidi fazer entregas”, contou Kelle.

Na época, ela fazia parte de um grupo de motociclismo feminino, e suas amigas foram as primeiras clientes.
“Tudo começou através de um hobby, minhas amigas começaram a pedir que eu entregasse produtos para elas. Depois começaram a me indicar. Fui percebendo que era uma demanda real e comecei a estruturar a empresa, que aí foi o ‘giro da chave’”, relembrou.
Em 2023, de acordo com dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Amazonas era o 25º estado com mais mulheres motociclistas no Brasil, somando 65.949 mulheres habilitadas para conduzir motocicletas, o que representa 4,4% da população.
Empreender em meio aos desafios
No início, Kelle enfrentou dificuldades — desde a aquisição de equipamentos de segurança, como baú e capa de chuva, até a busca por financiamento para manter as operações.
“Os desafios são múltiplos, pois nem sempre estamos preparadas com todos os recursos necessários, tanto financeiros quanto de equipe. E também tem a relação com o próprio público, porque ser mulher nesse papel de entregadora ainda é complicado. Muitas vezes, falta respeito com a nossa profissão. Sempre tem alguém que tenta diminuir a gente por ser entregadora”, afirmou.

Além das questões financeiras, ela enfrentou preconceitos no trânsito: “Muita gente achava que mulher não conseguia fazer entrega, que não dava conta. E a gente sabe que dá. Somos tão capazes quanto qualquer homem”, disse.
Hoje, Kelle lidera uma equipe com seis entregadoras e duas pessoas na área administrativa. A empresa passou a operar em um espaço físico próprio, onde são organizados os setores de atendimento ao cliente, administração e logística.

De cliente a Motogirl
A entregadora Brenda Gabrielle, de 30 anos, conheceu as Motogirls como cliente e decidiu se juntar à equipe após se encantar com o propósito da empresa.
“Eu estava em casa quando a Kelle chegou para entregar uma encomenda. Achei incrível ver uma mulher fazendo esse trabalho. Perguntei se tinha vaga e, depois disso, comecei a trabalhar com ela”, contou Brenda.

Mãe de uma menina de seis anos, ela destaca que a flexibilidade da rotina de entregas tem sido essencial para equilibrar os cuidados com a filha, os estudos e o trabalho.
“Conseguir fazer o meu horário e ter flexibilidade para cuidar da minha bebezinha de seis anos. Acho que o diferencial é justamente esse: estar no mercado de trabalho, ajustar os horários para estudar, ser mãe e profissional. Fora que as pessoas acham diferente ver mulheres fazendo entregas”, explicou.

Brenda relata que já enfrentou diferentes desafios nas ruas, desde o preconceito até os perigos do trânsito. Ainda assim, afirma que a profissão a fortaleceu e contribuiu para seu empoderamento.
“Tem motorista que fecha a gente no trânsito, que não respeita. A maioria deles são ríspidos com as mulheres. Mas a gente tenta equilibrar, sair para evitar qualquer tipo de atrito no trânsito, para não causar acidente. Dirigir nos deixa mais empoderadas, mais capazes e com melhor liderança sobre as situações”, disse.
O avanço do empreendedorismo feminino no Amazonas
O número de mulheres empreendedoras no Brasil atingiu o maior índice dos últimos anos. Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), são mais de 10,3 milhões de mulheres à frente de pequenos negócios, representando 34% do total de empreendedores do país.
No Amazonas, elas correspondem a 27% desse total, somando 175,2 mil empresárias no estado. De acordo com a gerente de marketing do Sebrae Amazonas, Meirelene Costa, esse crescimento está ligado ao desejo de independência financeira e à necessidade de manter a renda familiar.

“Muitas mulheres são chefes de família e viram no empreendedorismo uma forma de manter seus lares. Outras, mesmo com emprego formal, buscam empreender para aumentar a renda e conquistar sua independência”, explicou a especialista.

Apesar disso, a jornada feminina é repleta de desafios. Historicamente, mulheres donas de negócio dedicam, em média, de 34 a 35 horas semanais aos seus empreendimentos — menos que os homens, cuja média varia de 40 a 43 horas. A diferença se deve, em grande parte, à sobrecarga com o chamado “trabalho invisível”, como os cuidados com a casa, filhos e familiares.

Ainda assim, a criatividade e a dedicação das mulheres têm sido decisivas. Meirelene destaca que as empreendedoras amazonenses valorizam a produção local e a identidade cultural da região.
“As mulheres do nosso cenário local valorizam muito a tradição, a regionalidade e a biodiversidade da nossa região. Isso tem sido uma força motriz para manter os empreendimentos no mercado. Além disso, o networking entre empreendedoras também contribui bastante”, disse.
Capacitação e rede de apoio
Apesar dos avanços, ainda há muitos obstáculos. A gerente ressalta que a maioria das empreendedoras começa sem planejamento, o que leva a erros comuns, como misturar as finanças pessoais com as da empresa.
“É preciso planejar, organizar as finanças, estudar o mercado e se capacitar. O Sebrae oferece cursos, oficinas, mentorias e programas como o Sebrae Delas e o Empretec Woman, que ajudam a mulher a se posicionar melhor no mercado”, destacou Costa.
Segundo ela, o networking entre mulheres é uma das principais forças desse cenário: “Quando uma mulher cresce, ela puxa outra. Há uma rede de apoio muito forte. E isso é transformador”, afirmou.
Entre os segmentos mais comuns de atuação feminina no Amazonas estão o comércio (com mais de 52 mil empresárias), os “outros segmentos” (31 mil) e o setor de alojamento e alimentação (21 mil). Esses números evidenciam a presença ativa das mulheres na economia local.

Os dados também apontam um protagonismo crescente das mulheres negras no empreendedorismo amazonense. Em 2024, elas representaram 78,1% das donas de negócio no estado, enquanto mulheres brancas corresponderam a 18,3%. Isso reforça a força das mulheres negras no empreendedorismo, apesar dos desafios impostos por desigualdades históricas e estruturais.

Planos de expansão
Com uma base sólida, a Motogirls agora planeja expandir para municípios da região metropolitana de Manaus e, futuramente, para outros estados.
“Nosso projeto de expansão começa com cidades vizinhas e, em cerca de dois anos, queremos estar presentes em outros estados também”, explicou Kelle.

Ela acredita que o diferencial da empresa está na humanização do serviço: “A gente não entrega só um produto. A gente entrega carinho, cuidado e responsabilidade. E isso, hoje em dia, faz toda a diferença. Isso transformou a minha realidade”, concluiu.
Presente nas principais redes sociais — como o Instagram @motogirls.manaus —, a empresa também oferece atendimento direto pelo WhatsApp (92) 98245-9396, facilitando o agendamento de entregas e o contato com lojistas interessados em parceria.






