Vívian Oliveira – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A economista Maria da Conceição Tavares faleceu neste sábado, 8/6, aos 94 anos, deixando um grande legado ao pensamento desenvolvimentista no Brasil. Professora e ex-deputada federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT), sua morte foi confirmada pelo deputado Pedro Uczai (PT-SC), que expressou seu pesar nas redes sociais.
A notícia de sua morte gerou grande comoção entre políticos, economistas, pesquisadores e admiradores, que homenagearam Maria da Conceição Tavares em diversas postagens nas redes sociais. Considerada um dos principais nomes do pensamento desenvolvimentista brasileiro, sua trajetória marcou profundamente a economia e a política nacional.
No X (antigo Twitter), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lembrou a importância de Maria da Conceição Tavares, ressaltando que, além de professora, ela foi deputada federal pelo PT.
“Uma das maiores da nossa história. Nascida em Portugal, adotou o Brasil e nosso povo com seu coração e paixão pelo debate público e pelas causas populares. Foi uma economista que nunca esqueceu a política e a defesa de um desenvolvimento econômico com justiça social”, escreveu Lula.
Lula destacou ainda que Maria da Conceição formou gerações de economistas na UFRJ, trabalhou no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e escreveu centenas de artigos e livros.
“Até hoje suas aulas são consultadas pelos jovens em vídeos na internet, pela sua fala sempre franca e direta”, acrescentou o presidente.
A primeira-dama, Rosângela Silva, mais conhecida como Janja, também fez uma publicação no X, agradecendo a contribuição da economista ao Brasil.
Maria da Conceição nasceu em Anadia, em Aveiro (Portugal) e cresceu em Lisboa, filha de um pai anarquista que abrigava refugiados da Guerra Civil Espanhola durante a era Salazar. Formada em matemática pela Universidade de Lisboa, fugiu da ditadura salazarista em Portugal, mudando-se para o Brasil em 1954.
Em terras brasileiras, começou a trabalhar como estatística no Instituto Nacional de Imigração e Colonização (INIC) e participou ativamente das atividades da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Sem conseguir a equivalência de diplomas para lecionar em universidades, em 1955, iniciou sua carreira no atual Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).
Sua carreira no Brasil foi marcada por importantes passagens pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pelo Grupo Executivo de Indústria Mecânica Pesada (Geimape).
Maria da Conceição também atuou na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), onde desenvolveu trabalhos influenciados por economistas renomados como Celso Furtado, Caio Prado Jr. e Ignácio Rangel. Escreveu centenas de artigos e livros, sendo o mais famoso “Auge e Declínio do Processo de Substituição de Importações no Brasil – Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro”.
Eleita deputada federal pelo PT do Rio de Janeiro em 1994, Maria da Conceição tornou-se uma das críticas mais contundentes da área econômica do governo FHC. Em 1998, venceu o Prêmio Jabuti na categoria Economia, consolidando sua relevância no cenário acadêmico e político.
A festa de seus 80 anos, em 2010, na Casa do Minho (Rio de Janeiro) reuniu figuras ilustres, incluindo ex-governadores, ex-ministros e dois candidatos à Presidência, Dilma Rousseff e José Serra. O evento refletiu o grande respeito e admiração que Maria da Conceição conquistou ao longo de sua carreira.
Reconhecida pelo carisma e pela capacidade de cativar plateias, a economista encantava jovens estudantes de Economia com suas aulas magnas, como a que lotou o auditório Pedro Calmon, no campus da UFRJ na Urca, em 2009. Sua influência na academia e na política é inquestionável.
Falas históricas
Algumas de suas falas mais emblemáticas são frequentemente lembradas por sua clareza e contundência. Entre elas, destacam-se:
“Se você é um conservador de direita, é certo que não estudou o suficiente e, nesse mundo, você não serve para nada a não ser apenas para si mesmo” e “A economia que não se preocupa com a justiça social é uma economia que condena os povos a uma brutal concentração de renda e de riqueza, o desemprego e a miséria.”
Maria da Conceição Tavares também afirmava que “primeiro estabilizar, depois crescer e depois distribuir é uma falácia. Não estabiliza, cresce aos solavancos e não distribui. Essa é a história da economia brasileira desde o pós-guerra.” E reforçava: “De todos os direitos, o livre pensar é o que tem sido mais recorrentemente violado.”
Em suas críticas contundentes à tecnocracia, ela dizia: “Se você não se preocupa com a justiça social, com quem paga a conta, você não é um economista sério, você é um tecnocrata.” E, destacando a importância da economia para a vida das pessoas, afirmava: “Ninguém come PIB; come alimentos”.






