Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Levantamentos recentes do MapBiomas indicam que Manaus é a capital brasileira com o maior crescimento de áreas de favelas nas últimas décadas. De acordo com o estudo, a extensão territorial dessas áreas aumentou cerca de 2,6 vezes entre 1985 e 2024.
Atualmente, mais de um terço de toda a área urbanizada do município está dentro de territórios classificados como favelas ou comunidades urbanas. Na Região Metropolitana de Manaus, essas áreas somam cerca de 11,4 mil hectares, ficando atrás apenas da Região Metropolitana de São Paulo em extensão territorial.
O crescimento das comunidades também foi identificado pelo Censo do IBGE de 2022, que revelou forte concentração populacional nesses territórios.
Leia também: David Almeida é chamado de ‘governador’ em evento da prefeitura e responde: ‘deixa o Omar te ouvir’
Segundo o levantamento, cerca de 55,8% da população de Manaus vive em favelas ou comunidades urbanas. O estudo aponta ainda que o estado do Amazonas possui 398 favelas, sendo aproximadamente 60% delas localizadas na capital.
Fatores urbanos e sociais
De acordo com a arquiteta e urbanista Cláudia Moraes, a expansão demográfica da cidade tem contribuído diretamente para o aumento dessas áreas.

Segundo a especialista, ao longo das últimas quatro décadas Manaus registrou um crescimento populacional significativo, impulsionado tanto pela migração de pessoas de outros estados brasileiros quanto pela chegada de moradores de países vizinhos.
“Esse aumento demográfico contribuiu para o surgimento de assentamentos irregulares, muitas vezes sem planejamento urbano. Como consequência, houve não apenas expansão da população, mas também precarização de diversos sistemas urbanísticos”, afirma.
A arquiteta explica ainda que a velocidade da expansão urbana também favoreceu a ocupação de áreas ambientalmente sensíveis ou inadequadas para moradia, o que dificulta o planejamento de vias, lotes e infraestrutura básica.
“Quanto às políticas habitacionais, existem possibilidades de solução para esse tipo de problema. No entanto, torná-las realidade exige tempo, além de intervenções complexas e de grande escala. Em muitos casos, o planejamento urbano ocorre de forma paliativa e não preventiva”, ressalta.
Expansão urbana
Para a urbanista, modelos genéricos de soluções habitacionais muitas vezes não se aplicam à realidade de Manaus, que possui características ambientais específicas.
“O crescimento acelerado da expansão habitacional sem planejamento urbano dificulta ou até impossibilita futuras intervenções necessárias para garantir infraestrutura básica à população”, destaca.
Entre os principais problemas estão o dimensionamento insuficiente de vias de acesso, calçadas não acessíveis, lotes com tamanho inadequado e construções com ventilação e iluminação insuficientes, o que pode tornar os ambientes insalubres.
“A ausência de circulação lateral entre edificações e de áreas verdes também compromete o conforto ambiental e a qualidade de vida nessas comunidades”, acrescenta.
Como alternativa, a arquiteta aponta o aproveitamento de áreas conhecidas como “vazios urbanos” – terrenos sem uso localizados em diferentes bairros da cidade – além de imóveis abandonados, conhecidos popularmente como “prédios fantasmas”.
Desigualdade no acesso à moradia

A arquiteta e urbanista Giovana Campos destaca que a desigualdade no acesso à moradia também contribui para o crescimento das ocupações irregulares.
Segundo ela, muitas famílias recorrem à autoconstrução em áreas informais por falta de acesso a políticas habitacionais ou informações sobre programas de moradia.
“Esse cenário mostra que o mercado imobiliário formal não consegue atender a população de baixa renda. Como resultado, muitas famílias acabam ocupando áreas sem infraestrutura básica, como saneamento, drenagem e mobilidade”, afirma.
A especialista explica ainda que a ocupação espontânea ocorre, muitas vezes, em áreas públicas ou com pouca fiscalização, o que favorece o avanço de assentamentos em locais de risco.
“A presença de rios, igarapés e áreas de floresta também limita as áreas adequadas para expansão urbana formal. Por isso, muitas ocupações surgem em áreas ambientalmente frágeis, como margens de igarapés, encostas e áreas de preservação”, explica.
Desafios para a gestão urbana
Segundo Giovana Campos, o crescimento dessas áreas representa desafios significativos para a gestão urbana, especialmente em relação à oferta de serviços públicos.
“Muitas dessas regiões não possuem rede de esgoto, drenagem adequada ou coleta regular de resíduos, o que impacta diretamente a saúde pública e a qualidade da água dos igarapés”, destaca.
Ela aponta ainda a necessidade de políticas de urbanização de assentamentos precários, que vão além da remoção de moradores.
“Muitas áreas precisam de requalificação urbana, melhorias habitacionais e implantação de infraestrutura. Além disso, grande parte das famílias não possui título de propriedade, o que gera insegurança jurídica e dificulta investimentos públicos e privados nessas regiões”, afirma.
A especialista também ressalta que a falta de fiscalização ao longo dos anos permitiu a consolidação de ocupações irregulares, enquanto o planejamento urbano da cidade, em muitos casos, ocorreu de forma tardia.
“Isso dificultou a implementação de infraestrutura, saneamento e regularização fundiária. Esse conjunto de fatores contribuiu para a formação de uma cidade marcada por desigualdades no acesso à moradia e aos serviços urbanos”, conclui.






