Júnior Almeida – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A violência sexual contra crianças e adolescentes segue sendo uma das principais formas de violação de direitos noticiadas nas últimas semanas no Amazonas. O estupro de vulnerável permanece entre os crimes mais recorrentes registrados pela Polícia Civil do Estado (PC-AM), revelando um padrão alarmante de abusos praticados majoritariamente por pessoas próximas às vítimas.
Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024, a maioria das vítimas são meninas (88,2%), negras (52,2%) e têm até 13 anos (61,6%). Em grande parte dos casos, os abusadores são familiares ou conhecidos (84,7%), e os crimes ocorrem dentro da própria residência das vítimas (61,7%).
Abusadores próximos
A análise dos casos recentes mostra que os autores dos abusos geralmente se aproveitam de momentos de vulnerabilidade, como reuniões familiares ou a ausência de um responsável. Muitas vezes, os agressores estão inseridos no círculo de confiança das crianças e adolescentes, o que dificulta a denúncia e aumenta o impacto psicológico da violência.
Casos recentes no estado
Um dos casos mais recentes ocorreu no dia 31 de março, no bairro da Paz, zona Centro-Oeste de Manaus. Um pastor de 38 anos foi preso acusado de aliciar adolescentes com idades entre 12 e 14 anos e armazenar material pornográfico infantil. O líder religioso atuava com jovens há mais de uma década e oferecia dinheiro em troca de fotos íntimas. Ele mantinha acesso constante às vítimas por meio de atividades da congregação, como eventos, reuniões e jogos de futebol.
Outro crime que chocou o estado aconteceu em Tefé, a 521 quilômetros de Manaus. Um homem de 42 anos foi preso no mesmo dia em que estuprou a própria sobrinha de sete anos. O crime foi descoberto após a mãe da criança flagrar o abuso, ocorrido dentro de casa, em um dos quartos onde a menina assistia televisão com o irmão.
De acordo com o Anuário, esses crimes costumam ser descobertos somente após a repetição de episódios de violência. Na maioria das vezes, há ausência de provas materiais ou testemunhas, tornando o depoimento da vítima fundamental para a investigação e responsabilização dos autores.
Consequências psicológicas profundas
A psicóloga Lorena Nery explicou ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS que o abuso cometido por pessoas próximas, especialmente dentro do ambiente familiar, gera impactos emocionais ainda mais profundos. Muitas vítimas têm dificuldade em reconhecer que sofreram um crime, especialmente quando existe um laço de afeto ou dependência com o agressor.

“Quando o abuso ocorre em um ambiente familiar ou por alguém de confiança, a vítima pode se sentir confusa, culpada ou até responsável pela situação. Esses vínculos tornam a identificação e a denúncia muito mais difíceis”, afirmou a psicóloga.
Segundo ela, é comum que crianças e adolescentes tentem minimizar o que viveram ou até escondam os sinais por medo ou vergonha. Por isso, a atenção de familiares e cuidadores aos sinais sutis é essencial.
“Mudanças de comportamento, isolamento, medo de contato físico ou recusa em estar com certas pessoas podem ser indícios. Muitas vezes, o agressor continua presente no convívio familiar, mantendo influência sobre a vítima mesmo após o crime”, alertou.
Cuidado especializado na recuperação
Lorena também reforça que o processo de recuperação exige uma rede de apoio segura e o acompanhamento de profissionais especializados:
“É fundamental que a vítima compreenda que não tem culpa, que o agressor é o único responsável e que ela tem o direito de se sentir protegida. O tratamento psicológico precisa ser feito com empatia e especialização para lidar com os impactos profundos desse tipo de trauma.”






