Lauris Rocha – Rios de Notícias
MANAUS(AM) – Um casal da zona Leste de Manaus, que preferiu não se identificar, denunciou ao RIOS DE NOTÍCIAS uma suposta negligência, omissão de socorro e condutas médicas inadequadas no atendimento da Maternidade Ana Braga, o que resultou na morte de uma recém-nascida no dia 17 de janeiro deste ano.
A mãe, de 38 anos, relatou que enfrentou um parto sozinha dentro da unidade de saúde e que a filha nasceu viva, mas morreu sem receber os cuidados necessários. O caso foi formalizado em um termo de declaração feito no dia 18 de fevereiro na Delegacia Especializada de Ordem Política e Social (DEOPS).
O casal, que tem um filho adolescente autista, agora busca responsabilização judicial. “Entrei na maternidade com minha filha saudável e saí com ela morta. Uma parte de mim morreu junto. Comprei lacinhos para minha primeira filha e nunca vou poder usar”, relembrou a mãe.


Atendimento após alerta sobre cerclagem
Segundo o relato da mãe a gestação estava sob cuidados médicos desde o início. Devido ao risco de parto prematuro, ela passou por um procedimento de cerclagem uterina (para evitar o parto prematuro). Mesmo em repouso e seguindo orientações médicas, ela apresentou sangramento no dia 15 de janeiro e procurou atendimento na maternidade.
“Expliquei que tinha feito a cerclagem meses atrás e que, por orientação do meu obstetra, eu não poderia receber toques vaginais, nem fazer exames como a ultrassonografia transvaginal”, relatou.
Segundo ela, o médico plantonista ignorou o alerta. “Ele falou: ‘senhora, o médico aqui sou eu’. Pediu para que eu me deitasse na maca e, mesmo com medo, obedeci porque queria salvar minha filha”, acrescentou.


Escalada de toques vaginais
Após ser colocada em observação na UTI, uma ultrassonografia indicou que o feto apresentava sinais vitais normais. No dia seguinte, a paciente relatou que dois médicos diferentes realizaram novos exames de toque vaginal, apesar da contraindicação.
“Depois desses toques, o sangramento aumentou e senti dores muito fortes. Me disseram que a bolsa estava descendo. A médica disse que só não estava rompida porque havia a costura da cerclagem segurando”, contou.
Ainda segundo a mãe, a bolsa rompeu parcialmente após os procedimentos e no dia 17 o obstetra responsável pela cerclagem a examinou novamente.
“Ele me olhou assustado e perguntou o que eu estava fazendo ali. Quando me examinou, disse que a bolsa tinha ultrapassado a costura por causa dos exames e que, se ela não fosse estourada, eu podia ter hemorragia, perder o útero e até morrer”, lembrou.
A então gestante foi levada ao centro cirúrgico, onde a bolsa foi estourada artificialmente, mas sem que a cesariana fosse realizada. “Eu estava anestesiada, achando que minha filha já tinha nascido. Quando acordei, meu esposo disse que ela ainda estava dentro de mim. Fizeram outro ultrassom e confirmaram que ela estava viva, com batimentos normais”, explicou.

Parto ocorreu sem presença médica
Após o procedimento, a mãe foi encaminhada para a sala de observação e, em seguida, para a sala DPP (Data Provável do Parto), onde aguardam as gestantes em trabalho de parto.
“Fiquei horas nessa sala, sem médicos, sem enfermeiras, sem ninguém. A dor piorou. Comecei a vomitar, a ficar sem ar. Meu marido pediu um remédio prescrito, mas a técnica de enfermagem disse que não tinha. Ele foi buscar uma dipirona no carro e, nesse tempo, entrei em trabalho de parto sozinha”, recordou.
“Gritei muito por socorro. Senti minha filha nascendo em pé. Vi a perna dela saindo. Levantei minha perna, enfiei a mão na minha vagina e ajudei ela a sair. Me machuquei toda. Ela nasceu viva, se mexendo. Fiz isso para salvar minha bebê”, contou, muito emocionada.
A primeira pessoa a aparecer foi uma funcionária da limpeza. “Quando meu marido voltou, ela já tinha nascido. Ele saiu desesperado pedindo ajuda. Duas técnicas apareceram, mas não levaram minha filha para a UTI neonatal. Uma delas disse: ‘nem olho a bebê tem’ e que ‘não tinha chance de sobrevivência’.”
Discussão sobre descarte do corpo
A mãe afirmou que, em seguida, uma das técnicas propôs o descarte do corpo como lixo hospitalar. “Ela disse que ia colocar minha filha na geladeira do necrotério ou então no saco de lixo, porque ‘era o procedimento’. Mas a gente impediu. Tínhamos vídeos mostrando que ela nasceu respirando.”
De acordo com a família, a filha deu um último suspiro ao ser tocada pelo pai, momentos antes de falecer. “Ela ainda respirava. Quando meu marido tocou nela, ela deu um suspiro. E morreu tentando respirar. Ele gritou: ‘Se tocarem nela, eu quebro tudo. Ela não é lixo’. E eu disse que ia dar um enterro digno pra minha filha.”


Reação da direção
No dia seguinte ao parto, o casal foi chamado pela direção da maternidade. “O diretor disse que soube que minha filha nasceu morta. Eu mostrei os vídeos, e ele mesmo disse: ‘quem respira tem direito à vida, tem direito ao socorro’.”
O casal informou que a maternidade emitiu dois documentos: um registro de nascimento com vida e outro de óbito. Após a reunião, uma assistente social e uma psicóloga visitaram a casa da família.

“Por que ela não teve uma chance?”
Sete meses após o ocorrido, os pais continuam em busca de respostas. “Por que minha filha não teve a chance de viver? Fiz tudo o que pude, até tirá-la com as próprias mãos. E eles não fizeram nada. Por quê?”, questionou a mãe.
O casal contratou um advogado para acompanhar o caso e, posteriormente, um segundo profissional foi incluído na equipe jurídica. A família agora aguarda pelo andamento da judicialização.

Sem respostas
Após a denúncia, a REPORTAGEM entrou em contato com a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM), mas até o fechamento desta matéria não obteve resposta. O espaço segue aberto para manifestação.






