Letícia Rolim – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Um projeto ferroviário para transformar a logística agrícola do Brasil. Esse é o chamado “Ferrogrão“, que tem o objetivo de substituir os caminhões que trafegam pela rodovia que corta o Brasil de Norte a Sul, a BR-163. O projeto promete reduzir os custos para os produtores agrícolas. No entanto, a iniciativa enfrenta críticas devido a um possível aumento no desmatamento que pode afetar cerca de 48 cidades totalizando uma área de 49 mil km².
Idealizado em 2014 pelas maiores empresas do agronegócio brasileiro, ADM, Bunge e Amaggi, o projeto pretende estabelecer uma ferrovia com aproximadamente 933 km de extensão, conectando o município de Sinop, no Mato Grosso, a um porto em Miritituba, no Pará.
Apesar das controvérsias, o projeto recebeu apoio da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), e ganhou impulso durante o governo de Michel Temer (MDB), sendo defendido também por Jair Bolsonaro (PL) e agora pelo Ministério dos Transportes do governo Lula, Renan Filho (MDB).
Reduções
Com capacidade para transportar o equivalente a 400 caminhões de carga por viagem, ou seja, aproximadamente 104 toneladas de CO², a ferrovia inicialmente terá a capacidade de transportar 19,2 milhões de toneladas, podendo chegar a 50 milhões em 30 anos.
Uma das vantagens do projeto é a redução do tempo de escoamento dos produtos para o exterior ao substituir o Porto de Santos pela região Norte. Para a Ásia, estima-se uma redução de aproximadamente 11 dias no tempo de transporte. Além disso, a distância percorrida por rodovias dentro do Brasil também diminuirá significativamente, passando de 2.210 km entre Sorriso (MT) e Santos, para 1.017 km entre Sorriso e Miritituba.
“O escoamento por ferrovias é teoricamente tido como de menor potencial de impacto ambiental e de menor custo do que pelo modal rodoviário devido a menor emissão de poluentes, menor número de acidentes e maior eficiência energética, maior capacidade de carga, menor custo de fretes de grandes volumes e para grandes distâncias”
Elisa Wandelli, pesquisadora e ambientalista
Desmatamento
De acordo com um estudo realizado pela Universidade Federal de Minas Gerais, o ambicioso projeto ferroviário pode resultar em um desmatamento alarmante de 49 mil km² em 48 cidades, o que representa uma área 64% maior do que o registro histórico de devastação da Amazônia em 2022, que foi de 17,7 mil km². Área desmatada pela ferrovia seria maior que a devastação recorde da Amazônia em 2022 e equivale ao tamanho do Estado do Rio de Janeiro e países como Eslováquia, Dinamarca e Holanda.
“A construção e a operação da Ferrogrão apesar de promover o aumento da produção de grãos em toda a região, mas especialmente na área de influência da ferrovia, acarretará no aumento do desmatamento, no aumento do uso de recursos hídricos e sua contaminação, no aumento do uso de agrotóxicos e de fertilizantes, e em agravamento de conflitos sociais e agrários”, explicou Wandelli.
Para a pesquisadora, a região é de extrema importância para a biodiversidade por ser o único acesso florestal entre a bacia do Xingu e Tapajós. “Este parque é de grande importância ecológica para a região e constitui a única conexão florestal entre a bacia do Xingu e a do Tapajós e é a área mais conservada da região, com apenas 1% de desmatamento e sua área e a do entorno precisam se conservadas para a manutenção da biodiversidade“.
De acordo com a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e a Climate Policy Initiative, somente em Mato Grosso, estima-se que o desmatamento pode chegar a 2.000 km², área superior à cidade de São Paulo. Essa devastação deve emitir 75 milhões de toneladas de carbono, o equivalente a R$ 9,2 bilhões, considerando o preço de US$ 25 (R$ 119,95) a tonelada de carbono.
Comunidades Indígenas
Durante a realização do planejamento, foi estabelecido que a ferrovia vai passar por 16 terras indígenas. As comunidades indígenas não foram consultadas, como manda a Organização Internacional do Trabalho. Além de também passar por 102 assentamentos de reforma agrária.
O pesquisador Lucas Ferrante destaca que os impactos nas terras indígenas são apenas uma parte dos problemas relacionados a esse projeto.
“A Ferrogrão ela tem dois impactos substanciais. Primeiro o impacto da sua própria construção. Essa é uma obra que ela corta terras indígenas, unidades de conservação e gera um potencial impacto de desmatamento preocupante abrindo uma área também pra invasores e uma migração pra essa área, deixando essa área suscetível principalmente a grilagem de terras”, explicou Ferrante.
Diante dessas preocupações, o especialista afirma que “é evidente que a construção da Ferrogrão acarretará em problemas que vão além do impacto ambiental”, afetando também os direitos indígenas e aumentando significativamente o desmatamento na Amazônia e a invasão nas áreas.
“Essa ferrovia ela tem como finalidade escoar a produção de grãos do Brasil e justamente ao abrir essas áreas a possíveis invasores como grileiros de terra justamente essa obra tende a fomentar a invasão principalmente de nessas áreas. Então de fato é uma obra que traz dano ambiental, traz violação dos direitos dos povos indígenas e tem um potencial de aumento de desmatamento pra Amazônia muito grande”
Lucas Ferrante, pesquisador






