Júnior Almeida – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A tirzepatida, conhecida comercialmente como Mounjaro, foi criada para tratar diabetes tipo 2, mas, nos últimos meses, o medicamento virou “febre” entre pessoas que buscam emagrecimento rápido.
Um levantamento feito pela plataforma Conexa Saúde considerou o volume de pesquisas de julho de 2025 no google e mostrou que a busca por esse remédio no país registrou 586 mil pesquisas no período, com 171 mil para o termo “Mounjaro preço”.
A obesidade também ajuda a explicar por que medicamentos como o Mounjaro têm ganhado tanta atenção. Dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional do Ministério da Saúde, mostram que cerca de 35% da população apresentou algum grau de obesidade em 2024.

O levantamento analisou mais de 26 milhões de pessoas no país e confirma que o problema segue aumentando. O consumo acelerado do remédio, muitas vezes sem orientação médica, tem preocupado profissionais de saúde.
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Como o medicamento age
A nutricionista e especialista em emagrecimento Liliane Bastos explicou ao Jornal da Rios, na Rádio Rios FM 95,7, que o remédio age reduzindo o apetite, diminuindo a ingestão calórica e retardando o esvaziamento gástrico.
“É um remédio muito potente. A pessoa simplesmente não sente fome. Em muitos casos, ela não sente vontade nem de beber água”, destacou.

A especialista em emagrecimento explicou como a medicação age no organismo. Segundo ela, o fármaco atua diretamente nos hormônios que regulam a saciedade e o metabolismo.
“E aí, ele tem duas vias de recepção, que são os dois hormônios, o GLP-1 e o GIP. Esses hormônios vão atuar diretamente na redução e metabolização do organismo, do sistema fisiológico. E o Mounjaro altera a percepção de fome e saciedade”, explicou.
A tirzepatida, que é o princípio ativo, é uma molécula que atua de forma dupla nesses dois hormônios produzidos pelo intestino. Eles ajudam a controlar a glicemia e a promover a sensação de saciedade. Ao imitar a ação natural desses hormônios, a medicação reduz os níveis de glicose, melhora a sensibilidade à insulina e diminui o apetite.
O efeito que parece vantajoso pode rapidamente virar um problema para a pessoa. “Já atendi pacientes que passaram 48 horas sem conseguir comer absolutamente nada. Isso não é emagrecer com saúde, isso é adoecer”, ressaltou.
A perda de sede também preocupa. “Alguns pacientes precisam usar aplicativo para lembrar de beber água, porque esquecem completamente”, disse Liliane.
A profissional aponta náuseas, repulsa a cheiros intensos e desconforto gastrointestinal entre as queixas mais comuns durante a adaptação.
Queda de libido: efeito pouco comentado
A libido, porém, é um dos efeitos menos comentados, e mais presentes, segundo Liliane. “Aproximadamente 58% das minhas pacientes, mulheres, relatam queda sexual durante o uso desse medicamento”.
A motorista de aplicativo Gracy Silva, de 43 anos, conversou com o Portal RIOS DE NOTÍCIAS sobre o assunto, ela afirmou que está no terceiro mês de tratamento e que o impacto sexual foi um dos efeitos “mais difíceis”.
“Quando eu percebi que estava com essa ausência de libido, tanto eu quanto a minha parceira achamos estranho. Perguntei ao médico e ele disse que é normal, que alguns pacientes têm essa reação”, contou.
Ela afirma que o esforço para manter a vida sexual aumentou. “Uma relação que antes levava 15, 20 minutos, hoje pode demorar uma hora ou mais, e às vezes nem acontece. É um esforço muito maior do que o normal. E ninguém fala sobre isso. Acho que muitas pessoas têm vergonha de expor, mas é, sim, uma reação”.
Mesmo enfrentando essa redução da libido, Gracy segue no tratamento e já eliminou 14 kg em dois meses e meio. “Quero perder mais 10 kg. Vou dar uma freada agora, ver como meu organismo reage quando a medicação acabar, e depois retomo”.

Acompanhamento médico é essencial
A nutricionista reforça que o uso deve ser acompanhado por endocrinologistas ou nutrólogos, com suporte nutricional para evitar dependência exclusiva da medicação.
“O grande desafio não é tomar o Mounjaro. O grande desafio é o depois, quando o remédio sai do corpo e o paciente precisa manter o resultado”, comentou.
Outra paciente ouvida, que pediu para não ser identificada, iniciou o uso há duas semanas após recomendação do endocrinologista.
“Eu sofro com obesidade tipo II, pré-diabetes e SOP [Síndrome do Ovário Policístico] há anos. Mesmo com dieta e academia constante, não via melhora. O tratamento tem mudado minha relação com a comida. Não sinto mais aquela vontade exagerada de comer para compensar ansiedade ou pressão do trabalho”, relatou.
Paciente
Ela afirma que o remédio ajudou a reorganizar sua rotina. “Comecei a priorizar uma alimentação saudável para equilibrar a perda de peso e normalizar a glicemia. Parei com besteiras, bebida alcoólica e estou me dedicando mais aos exercícios”.
Como minimizar efeitos colaterais
A nutricionista orienta:
- fracionar as refeições;
- aumentar o consumo de fibras e frutas;
- manter hidratação programada.
O risco de perda de massa magra também preocupa: “O emagrecimento rápido leva embora músculo, não só gordura. Sem treino, isso pode evoluir para sarcopenia precoce”.
Uso irregular e versões falsificadas
Mesmo com riscos conhecidos, o uso descontrolado segue crescendo entre a população. Liliane relata que recebe pacientes que se automedicaram ou usaram versões manipuladas ou falsificadas, o chamado “mounjaro de pobre”. “É mais barato, mas ninguém sabe o que realmente tem ali dentro. Pode ser perigoso e completamente irregular”.
A nutricionista também explica que o Mounjaro pode acionar gatilhos emocionais. “Alguns pacientes desenvolvem ansiedade, outros recaem em compulsão. Já vi casos de pessoas que pararam de fumar ou beber por conta do remédio, mas transferiram isso para outros comportamentos nocivos”.






