Nicolly Teixeira – Rios de Notícias
MANAUS (AM) -Um levantamento realizado pela Central Única das Favelas (Cufa), em parceria com o Data Favela e dados do IBGE, revelou que Manaus abriga duas das cinco maiores favelas do Brasil: a Cidade de Deus, localizada no bairro Alfredo Nascimento, zona Norte, e a Comunidade São Lucas, entre os bairros São José Operário e Tancredo Neves, na zona Leste da capital. Ambas aparecem na lista das maiores comunidades do país, atrás apenas da Rocinha (RJ), Sol Nascente (DF) e Paraisópolis (SP).
Com milhares de moradores, essas comunidades enfrentam desafios estruturais graves, como falta de saneamento básico, pavimentação precária e ausência de políticas públicas consistentes. Apesar disso, o estudo mostra que a população dessas áreas mantém um forte sentimento de pertencimento, consumo ativo e uma vida comunitária intensa, desmistificando a ideia de que pobreza é sinônimo de abandono.
Os dados revelam, por exemplo, que 77% dos moradores das favelas da Região Norte pretendem comprar roupas nos próximos seis meses — índice que supera a média nacional (70%). Já o consumo de perfumes e cosméticos chega a 67% na região, também acima da média brasileira (60%). Os números indicam não apenas a força econômica da periferia, mas também o cuidado com a autoestima e o desejo de inclusão.
“As pessoas não vivem na favela porque querem, mas porque não tiveram escolha”
Para o professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e doutor em Linguística, Sérgio Freire, os dados refletem o impacto da falta de acesso à moradia digna em Manaus.
“A alta concentração de moradores na Cidade de Deus e na comunidade São Lucas se explica por múltiplos fatores estruturais e históricos. Primeiramente, a precariedade do mercado formal de habitação em Manaus, agravada pela especulação imobiliária e pela ausência de políticas públicas contínuas de moradia popular, empurrou milhares de pessoas para áreas disponíveis, ainda que irregulares, nas periferias da cidade”, afirmou.

Ele destaca que, apesar da carência de infraestrutura, essas comunidades são territórios de resistência, identidade e coletividade.
Orgulho, consumo e fé como forças da periferia
O levantamento nacional revela que 94% dos moradores de favelas sentem orgulho de onde vivem. Para Sérgio Freire, esse dado mostra que as comunidades de Manaus — como Cidade de Deus e São Lucas — não podem ser vistas apenas pela ótica da pobreza.
“O orgulho de morar nas favelas, compartilhado por 94% dos entrevistados, não é um paradoxo, mas um indicador de que a identidade social e cultural transcende a precariedade material. As pessoas constroem nesses territórios laços fortes de pertencimento, vizinhança, memória e resistência. É onde se sente acolhido, onde se formam redes de proteção e onde a coletividade substitui a ausência do Estado”, disse Freire ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS.
O estudo evidencia a necessidade de o poder público olhar para essas comunidades não apenas com foco em repressão ou assistencialismo, mas com investimentos em infraestrutura, educação, saúde e cultura.
“Autocuidados indica que o desejo de cuidar da aparência e do bem-estar não é exclusividade das classes médias ou altas. O consumo de produtos de marca mostra um esforço por inclusão simbólica — ‘estar no mundo com dignidade’, ainda que com renda limitada. E as compras online aponta para uma inclusão digital progressiva, mesmo com limitações de infraestrutura”, conclui o pesquisador.






