Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A insuficiência de vagas em creches e escolas municipais, aliada à falta de ampliação das unidades já existentes, tem contribuído para a vulnerabilidade de famílias em Manaus, especialmente as de baixa renda, no acesso à educação infantil.
Denúncias encaminhadas ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS revelam que a oferta de vagas segue abaixo da demanda, deixando muitas famílias sem alternativas às vésperas do início do ano letivo.
Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que a ampliação da rede de creches está longe de ser alcançada e não figura entre as prioridades da gestão do prefeito David Almeida (Avante).
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Falta de vagas
De acordo com Lambert Mello, coordenador jurídico do Sindicato dos Professores e Pedagogos de Manaus, diversos fatores explicam o déficit de vagas no início do ano letivo, entre eles a ausência de ampliação das unidades existentes e a falta de construção de novas creches.
“O impacto ocorre na medida em que a família entra em situação de vulnerabilidade, o que pode refletir diretamente no bem-estar das crianças”, afirmou.

Segundo ele, a falta de matrícula em creches compromete o desenvolvimento infantil e afeta principalmente mães que precisam trabalhar. “A principal consequência é a perda de renda, já que muitas não conseguem emprego formal por não terem onde deixar os filhos. Isso aumenta a vulnerabilidade da família e da criança”, ressaltou.
Medidas emergenciais
Lambert Mello avalia que o município não cumpre o que determina a Constituição Federal e o Plano Nacional de Educação no que diz respeito à educação infantil. Como alternativa emergencial, ele sugere medidas provisórias para reduzir o déficit de vagas.
“Em caráter emergencial, e apenas nessa condição, o poder público poderia comprar vagas em creches particulares e alugar prédios adequados para a implantação de creches provisórias”, apontou.
Para o coordenador jurídico, a falta de acesso à educação infantil tende a aprofundar as desigualdades sociais. “As famílias que não conseguem vagas ficam impedidas de acessar o mercado formal de trabalho e acabam em situação de extrema vulnerabilidade, o que amplia substancialmente as condições de pobreza”, apontou.
Poucas creches
A pedagoga Carla do Carmo também avalia que Manaus possui um número insuficiente de creches e que a educação infantil não é tratada como prioridade pelo poder público municipal.
“Há poucas creches e, consequentemente, poucas vagas. A baixa movimentação para a construção de novas unidades está ligada às prioridades políticas, mesmo sendo uma atribuição do município ofertar esse serviço”, afirmou.

Segundo a especialista, a ausência de matrícula em creches afeta diretamente o desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças, especialmente nos três primeiros anos de vida.
“O cérebro está em pleno desenvolvimento e forma suas estruturas a partir das primeiras interações com o ambiente. Estar em um espaço preparado, com profissionais capacitados, faz toda a diferença”, explicou.
No aspecto emocional, Carla destaca que a creche contribui para a formação da segurança, da confiança e do autoconceito da criança. “A socialização traz inúmeros benefícios. A convivência e a imitação são formas fundamentais de aprendizagem”, completou.
Acesso à educação infantil
A pedagoga ressalta ainda que menos de 50% da demanda por vagas é atendida em Manaus, afetando principalmente mães solo que precisam trabalhar para garantir renda familiar.
“Muitas mães precisam se reinventar, trabalhar de casa ou deixar os filhos com pessoas sem capacitação adequada”, disse.
Para Carla, há profissionais capacitados disponíveis no mercado, formados por instituições públicas e privadas. “O que falta é prioridade. Existem imóveis que poderiam ser alugados, adaptados ou mesmo construídos para ampliar a oferta de creches”, avaliou.
Direitos básicos
A especialista alerta que a ausência da creche, somada ao uso excessivo de telas e à rotina intensa dos adultos, tem privado crianças de direitos básicos, como o brincar e o contato com a natureza.
“A infância é determinante para a formação de habilidades motoras, cognitivas, emocionais e sociais. A falta de acesso à educação infantil traz prejuízos que se refletem nos próximos níveis de ensino”, declarou.
Denúncias
Mães que procuraram o Portal RIOS DE NOTÍCIAS relataram dificuldades para garantir vagas na rede municipal. Uma delas é Ivalene Nery, de 29 anos, dona de casa, que tenta matricular a filha de 4 anos na Escola Municipal Divino Pimenta Faleiros e no CMEI Beatriz Sverner, na zona Leste, sem sucesso.
Dados
Em Manaus, apenas 17,19% das crianças de 0 a 3 anos têm acesso à creche, índice abaixo da média estadual. A capital possui cerca de 135 mil crianças nessa faixa etária, das quais aproximadamente 24,2 mil estão fora da educação infantil. Entre 2019 e 2024, houve queda de 3,2% no número de matrículas, totalizando 55,8 mil.
Para crianças de 4 a 5 anos, a taxa de atendimento é de 83,4%, superior à de capitais como Porto Alegre (79,9%), Macapá (71,7%) e Porto Velho (60,1). Os dados são da ONG Todos Pela Educação e evidenciam desafios persistentes na educação infantil, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.












