Nayandra Oliveira – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A operação realizada nesta semana no Centro de Manaus, que terminou em confusão entre ambulantes e a Guarda Municipal, nesta quinta-feira, 7/8, faz parte do pacote de “reordenamento” anunciado pela Prefeitura para a região. A iniciativa, batizada de Mutirão no Bairro, inclui mudanças no trânsito, como a liberação da rua Guilherme Moreira e da rua Marcílio Dias para veículos, e a retirada de camelôs de áreas consideradas “irregulares” pelo Executivo municipal.
Desde a manhã de quinta-feira, equipes da Secretaria Municipal de Agricultura, Abastecimento, Centro e Comércio Informal (Semacc) e da Guarda Municipal percorreram pontos estratégicos, como o entorno do mercado Adolpho Lisboa e a Manaus Moderna. Segundo a Prefeitura, o objetivo era “desobstruir calçadas” e “organizar o comércio informal”.
Mas, para comerciantes e camelôs, a ação aconteceu sem diálogo e de forma truculenta. Barracas foram derrubadas, produtos apreendidos e não houve tempo para retirada das mercadorias. Vídeos divulgados nas redes sociais mostram guardas usando spray de pimenta e fechando boxes de vendedores, o que gerou pânico e correria no local.
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“Ninguém falou com a gente”
Will Motta, que há quatro anos trabalha com vendas de acessórios no Centro, contou à REPORTAGEM que ninguém da Prefeitura conversou com os trabalhadores sobre a reabertura das vias ou ofereceu alternativa de realocação.
“O prefeito deveria vir aqui, pelo menos conversar com a gente ou mandar alguém aqui para relatar, falar alguma coisa para nós, dar uma resposta para nós, porque só chegar aqui e tirar a gente, isso aí é muito fácil”, relatou.

Diante da situação, o comerciante segue na dúvida de como ficará o seu trabalho. “Para onde é que a gente vai? A gente depende daqui desse trabalho. Eu trabalho com acessórios, capinha, película. É daqui que eu levo o meu ganha pão para casa, entendeu? Porque se eles tirarem a gente daqui, para onde é que a gente vai?”, questionou preocupado.
Segundo ele, nem mesmo o sindicato dos ambulantes foi acionado. “Não chegou ninguém aqui não. Todo dia estamos aqui cedo, mas ninguém apareceu. O Marquinho, do sindicato, também não veio. Ele representa a gente e até agora nada”, acrescentou.
“Vai causar desconforto e risco para as famílias”
Luiz Henrique Almeida, há três anos atuando no Centro, teme pelos riscos da mudança e acredita que não irá trazer benefícios para ninguém. “A gente viu algumas pessoas comentarem, mas ninguém veio comunicar oficialmente. Com relação à mudança, acho que não vai trazer benefício pra nós aqui”, disse.
Ele se preocupa com a segurança de quem circula na área. “Final de ano, sem carro, já é perigoso. Com carro, vai ser pior. Já vi criança quase ser atropelada por moto. Vai causar tumulto. Eu acho que vai causar um certo desconforto para as famílias, né?

“Vai aumentar os acidentes”
Frequentador assíduo do Centro, o Nestor Fajardo também acredita que liberar os carros vai aumentar os acidentes.
“Aqui ninguém respeita pedestre. Se já tem muita gente andando a pé, imagina com um monte de carro. Vai aumentar acidente, porque essa rua sempre foi de pedestre. Eu acho que vai dar ruim”, comentou.

“Nunca vi centro comercial com carro no meio”
Luiz Carlos, outro trabalhador da área há oito anos, também não aprova a decisão e disse que nunca viu isso antes. “Vai piorar por conta que tem as lojas aqui. Nunca vi um centro comercial com vias de trânsito dentro. Vai ter poeira, atrapalha o comércio, atrapalha tudo”, falou.
Para o comerciante, a mudança também aponta risco para a segurança de todos que estiverem no local. “Já não tem quase segurança aqui. Com mais carro, vai piorar. Aqui o fluxo é de pedestre. Já acontece acidente na rua, imagina aqui no meio das lojas”, comentou.

“Quantos pais de família vão ficar desempregados?”
A dona Bia Andrade, camelô e moradora da cidade, fez um forte desabafo contra a medida e contra o tratamento dado aos ambulantes no Centro da capital amazonense. “Bom não vai ser. Aqui é área comercial. Como é que eles vão fazer isso? Quantos pais de família vão ficar desempregados?”, questionou.
A comerciante informal também criticou a falta de estrutura básica e a ausência de políticas públicas para a classe. “Manda eles virem pra cá pegar sol, pegar chuva como a gente. Tem dia que dá, tem dia que não dá. Eles só pensam no bolso deles, que estão no ar-condicionado”, ressaltou em tom de indignação.
“Às vezes a gente tem que mijar em garrafa. Mulher então, sofre muito mais. Eles não colocam nem banheiro pra gente. Só querem saber de rico. Nós somos esquecidos e pisados. Nós somos seres humanos como eles. Nós precisamos também viver, nós precisamos trabalhar pra levar o alimento pra nossa casa”, acrescentou Bia sobre as condições de trabalho e olhar do poder público.

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O que diz a Prefeitura?
Em nota, a Prefeitura de Manaus afirmou que identificou um depósito clandestino na rua Henrique Antony e que a operação visava coibir o armazenamento irregular de mercadorias e produtos fora da validade. Segundo o órgão, três guardas foram agredidos com pedras durante a ação.
A gestão municipal alegou ainda que a intervenção segue normas sanitárias e visa “proteger a população, o ordenamento urbano e a saúde pública”. Não houve, até o momento, posicionamento sobre a denúncia de agressões contra os ambulantes, nem sobre alternativas para os trabalhadores removidos.
População critica mudança
Nas redes sociais, internautas chamaram a ação de “desumana”, “eleitoreira” e “autoritária”. Muitos cobraram da Prefeitura um plano real para os ambulantes, além de medidas de segurança e infraestrutura básica no Centro. A liberação de carros nas vias também foi amplamente criticada por colocar em risco pedestres e prejudicar o comércio informal.






