Paulo Vitor Castro – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – No Dia Mundial da Água, celebrado neste domingo, 22/3, o que deveria simbolizar preservação ambiental e qualidade de vida contrasta com a realidade enfrentada por moradores do bairro Educandos, na zona Sul de Manaus. Na área, um igarapé tomado por lixo e esgoto a céu aberto evidencia anos de descaso.
Entre casas de palafita, a água escura e contaminada revela um cenário crítico. O Portal RIOS DE NOTÍCIAS esteve no local e constatou de perto a situação, marcada pelo acúmulo de resíduos e forte odor, que afeta diretamente a rotina das famílias.

Para os moradores, conviver com a água poluída significa lidar diariamente com riscos à saúde, dificuldade de manter a higiene e medo constante de doenças. A moradora Marilene Santos afirma que o problema se arrasta há mais de uma década, sem qualquer intervenção efetiva.
“É difícil, porque aqui não aparece ninguém para limpar. Isso acaba trazendo muitas doenças. Tá com mais de dez anos que ninguém limpa aqui. E a tendência é aumentar o lixo. O vento sopra e o lixo vem parar aqui, bem ao lado das casas, poluindo a água. A gente não tem ajuda de ninguém, só de Deus”, relatou.


Morador da área há cerca de 50 anos, Odinei Mendonça descreve a situação como insustentável e faz um apelo às autoridades por uma solução definitiva.
“São 50 anos que eu moro aqui sentindo esta catinga. Este lixo nunca foi tirado daqui. Eu peço aos governantes que deem uma força para nós, tirem nós daqui. Que esses homens tenham o coração bondoso para tirar a gente daqui, porque já chega, estamos cansados. Se a situação continuar assim, eu vou acabar morrendo aqui nesse lixo”, desabafou.
Saneamento básico
Dados do Instituto Trata Brasil, divulgados no dia 18 deste mês, mostram que Manaus ocupa a 82ª posição no ranking nacional de saneamento, estando entre as piores cidades do país. Apesar de 97% da população ter acesso à água tratada, apenas cerca de 32% conta com serviço de esgotamento sanitário.


Com isso, grande parte do esgoto acaba sendo despejada diretamente em igarapés como o do Educandos, aumentando a exposição da população a doenças e agravando a degradação ambiental.
Há mais de 30 anos no bairro, a moradora Ivone Lira relata os impactos diretos na saúde dos moradores, principalmente das crianças.
“Aqui tem malária, dengue e muitos mosquitos. A gente pisa na água contaminada e vai parar lá no SPA, doentes, com vômito, diarreia, tudo por causa do lixo e da água. Muitas vezes as crianças caem nessa água, adoecem, e ninguém ajuda. Somos nós mesmos que precisamos socorrer”, contou.

Ela também destaca que a dificuldade de acesso a pontos adequados para descarte de lixo contribui para o agravamento do problema.
“Eu, como moradora daqui do Educandos, pego meu lixo e levo lá pra cima. Mas tem muito morador que joga o lixo aqui mesmo. Não tem consciência de pegar o lixo e levar pra cima. Tem um ponto de lixo lá em cima, mas como é difícil chegar, acabam jogando aqui. Aí por isso entope tudo. Se todo mundo fizesse como eu, não tinha tanto problema”, explicou.

Procurada pela reportagem, a concessionária Águas de Manaus informou, por meio de nota, que a capital tem apresentado avanços no saneamento básico, que atualmente já conta com mais de 40% da cobertura. Além disso, segundo a empresa, mais de 2,2 milhões de pessoas já têm acesso ao serviço de abastecimento de água e há previsão de ampliação da rede.
Apesar disso, a realidade vivida por moradores do Educandos evidencia que o acesso pleno ao saneamento ainda está distante. No Dia Mundial da Água, o cenário reforça que garantir água de qualidade e condições dignas de vida segue sendo um desafio urgente na capital amazonense.
Ecoponto e ecobarreira
No dia 10 deste mês, a Prefeitura de Manaus implantou um ecoponto no bairro, espaço destinado ao descarte adequado de resíduos, como entulho, móveis e materiais recicláveis, com o objetivo de evitar o despejo irregular em locais como igarapés.
Também foi instalada uma ecobarreira na foz do igarapé do 40, com a função de conter parte dos resíduos antes que cheguem ao rio Negro. No entanto, moradores relatam que, mesmo com as estruturas, o acúmulo de lixo e o esgoto a céu aberto continuam fazendo parte da realidade da comunidade, indicando que as medidas não têm sido suficientes para resolver o problema de forma efetiva.


A reportagem solicitou posicionamento da Prefeitura de Manaus sobre as queixas dos moradores em relação ao acúmulo de lixo e à falta de limpeza na área, mas não houve retorno até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.






