Júnior Almeida – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Localizado na região central de Caracas e sendo uma das construções mais simbólicas da história venezuelana, El Helicoide foi projetado como um sonho arquitetônico de época e terminou como um pesadelo para muitos venezuelanos.
O prédio foi idealizado nos anos 1950 e seria um shopping center de luxo. A proposta era ousada: rampas em espiral permitiriam que clientes dirigissem seus carros até a porta das lojas, em um modelo inovador para a época.
A obra, projetada pelos arquitetos Pedro Neuberger, Dirk Bornhorst e Jorge Romero Gutiérrez, começou durante a ditadura de Marcos Pérez Jiménez, entre 1951 e 1958. O edifício, com passagens curvas que se dirigem para uma enorme cúpula, era considerado uma joia da arquitetura moderna latino-americana.
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Na época, o regime do ditador caiu e o projeto acabou sendo abandonado. Todo o concreto ficou exposto ao tempo, o espaço foi ocupado por moradores de rua e o sonho de consumo virou mais uma das famosas ruínas em grandes centros urbanos.
Décadas depois, o Estado venezuelano decidiu dar um novo destino ao prédio. Em 1984, El Helicoide passou a abrigar a Dirección de los Servicios de Inteligencia y Prevención (DISIP), primeiro serviço de inteligência do país.
Braço forte do Chavismo
Mais tarde, nos anos 1990, durante o governo de Chávez, o local se tornou sede do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin) e as antigas lojas foram transformadas em celas.
Os amplos corredores comerciais deram lugar a corredores de repressão. O prédio passou a simbolizar o braço mais rígido do regime contra opositores e ativistas.

Presos Políticos
Segundo a ONG Foro Penal, a Venezuela mantém hoje ao menos 189 presos políticos. Destes, 63 estariam detidos no Helicoide. O Tribunal Penal Internacional (TPI) investiga possíveis crimes contra a Humanidade cometidos no país durante o governo de Nicolás Maduro.
O governo venezuelano nega as acusações, questiona a investigação e afirma que o Tribunal Penal Internacional (TPI) “instrumentaliza” a Justiça internacional. Maduro chegou a chamar o Helicoide de “referência moral” ao receber uma maquete do prédio em um evento policial.
Denúncia de tortura sistemática
Em 2023, um projeto de realidade virtual jogou luz sobre o que acontece dentro do Helicoide. Batizado de “Realidade Helicoide”, o trabalho denunciou a tortura sistemática praticada nas celas do Sebin.
O projeto reuniu depoimentos de 30 ex-presos políticos e foi apresentado em 17 países, inclusive a autoridades internacionais, como o presidente do Tribunal Penal Internacional, Piotr Hofmanski.
Um dos idealizadores é Víctor Navarro, diretor da ONG Voces de la Memoria. Ele próprio ficou preso por cinco meses no local, em 2018. Em entrevistas, ele detalhou os interrogatórios e espancamentos dentro do edifício.
“Eu presenciei e fui vítima de tortura. Colocaram uma arma carregada na minha boca durante um interrogatório. Fui espancado”
Victor Navarro, diretor da ONG Voces de la Memoria


Navarro define El Helicoide como “o maior centro de tortura não só da Venezuela, mas da América Latina”. Preso após os protestos de 2017, que deixaram mais de 120 mortos, ele diz ter sido acusado de criar uma célula terrorista financiada pelos Estados Unidos.
Sua libertação só veio após uma negociação política entre governo e oposição. Logo depois, fugiu do país. Foi aí que surgiu a ideia da experiência virtual, inspirada em uma simulação do Diário de Anne Frank.
Durante o passeio virtual, o visitante chega a ser cercado por baratas e encolhe até o nível dos insetos. “Eles fazem você se sentir uma barata”, resume Navarro.
Relatos compilados por jornalistas e investigações internacionais, como documentários da BBC, descrevem El Helicoide como um “inferno moderno”. Não há celas adequadas, ventilação ou saneamento básico.


Banheiros, depósitos e escritórios viraram calabouços. Alguns setores têm nomes que parecem ironia cruel, como“O Aquário”. O pior deles seria o chamado “Guantánamo”, um depósito sem luz, sem água e sem banheiro, onde até 50 pessoas eram amontoadas ao mesmo tempo.
Quem passou pelo Helicoide
Ao longo dos anos, o prédio recebeu presos do alto escalão. Entre eles, María Oropeza, ligada à campanha de María Corina Machado, vencedora do Nobel da Paz de 2025, sequestrada em 2024 e mantida incomunicável por meses.



Alfredo Díaz, ex-governador de Nova Esparta, morreu sob custódia em dezembro de 2025, após ter atendimento médico negado. A versão oficial aponta infarto.
Também esteve lá Rocío San Miguel, advogada e defensora de direitos humanos, presa em 2024. Rosmit Mantilla, primeiro deputado gay do país, foi detido em 2014. Roberto Marrero, chefe de gabinete de Juan Guaidó, passou pelo Helicoide em 2019.












