Júnior Almeida – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Uma descoberta no campo da psicologia tem aumentado estudos e adicionado no vocabulário o termo “ecoansiedade“, junção criada para designar um medo ou mal-estar psíquico relacionado à crise climática.
Originado no campo da ecopsicologia, que considera o cuidado com o meio ambiente essencial para o equilíbrio psíquico, a palavra em inglês foi adicionada no dicionário de Oxford, para descrever uma preocupação crescente com as mudanças climáticas e seus impactos no futuro da humanidade.
Essa ansiedade crônica em relação às expectativas futuras com o meio ambiente, foi discutido em conversa com a psicóloga Débora Pacheco, que explicou ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS a influência da geração atual com o grau de consciência em relação aos problemas ambientais.
“O que a gente percebe? Que os mais novos, por exemplo, perguntam mais. Por que o aquecimento está desse jeito? Por que existe uma grande devastação na floresta? Por que querem colocar mais bois? Criar mais pasto? Quanto tempo dura um plástico ou alguma coisa que a gente joga fora? Eles [crianças e jovens] estão mais preocupados!“, reconhece a psicóloga.
A exposição maior de notícias sobre transformações no nosso planeta tem gerado um impacto emocional na população. Além disso, é notório a fixação por esse tipo de informação, causando um efeito ininterrupto na saúde mental das pessoas.
Para Pacheco, a pós-pandemia abriu novos olhares às questões ambientais. A especialista fala do quanto sentíamos falta do contato com a natureza quando fomos privados dela no período.
“Então, a gente passou a olhar mais essa questão ‘eco’ depois da pandemia, quando percebemos a falta da natureza, né? E de uma certa maneira, a questão climática está mais evidente com terremotos e diversas outras catástrofes, o que aumenta a preocupação“, pontua.
Status socioeconômico
Um estudo recente divulgado pelo The Lancet, apresentou dados sobre a ecoansiedade, com cerca de dez mil jovens entre 16 e 25 anos entrevistados, de dez países distintos, incluindo Austrália, Brasil, Finlândia, França, Índia, Nigéria, Filipinas, Portugal, Reino Unido e Estados Unidos, com mil pessoas de cada nação.
Os resultados indicam que 59% dos entrevistados estão muito preocupados com as mudanças climáticas, 75% consideram o futuro como algo assustador e 83% acreditam que os governos falharam em lidar adequadamente com o problema do aquecimento global.
O estudo ainda revela como a ecoansiedade impacta de maneira distinta conforme a região geográfica em que cada pessoa vive, deixando claro pelo fato de que 92% dos jovens filipinos se sentem alarmados com o futuro, em contraste com 56% dos jovens finlandeses.
Se considerarmos a realidade geográfica e lugar onde vive cada entrevistado, entendemos a influência direta nos resultados da pesquisa. Filipinas é um país comumente afetado por catástrofes ambientais, se comparado com a Finlândia, país mais feliz do mundo pelo sétimo ano consecutivo.
Temor e influência
O medo do apocalipse parece ter se tornado tão real para as classes mais altas dos Estados Unidos e Europa, que uma série de empreendimentos voltados a oferecer para super-ricos uma chance de escapar do fim do mundo tem chamado atenção de muitos.
A pandemia da Covid-19, por exemplo, fez crescer uma tendência antiga e agora mais atual do que nunca. A procura por bunkers e estruturas subterrâneas estão nos planos de investimento de empresários, que acreditam na iminência de possíveis ataques nucleares ou vírus mortais.
“Creio que a ecoansiedade vem sendo ligada a essa questão, a consciência de morte, de que o mundo está acabando e eu vou morrer também. Se analisarmos, Hollywood sempre colocou essas catástrofes em roteiros de filme, mostrando o fim da vida e o quanto isso influencia a percepção“, analisou Débora Pacheco.
A especialista comenta que a mudança de hábitos também é impulsionada pela preocupação maior com a saúde e o bem-estar, sendo compreensível também a ansiedade sobre o futuro do planeta.
“Essa cultura mais voltada para o naturalismo que estamos testemunhando, com um aumento significativo no número de pessoas vegetarianas e veganas, está intimamente relacionada a uma conscientização crescente sobre a degradação ambiental. Muitas vezes, essa percepção provoca um aumento da ansiedade e do medo em relação ao futuro“, conclui Débora Pacheco.






