Redação Rios
MANAUS (AM) – Vídeos de animais silvestres domesticados como macacos com roupinha, ou outras espécies em posição de ‘pets’ fazem grande sucesso nas redes sociais. A princípio, a prática é vista como uma situação fofa e até engraçada. O caso mais recente de domesticação de animais e que ganhou grande repercussão nacional foi o da capivara Filó.
O influencer Agenor Tupinambá cresceu nas redes sociais após postar seu cotidiano, no município de Autazes, no Amazonas, com o animal, e com outras espécies da região.
Especialistas explicam que a domesticação de animais silvestres, seja legal ou ilegal, pode trazer riscos tanto para a saúde do animal quanto para o a saúde dos seres humano, inclusive, acarretando problemas ambientais incalculáveis para toda fauna.
O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) foi notificado sobre um bicho preguiça que morreu sob a responsabilidade do tiktok Agenor e, por essa razão, o amazonense foi multado.
Outra infração detectada pelo órgão foi a exploração da Filó nas redes sociais. Esse tipo de prática é crime ambiental conforme lei brasileira.
Apreensão
Diante dos fatos, o animal foi apreendido pelo órgão na última sexta-feira, 28/4. No entanto, em cumprimento a uma ordem judicial, o Ibama acabou tendo que devolver a capivara Filó ao Agenor, no domingo, 30/4.
Nas redes sociais, o Ibama anunciou que cumpriria a decisão judicial. Com isso, a capivara foi entregue ao influencer no mesmo dia.
“A ordem judicial será cumprida. A soltura deverá ocorrer em unidade de conservação previamente selecionada, que abriga outros indivíduos da espécie”, disse o órgão.
Riscos para a saúde e para o meio ambiente
O Portal RIOS DE NOTÍCIAS procurou a médica veterinária Alexandra Graziele, especialista em animais silvestres, que informou que a domesticação de animais silvestres pode favorecer o aparecimento de zoonoses, ou seja, doenças que são transmitidas do animal para o ser humano, ou do ser humano para os animais.
Segundo ela: “isso é questão de saúde pública”. A veterinária pontuou que há diversas doenças que são conhecidas como é o caso da malária, clamidiose (infecção sexualmente transmissível (IST)), febre maculosa (doença transmitida pelo carrapato-estrela ou micuim da espécie Amblyomma), parasitas da capivara, além da doença de chagas (transmitida pelo inseto triatomíneo – mais conhecida como barbeiro ) e raiva – doença infecciosa viral que afeta animais mamíferos. A gente tem diversas doenças, tem vários tipos de parasitos, endoparasitos, e ectoparasitos”
Alexandra Graziele, médica veterinária
Há também doenças que ainda não são conhecidas e que surgem do contato do ser humano com animais silvestres. Um exemplo foi a pandemia do coronavírus em 2020. Diversos estudos apontam que a Covid-19 pode ter surgido da transmissão de animais.
“Este é o grande risco, não temos conhecimento de todos os perigos que podem colocar o ser humano em risco e os próprios animais”, destaca Alexandra Graziele.
Uma fauna inteira também corre o risco de ser afetada, conforme a veterinária Graziele. “Caso o animal que transitou entre humanos adquira algum microrganismo, uma população inteira pode ser erradicada. As vezes o animal não tem imunidade para lidar com aquilo. Foi basicamente o que aconteceu conosco na pandemia”.
“Quando o animal [domesticado de forma ilegal] não está em ambiente domiciliar totalmente fechado, ele acaba transitando na fauna e coloca mais riscos, porque esse animal não tem um tipo de triagem. A gente não sabe o que ele pode portar e o que vai portar para a floresta”
Alexandra Graziele
O risco da transmissão de doenças pode acontecer tanto em casos de animais silvestres domesticados de forma legal, como também ilegal. Alexandra chama atenção, principalmente, sobre o segundo caso, quando há menos instrução.

“Nos casos de animais legalizados, se a pessoa não fizer o manejo da forma correta, ela pode sim contrair e até transmitir para o animal. Já animais ilegais geralmente não têm cuidado nenhum, para ser chamado de bom. Os instrutores não tem tanta instrução, o que pode colocar ainda mais riscos”, frisa.
A via de acesso mais segura ao animal silvestre, de acordo com Alexandra, é por meio de criadouros legalizados e de referência. “São animais que recebem triagem necessária e controle”.
Exposição e tráfico de animais

Para a veterinária Alexandra Graziele, a exposição de animais silvestres em redes sociais abre uma grande problemática. Isso porque, fotos e vídeos desses animais domesticados nas plataformas digitais aumentam o interesse pela posse dessas espécies.
A grande questão, de acordo com Alexandra, é que muitas vezes, para conseguir a posse do animal silvestre, as pessoas acabam apelam para o tráfico de animais. “Na nossa região há a facilidade para o tráfico animal. Então, a pessoa consegue muito facilmente quando ela quer”, comenta.
“A gente vê um influenciador mostrando uma capivara de óculos, de roupinha, o quanto ela é fofinha. Então, quantas pessoas não vão se influenciar com essa atitude?”, destacou.
Há situações bem pior, em que o animal silvestre é abandonado. Isso acontece, pois o tutor se decepciona por não conseguir a interação esperada e, a relação de pet como ele viu nas redes sociais e acaba por abandonar o animal. E, “nesses casos, esperado é que ele- o animal silvestre – não consiga viver novamente na natureza, porque ele não vai conseguir se readaptar”.
“O tráfico está fortemente ligado com essa ‘vontade’ das pessoas de terem um pet silvestre, que muitas vezes vem a partir da interação relatada pelos influencers. O tráfico prejudica o meio ambiente. Os animais têm uma importância para cumprir seu papel biológico na biodiversidade. Precisamos respeitar isso”
Alexandra Graziele, médica veterinária
Punição

Conforme Alexandra, o órgão fiscalizador ambiental, Ibama, pune a domesticação ilegal de animais silvestres pelos riscos ambientais e de saúde pública que podem ser desencadeados por essa atividade.
“Por isso o Ibama pune esse tipo de situação. Pois é entendido que os prejuízos, tanto para os animais quanto para as pessoas e, consequentemente, para o meio ambiente. O Ibama precisa fazer esse tipo de fiscalização, recebe denúncias, avalia de acordo com a legislação e faz a punição”, explica.
Alexandra Graziele, médica veterinária
Caso o animal seja encontrado em ambiente urbano, o contato direto com eles não é o recomendado.
O passo correto, segundo Alexandra, é o acionamento dos bombeiros, do Ibama, ou do órgão fiscalizador da região. No Amazonas, o responsável é o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). “O Ipaam é responsável por capturar e fazer o resgate dos animais”.
Caso capivara
A ação do Ibama em relação à capivara Filó foi duramente criticada nas redes sociais. Para a médica veterinária, a situação exige um olhar mais técnico do que emocional.
“Quando falamos de animais silvestres, precisamos ser mais racionais do que emocionais. Isso é uma coisa que pode ser difícil, principalmente para quem é leigo. O Ibama nada mais fez que o seu papel de fiscalização baseado em legislação, que está relacionado às opiniões técnicas de profissionais”, disse.






