Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Treinos diários, sacrifícios pessoais e poucos incentivos. Essa é a realidade de muitos atletas profissionais brasileiros, especialmente no Amazonas. Celebrado nesta terça-feira, 10/2, o Dia do Atleta Profissional reforça a importância de valorizar quem faz do esporte sua principal fonte de renda e destaca a necessidade de mais investimentos, reconhecimento e políticas públicas eficazes para o setor.
No Brasil, um dos principais instrumentos de fomento ao esporte é a Lei nº 10.264/2001, que destina 2% da arrecadação bruta das loterias federais à área esportiva.
Do total arrecadado, 85% são repassados ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e 15% ao Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB). Apesar disso, atletas seguem enfrentando a falta de patrocínio, estrutura adequada e apoio contínuo.
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Rotina intensa e estrutura precária


Atleta profissional de atletismo e velocista, Jefferson Lopes, de 27 anos, mantém uma rotina de treinos de domingo a domingo, com atividades intensas realizadas no Instituto Federal do Amazonas (Ifam), na Zona Leste de Manaus. Segundo ele, as dificuldades começam pela infraestrutura disponível.
“Quando chove, precisamos adaptar os treinos porque a pista é de brita. Além disso, a pista oficial está muito dura, o que prejudica o desempenho dos atletas”, relata.
Jefferson destaca que Manaus possui uma pista oficial de atletismo na Vila Olímpica, administrada pela Secretaria de Estado do Desporto e Lazer (Sedel), mas afirma que o espaço precisa de melhorias, especialmente para atender atletas de alto rendimento. A falta de cronômetro eletrônico, equipamento essencial para validação oficial de marcas, também é apontada como um entrave.
“Sem esse equipamento, não conseguimos resultados oficiais. Outros estados, como São Paulo, Recife e Rio de Janeiro, já contam com essa estrutura”, diz.
Incentivos ainda insuficientes
Para o velocista, os incentivos aos atletas brasileiros, principalmente no Amazonas, ainda são limitados. Mesmo com programas como o Bolsa Atleta, ele defende a revisão dos critérios de acesso.
“Quem está começando ainda não tem resultados expressivos, mas precisa de incentivo para que novos talentos sejam descobertos. Também deveria haver acompanhamento psicológico na Vila Olímpica”, afirma.
A rotina exige conciliar treinos com trabalho. Jefferson treina pela manhã, trabalha à tarde e volta a treinar à noite. Ele conta que precisou abrir mão de diversos aspectos da vida pessoal para seguir no esporte.
“Abri mão de muita coisa. Sigo rigorosamente a alimentação indicada pela nutricionista, priorizo o descanso e tento dormir pelo menos oito horas por dia para manter corpo e mente saudáveis”, destaca.
Dificuldades financeiras e superação


Com 14 anos de carreira, Jefferson já recebeu prêmios como Destaque Esportivo 2019 e Homem Mais Rápido do Amazonas 2019, mas afirma que a maior dificuldade segue sendo financeira.
“Nunca recebi Bolsa Atleta do governo. Tenho resultados e história, mas não consigo. Hoje trabalho, pago minhas despesas e represento o Estado com meu próprio esforço. Se tivesse esse apoio, poderia me dedicar integralmente aos treinos e alcançar resultados ainda melhores”, relata.
Ao aconselhar novos atletas, Jefferson reforça que a persistência é fundamental. “Cada treino é um degrau para superar a si mesmo. A dor da disciplina é temporária, mas a conquista é eterna”, afirma.
Preparação física e saúde mental

O profissional de Educação Física Fábio Pereira, de 28 anos, mestre em Ciências do Movimento Humano, explica que a preparação física é um dos pilares do desempenho esportivo, envolvendo capacidades como força, resistência, potência, velocidade e coordenação.
“Atletas profissionais lidam com altas cargas físicas e psicológicas, calendário competitivo intenso e a necessidade constante de manter o rendimento”, explica.
Segundo o especialista, fatores como pressão por resultados, exposição midiática e exigências institucionais impactam diretamente o equilíbrio emocional e a continuidade da carreira.
“Os principais desafios incluem risco de lesões por sobrecarga, necessidade de recuperação adequada, controle do estresse competitivo e conciliação entre desempenho e saúde a longo prazo”, afirma.
Sonho distante para muitos
Pesquisa divulgada em 2024, intitulada “Esporte para Todos? O impacto do dinheiro na formação de atletas no Brasil”, realizada pela Serasa em parceria com o Opinion Box, revela que 42% dos brasileiros sonharam em se tornar atletas profissionais. No entanto, apenas 10% conseguiram alcançar esse objetivo.
Entre os que chegam à carreira esportiva, somente 20% conseguem se manter profissionalmente. Os principais obstáculos apontados são a necessidade de conciliar estudos (42%), dificuldades financeiras e necessidade de trabalhar (39%), falta de incentivos financeiros (32%) e falta de recursos (27%).






