Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Em julho, o Brasil enfrentou um desafio fiscal sério: o setor público consolidado — União, estados, municípios e estatais — registrou um déficit primário de R$ 66,6 bilhões.
O dado foi revelado pelo Banco Central do Brasil na última sexta-feira, 29/8. Mas o que isso significa para a economia do país?
Em termos simples, o déficit primário acontece quando o governo gasta mais do que arrecada. Caso o cenário fosse o oposto, seria registrado um superávit primário, ou seja, um “excesso de recursos”. Porém, o déficit mostrado em julho é reflexo de um desequilíbrio, onde as despesas superaram as receitas.

Em entrevista exclusiva ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS, o economista Altamir Cordeiro — especialista em gestão empresarial e ex-vice-presidente do Conselho Regional de Economia do Amazonas — explicou o impacto dessa situação para a economia brasileira.
“Se o governo não fizer as reformas necessárias, a situação fiscal vai se tornar insustentável. O limite para o aumento de impostos está chegando, e a falta de reformas pode levar a um colapso fiscal. O Brasil precisa agir agora para evitar um futuro ainda mais difícil”, ressaltou o economista.
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O impacto para a economia interna

Cordeiro destaca que, para 2026, o governo já enviou ao Congresso um orçamento que prevê um déficit superior a R$ 30 bilhões. Ou seja, o ano começará com um “rombo” já previsto.
“O governo sabe que, provavelmente, as receitas não cobrirão as despesas. O que ele faz é ajustar as expectativas, mas sabemos que os orçamentos públicos nem sempre são um reflexo fiel da realidade”, afirmou.
O economista aponta que o governo pode projetar as receitas, mas as despesas são mais tangíveis e comprometem o caixa público de forma imediata. “As receitas ainda precisam ser encontradas no mercado, o que depende do desempenho da economia. E claro, fatores externos, como a economia global, também influenciam o Brasil”, explicou.
O que esperar para os próximos meses?
Altamir Cordeiro observa que o déficit registrado em julho de 2025, de R$ 59 bilhões, foi puxado, entre outros fatores, pelos pagamentos de precatórios e pelos aumentos dos benefícios previdenciários.
“Esses reajustes, muitas vezes, vêm por decisões judiciais. O governo gasta mais do que arrecada, e sem um controle mais rigoroso, o déficit pode continuar nos próximos meses”, alertou.
Em ano eleitoral, a situação pode se complicar ainda mais, já que o governo tende a adotar medidas para agradar à população e garantir apoio. “O problema é que as receitas estão crescendo, mas as despesas estão subindo ainda mais rápido. Isso coloca em risco a saúde fiscal do governo”, pontuou.
Reformas fiscais: uma necessidade urgente

Cordeiro é enfático: é hora de o governo repensar sua estratégia. “Sem reformas estruturais, como a reforma administrativa, o Brasil não vai conseguir equilibrar suas finanças. Os gastos com pessoal estão excessivos e isso impacta diretamente na economia”, destacou.
A desconfiança do mercado e os desafios fiscais
O governo brasileiro estabeleceu uma meta de déficit zero para 2025, com uma margem de 0,25% de flexibilidade. Porém, diante do cenário atual, Cordeiro acredita que o Brasil pode estar distante de cumprir essa meta.
“O mercado está de olho. E quanto maior a dívida pública, maior a desconfiança em relação à capacidade do governo de pagar suas obrigações”, alertou.
O economista ressaltou que a decisão do Banco Central de aumentar a taxa de juros não é uma escolha política, mas uma medida necessária devido às condições fiscais do país. “Quando o governo busca dinheiro no mercado por meio de títulos públicos, acaba pagando mais juros. Isso aumenta a dívida pública”, explicou.
Taxas de juros: a relação entre dívida e economia
Cordeiro também alertou que o aumento das taxas de juros reflete a falta de um equilíbrio fiscal. “A cada vez que o governo busca recursos no mercado, ele eleva a dívida pública. Isso significa mais juros, mais custos para o governo e mais dificuldade para a população”, afirmou.
Para o especialista, a sociedade precisa entender que a alta taxa de juros não é culpa do Banco Central. “O governo é o principal responsável por isso. E, em um ano eleitoral, alcançar um superávit primário em 2026 será um grande desafio”, declarou.
O limite do aumento de impostos
O economista ainda apontou um problema crucial: o limite para o aumento de impostos. “Não há mais espaço para aumentar a carga tributária. A sociedade, especialmente os empresários, não aceita mais aumentos. Eles são os motores da economia, e o governo precisa entender isso”, concluiu Cordeiro.






