Letícia Rolim – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou o alerta de que a Covid-19 havia se tornado uma pandemia global. O mundo estava prestes a enfrentar um desafio sem precedentes, com surtos da doença emergindo em todos os continentes e sua rápida capacidade de proliferação deixando autoridades e cidadãos sem saber ao certo o que fazer.
Naquele momento, pouco se sabia sobre o vírus. Sua origem, modo de transmissão e sintomas eram incertos, deixando a população em estado de alerta e medo.
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Isolamento Social
A quarentena – protocolo de isolamento – foi implementada como medida preventiva para conter o avanço do vírus, levando milhões de pessoas ao isolamento social e à reclusão em suas casas. O simples ato de evitar o contato humano tornou-se uma prática importante para a sobrevivência.
A suspensão de eventos e o fechamento de lugares públicos foram medidas tomadas para evitar a propagação do vírus, mas também trouxeram consigo o peso de estar sozinho e o medo.
A máscara facial, antes vista como um acessório médico, logo se tornou um símbolo de proteção indispensável, obrigatório em todos os lugares.

Para alguns, o impacto da pandemia foi devastador. Muitas famílias perderam não apenas um, mas vários entes queridos para a doença. Aqueles que sobreviveram ao vírus frequentemente enfrentaram longos períodos de internação, deixando sequelas físicas e emocionais.
Relatos
A história de Luandra Richelly, estudante de pedagogia, é um exemplo vívido dos desafios enfrentados por muitos durante a pandemia de Covid-19. Diagnosticada com o vírus por duas vezes, a primeira em março de 2021, Luandra inicialmente subestimou a gravidade da situação. Sua maior preocupação era proteger seus avós, vulneráveis devido à idade.
“Eu não tinha noção do que realmente era uma pandemia, da seriedade e proporção que isso poderia tomar. Adotei medidas mais rigorosas que proteção, pois moro com meus avós, que são idosos e eram mais vulneráveis à Covid-19. Comecei a usar máscaras e não tinha pena de usar álcool em gel, principalmente após descer dos ônibus. Quando chegava em casa, era direto para o banho e mesmo depois de tomar banho, ainda limpava um pouco o banheiro com álcool também, tudo para tentar proteger eles”, relatou a estudante.
Mesmo tomando todos os cuidados, Richelly contraiu a doença no trabalho. “No trabalho nós éramos muito preocupados, pois tínhamos um líder um pouco hipocondríaco, então no trabalho o cuidado foi muito. Mesmo assim, acabei contraindo a covid naquele ambiente”, disse Luandra.
Gabriel Nascimento, instrumentador cirúrgico, também compartilhou sua jornada durante esse período complicado, relembrando a subestimação inicial do vírus.
“No início não imaginaria que a COVID-19 iria tomar a proporção que ela tomou, foi devastadora. Muitas pessoas subestimaram o que ela poderia fazer, por ser algo novo e que surgiu do outro lado do mundo. Eu acreditava que as autoridades iriam fazer algo para conter o vírus lá, porém de uma coisa ainda não sabíamos, que a sua ação contagiosa era muito grande. A minha rotina foi alterada sem dúvidas por estar na linha de frente e ver que estávamos despreparados por não saber exatamente como se tratar, e eu ainda fazia parte do grupo de risco”, relembrou o instrumentador cirúrgico.
Os relatos de Luandra e Gabriel refletem as experiências de milhares de pessoas ao redor do mundo, que foram diagnosticadas com o vírus ou tiveram parentes que também o contraíram. Indivíduos que lutaram tanto na linha de frente, quanto nos bastidores.

Colapso
Nos primeiros meses após o início da pandemia, a realidade dos hospitais lotados se tornou uma cruel verdade, especialmente no Amazonas. A falta de oxigênio nas unidades de saúde mergulhou pacientes e familiares em desespero, marcando um dos períodos mais difíceis para a população local, que clamava por uma resposta eficaz para conter o contágio.
Essas circunstâncias resultaram em inúmeras mortes e desencadearam um colapso em Manaus. Hospitais e cemitérios sobrecarregados lutavam para lidar com o número crescente de internações e óbitos, enquanto pacientes enfrentavam a angústia de não conseguir acesso ao tratamento necessário.
Luandra Richelly, em meio ao caos que se formava no estado, relata ter conseguido receber um atendimento adequado nos hospitais em que foi internada, e que viu de perto a realidade do que estava passando. “Não tenho muito do que reclamar em relação aos hospitais. Fui muito bem acolhida e tratada mas era uma realidade tensa, ver todas aquelas sofrendo sem ar ou sentindo muita dor.”, disse Luandra.
A estudante relembra que o vírus a deixou fraca e frágil, sem autonomia para fazer tarefas diárias, como tomar banho.
“Depois fui para o Nilton Lins e o atendimento lá foi maravilhoso, sempre muito atenciosos e foi um dos momentos em que me senti mais frágil como ser humano, pois eu não conseguia sequer lavar meu cabelo, tomar um banho ou usar o banheiro sozinha, sempre tinham enfermeiras auxiliando em todos os processos e sou muito grata a toda equipe que esteve lá”, disse Luandra.
Ela também relata que passou pela dor do luto ao perder um amigo muito próximo, vítima da Covid-19.
“Uma semana depois da minha alta eu recebi a notícia do falecimento de um grande amigo, que estava internado na mesma época que eu. Foi um choque muito grande tudo o que estava acontecendo”, lamentou a estudante de pedagogia.

Intubação
Para Gabriel Nascimento, instrumentador cirúrgico, a batalha contra a Covid-19 foi uma prova de resistência e determinação. Seis meses e dezenove dias de internação, oscilando entre estados de “grave” e “gravíssimo”, refletiam a gravidade do seu caso.
“Já cheguei grave no hospital, saturando entre 70% a 76%, com o fluxo de oxigênio no máximo”, relembrou Gabriel, cujo quadro clínico só se agravava, levando à intubação.
A situação parecia sem esperança. Os médicos sugeriram à família que desligasse os aparelhos, temendo sequelas cerebrais irreversíveis devido aos níveis baixos de oxigênio.
“Em certos momentos, fui desenganado pelos médicos, onde chegaram a reunir a família e sugeriram o desligamento dos aparelhos por motivos no qual eu teria muitas sequelas cerebrais devido aos níveis baixíssimos de oxigênio, dai, desenvolvi diversas úlceras por pressão, sequelas do COVID-19 e algumas delas sequelas crônicas que levarei pro resto da vida.”, contou o instrumentador cirúrgico.
O risco era dobrado para Gabriel, que trabalhava na linha de frente do Hospital e Fundação Centro de Controle de Oncologia (FCECON).
“Ficamos funcionando somente com os serviços essenciais, e algumas cirurgias eletivas eram marcadas. Estávamos ali, na linha de frente, quando a situação no Estado do Amazonas começou a ficar preocupante aos poucos os próprios profissionais foram se infectando e por estar no grupo de risco, parei minhas atividades, e me inclui no isolamento social”, explicou Gabriel.
Vacinação
Após meses de incerteza e sofrimento, a chegada das vacinas contra a Covid-19 trouxe um misto de esperança e alívio para Gabriel Nascimento e Luandra Richelly, assim como para milhões de pessoas em todo o mundo.

Para Gabriel, que enfrentou uma batalha árdua contra a doença, a notícia da existência da vacina foi um sopro de alívio em meio à sua recuperação.
“Lembro-me que ao estar me recuperando no Hospital, perguntei do meu médico se já existia a vacina, por estar esse tempo todo dentro do hospital sem comunicação com o mundo externo, fiz duas perguntas para ele, a fim de saber se seria possível ter uma reinfecção com a COVID19 e se já havia alguma mobilização para a vacina. Foi quando ele disse que sim, já havia estudos e laboratórios trabalhando no estudo do desenvolvimento da vacina contra COVID19. E que infelizmente uma pessoa poderia sim se reinfectar, porém com uma carga viral menor, devido aos anticorpos produzidos pelo nosso próprio organismo”, contou Nascimento.
Gabriel Nascimento, relata que quando estava se recuperando, chegou a questionar o médico sobre informações da vacina.
Richelly também declara ter ficado aliviada com a notícia da chegada dos imunizantes, e que isso fez a situação parecer novamente ter esperança.
“Quando eu estava internada já tinham sido anunciadas as vacinas, mas estavam vacinando apenas casos específicos, então não chegou até mim a tempo. Mas fiquei muito feliz por saber que tínhamos a vacina, e em nenhum momento hesitei em tomá-las. Com certeza veio aquela sensação de esperança de que tudo iria dar certo, e deu, mas infelizmente não para todos”, contou Luandra.
Conforme dados disponibilizados pela Secretaria Municipal de Saúde (SEMSA), até o momento, de mais de 5 milhões de doses foram aplicadas na população manauara. Além disso, o imunizante continua sendo disponibilizado nas unidades básicos de saúde da capital. Assim como, a disponibilização de locais para testagem gratuita para Covid-19.
Recuperação
Para Gabriel Nascimento e Luandra Richelly, a batalha contra a Covid-19 não terminou com a alta hospitalar. Ambos enfrentaram desafios durante o processo de recuperação, lidando com as sequelas físicas e emocionais deixadas pela doença.
Gabriel relembra o difícil caminho para a recuperação, marcado por cirurgias e reabilitação intensa para lidar com as sequelas deixadas pela doença.
“A minha recuperação foi bem difícil e dolorosa, pois, com muitas sequelas, tinham muitas coisas a serem recuperadas. Uma verdadeira Reabilitação, graças a Clínica Movida – Fisioterapia e Pilates, fizeram um excelente trabalho comigo, tanto na recuperação motora como na pulmonar. Os desafios foram grandes porque mesmo depois da alta, ainda tive que passar por cirurgias para reparar os danos causados”, ressaltou o instrumentador.
No entanto, ele reconhece que essa experiência transformou sua perspectiva de vida. “Sem dúvidas, eu nasci de novo”, declarou Gabriel. Segundo ele, a Covid-19 alterou suas prioridades e perspectivas, dando-lhe uma nova oportunidade de viver e uma nova página para escrever em sua história.
“O Gabriel antes da Pandemia, não é o mesmo pós Pandemia”, declarou.
Para Luandra, a recuperação foi uma jornada de autodescoberta e transformação. Ela reconhece que ter passado pela Covid-19 lhe deu uma segunda chance, apesar dos momentos de desespero e dor intensa. “Senti como se fosse uma segunda chance”, admitiu Luandra. Diante da adversidade, ela optou por mudar seu modo de agir e pensar, vivendo mais para si mesma e valorizando cada momento da vida
“Comecei a viver um pouco mais pra mim mesma”, disse a estudante.

Dados recentes
Na cidade de Manaus, um dos epicentros da crise no Brasil, os números divulgados pelo Portal de Transparência do município revelam uma dura realidade: mais de 320 mil casos confirmados.
Enquanto isso, no estado do Amazonas, segundo dados da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), mais de 600 mil casos foram registrados, com mais de 14 mil vidas perdidas, a sociedade enfrentou desafios nunca imaginados.
Nos últimos sete dias, o Amazonas registrou apenas 147 novos casos da doença, sem nenhuma morte reportada.
Esses números, porém, refletem apenas uma parte do quadro nacional. Em todo o Brasil, mais de 38 milhões de casos foram confirmados, com um registro de mais de 700 mil mortes. Cada número, cada estatística, representa uma vida perdida, famílias de luto afetadas pela pandemia.












