Nos últimos anos, a Indústria 4.0 virou uma das maiores apostas para impulsionar o desenvolvimento produtivo no mundo todo. Com tecnologias como Inteligência Artificial, Internet das Coisas e automação dominando o cenário, tudo indica que estamos no meio de uma revolução industrial silenciosa mas intensa. Só que, quando olhamos para a realidade do Amazonas, em especial o Polo Industrial de Manaus, a sensação é de que a tecnologia chegou, mas a formação técnica não acompanhou.
A gente vê máquinas de ponta, sistemas inteligentes, sensores de todo tipo, mas onde estão os profissionais preparados para lidar com tudo isso? Infelizmente, o que se vê é um vácuo preocupante na educação voltada às novas demandas.
Sem essa base, não tem como sustentar inovação a longo prazo. E pior: a exclusão tecnológica pode acabar gerando um impacto social profundo, se nada for feito logo.
Falta de preparo técnico e ausência de estratégia local
A verdade é que, apesar do discurso bonito sobre tecnologia, o Amazonas ainda está muito atrás quando o assunto é formar pessoas para atuar com IA nas indústrias. Enquanto em outras regiões do país já se fala em especializações, aqui mal existem cursos técnicos com foco prático em Inteligência Artificial. O PIM até conta com algumas fábricas avançadas tecnologicamente, mas o restante parece meio largado.
E o mais estranho é que as instituições locais, que deveriam estar liderando esse movimento, demonstram pouco interesse. Não existe um plano real, um esforço articulado entre governo, empresas e universidades com o objetivo de transformar esse cenário.
Fica a dúvida: será que só vamos acordar quando uma empresa do Sul desembarcar aqui com um pacote pronto de treinamentos, como se fosse salvadora da pátria? A gente deveria estar liderando esse processo com soluções adaptadas à nossa realidade, com o nosso jeito de fazer.
Treinamentos superficiais e um mercado sem paciência
Se tem algo que incomoda é ver o quanto o mercado cobra dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, oferece tão pouco em termos de qualificação. O que mais se encontra são cursos rápidos, que mal arranham o conteúdo, e já jogam o aluno de volta ao mercado como se estivesse 100% pronto. E aí vem a frustração. O profissional mais velho, que já se sente fora do circuito tecnológico, acaba ficando ainda mais inseguro.
Falta incentivo, falta tempo e, muitas vezes, falta até uma direção clara sobre por onde recomeçar. E o mercado? Nem quer saber. Quer produtividade imediata, mas não dá o suporte necessário para um aprendizado real. É um ciclo injusto, que só favorece quem já está por dentro do mundo digital. No fim das contas, a qualificação vira um dever do trabalhador, mesmo quando ele não tem apoio algum para alcançar esse novo patamar.
A urgência do remanejo humano e a responsabilidade institucional
Enquanto as máquinas ganham eficiência e precisão, muita gente está sendo deixada para trás. E isso não é só injusto, é perigoso. Porque existe uma geração de profissionais com uma bagagem valiosa, que poderia continuar contribuindo muito se tivesse acesso ao suporte necessário para se atualizar. Mas a verdade é que faltam políticas sérias de requalificação e, pior ainda, quase ninguém fala sobre como realocar essas pessoas que ficaram fora do ritmo da IA.
A tecnologia, que deveria servir como ferramenta de inclusão, está virando mais uma barreira. É urgente pensar em uma estratégia voltada para o ser humano, e não só para a inovação. Caso contrário, o desenvolvimento vai beneficiar apenas uma parcela da população, enquanto o restante vai seguir invisível, jogado às margens de um mercado cada vez mais implacável.
O Amazonas tem potencial, tem gente capacitada, tem indústria. O que falta é vontade de fazer diferente e fazer isso acontecer de forma coletiva, estruturada e com responsabilidade social.






