Elen Viana – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Após o Censo de 2022 apontar que Manaus tem seis das 20 maiores favelas do país, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Portal RIOS DE NOTÍCIAS conversou com especialistas que abordaram os motivos da “favelização” da capital amazonense.
As favelas apontadas pelo levantamento estão localizadas nas zonas Norte e Leste de Manaus, como as comunidades: Cidade de Deus/Alfredo Nascimento, Comunidade São Lucas, Zumbi dos Palmares/Nova Luz, Santa Etelvina, Colônia Terra Nova e Grande Vitória. Além disso, o Censo diz que um em cada três habitantes do Amazonas mora em uma favela.

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Os especialistas esclarecem que o crescimento populacional desorganizado e a rápida expansão dessas áreas resultaram na formação de ocupações irregulares devido à insuficiência de infraestrutura urbana, criando assim regiões conhecidas como favelas.

“A ausência de infraestrutura pública, de sistemas de coleta de água, iluminação adequada, energia organizada; a presença de ligações clandestinas e a falta de serviços essenciais, como coleta de esgoto e lixo, são características dessas áreas. Predominam moradias inadequadas, sem endereçamento e ruas definidas”, explica o sociólogo e professor da Ufam, Doutor Luiz Antônio Nascimento.
Crescimento e localidades
A ausência de uma atuação eficaz do poder público, como explica o Doutor Luiz Antônio, contribuiu para o crescimento desordenado dessas áreas. Ele observa que sem a oferta de serviços básicos, os moradores são obrigados a buscar soluções improvisadas.
“Sem esses serviços, as pessoas dificilmente conseguem resolver sozinhas. A concentração das favelas nas zonas Norte e Leste tem relação com a geografia da cidade. Os acidentes geográficos dificultaram a expansão ordenada e, a partir do final dos anos 80 e início dos anos 90, muitas dessas áreas eram pouco ocupadas ou de interesse especulativo, o que facilitou a expansão irregular”, diz ele.

A doutora em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, Wanessa Nascimento, ressalta que essas favelas estão localizadas principalmente nas zonas Norte e Leste, refletem limitações financeiras e dificuldades de acesso a recursos básicos para grande parte da população.

“Esse cenário é, em parte, consequência de políticas públicas insuficientes para garantir moradia adequada, infraestrutura e serviços essenciais. Enquanto algumas áreas de Manaus prosperam, outras enfrentam dificuldades que perpetuam a exclusão social. O desenvolvimento econômico precisa ser acompanhado de inclusão social planejada para que toda a cidade tenha acesso a condições de vida dignas”, afirma a doutora Wanessa.
Desigualdade e violência
Ainda de acordo com dados do IBGE, Manaus ocupou a quinta posição entre os municípios com maior Produto Interno Bruto (PIB) em 2020, somando R$ 103,2 bilhões.
O PIB reflete a soma de bens e serviços produzidos na região, sendo um indicador econômico relevante. No entanto, especialistas apontam as diferenças entre o crescimento econômico e as condições de vida da população que habita favelas.

“Existe forte evidência que comprovam que a falta de oportunidades de emprego e renda é um dos principais fatores que contribuem para as dificuldades enfrentadas pelos moradores de favelas, criando um ciclo de pobreza que se perpetua pela ausência de qualificação profissional e exclusão do mercado formal. Quando se trata de educação e capacitação profissional, a implementação de programas de capacitação e qualificação profissional para o mercado local pode ajudar a aumentar as chances de empregabilidade”, diz Claudenor de Souza, mestre e doutorando em Ciências da Educação pela UEA.
Além das questões econômicas, a doutora Wanessa Nascimento destaca que a violência impacta profundamente a vida dos moradores dessas áreas. “Estudos indicam que a violência nas periferias ameaça a segurança física, afeta a saúde mental e agrava condições de estresse e ansiedade, especialmente em jovens que crescem nesse ambiente”, afirma.
Potencial econômico das comunidades locais
Estas comunidades ajudam a impulsionar a economia local e geram empregos para as pessoas dessas localidades. O bairro Cidade de Deus, por exemplo, gera mais de 900 empregos em comércios, com um potencial econômico de R$ 602 milhões, segundo pesquisa realizada pela Outdoor Social em 2024.
A comunidade abriga ainda 35 micro e pequenas empresas e 477 microempreendedores individuais (MEIs).

“Os incentivos para pequenos negócios e economia local, visa promover incentivos fiscais e programas de microcrédito pode estimular o empreendedorismo local. A criação de linhas de crédito específicas para moradores de regiões periféricas, aliada ao suporte para a formalização de negócios, é essencial para o fortalecimento da economia local, gerando oportunidades de emprego e movimentando o mercado interno das comunidades”, conclui Claudenor.
Prefeito se pronuncia
O prefeito David Almeida (Avante), durante coletiva de imprensa nessa segunda-feira, 11/11, comentou sobre a “favelização” na capital amazonense e disse que é “fruto da falta das políticas públicas”.
“Semana passada saiu umas matérias sobre a favelização das grandes cidades. Infelizmente, das 20 maiores favelas do Brasil, nós temos seis. Fruto de quê? Da falta de políticas públicas habitacionais e moradias para a população que mais precisa”, destacou ele.
A declaração foi feita durante visita de David aos terrenos onde serão construídas moradias do Morar Melhor 13, 14 e 15, do programa “Minha Casa, Minha Vida”, localizado na comunidade Parque das Tribos, Tarumã, zona Oeste da capital.
“Quem vai morar próximo ao Igarapé ou em cima do leito do Igarapé, não vai morar porque quer, mas porque não tem condições de ter uma casa em um lugar diferente”, afirmou o prefeito.






