Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – O episódio de importunação sexual envolvendo a participante Jordana Morais no BBB 26 reacendeu o debate sobre os impactos psicológicos do assédio, especialmente quando a violência ocorre sob intensa exposição midiática.
O caso aconteceu na noite deste domingo, 18/1, quando o participante Pedro Henrique Espíndola tentou beijar Jordana sem consentimento dentro da despensa da casa.
Após o ocorrido, Pedro acionou o botão de desistência e deixou o reality show por decisão própria. Pouco depois, Jordana relatou aos colegas de confinamento que havia sido alvo de uma tentativa de beijo forçada. O participante é casado há mais de dois anos com Rayne Luiza e aguarda o nascimento de uma filha.
Na edição ao vivo do programa, antes da votação, a produção exibiu trechos das imagens do momento e a confissão do participante sobre a abordagem sem consentimento.
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Especialistas ouvidos pelo Portal RIOS DE NOTÍCIAS alertam que situações de assédio podem provocar danos emocionais profundos, como ansiedade, medo, culpa e depressão.
Em ambientes como o Big Brother Brasil, esses efeitos tendem a ser ampliados pela ausência de privacidade, pela vigilância constante das câmeras e pelo julgamento público.
Impactos psicológicos imediatos e duradouros
De acordo com a psicóloga Deborah Pacheco, os efeitos iniciais costumam incluir confusão emocional, choque, vergonha e sensação de invasão.
“Muitas vítimas entram em estado de alerta constante, com ansiedade elevada, dificuldade para dormir, alterações de humor e problemas de concentração. É como se o corpo e a mente permanecessem em defesa”, explica.

Quando o episódio não é acolhido e elaborado de forma adequada, os impactos podem se prolongar. “Na clínica, observamos dores físicas, tensão crônica, somatizações e um sentimento persistente de insegurança”, relata a especialista.
Segundo ela, também podem surgir transtornos de ansiedade, depressão e sintomas de estresse pós-traumático, além de prejuízos à autoestima e à confiança nas relações interpessoais.
Assédio sob os holofotes
A psicóloga destaca que a violência se intensifica quando ocorre em um ambiente de alta exposição, como um reality show.
“Nesses casos, a vítima não enfrenta apenas o trauma, mas também o olhar do outro. A dúvida sobre o que aconteceu e o medo do julgamento social fazem com que muitas pessoas demorem a reconhecer o ato como violento”, explica.
Esse mecanismo, segundo Deborah, é conhecido na psicanálise como desmentido psíquico – uma defesa emocional que minimiza ou nega a violência para permitir que a pessoa continue funcionando, especialmente diante de câmeras, audiência e repercussão pública.
Culpa, vergonha e silêncio
A especialista reforça que sentimentos como culpa e vergonha são reações comuns e não indicam fragilidade.
“A culpa surge como uma tentativa de recuperar o controle, enquanto a vergonha está ligada à violação dos limites do corpo e da vontade. O medo aparece quando a sensação básica de segurança é rompida”, afirma.
Ela orienta que familiares e amigos fiquem atentos a sinais de sofrimento emocional, como isolamento, mudanças bruscas de humor, dificuldade para falar sobre o ocorrido, alterações no sono, medo de determinados ambientes e falas de autodepreciação.
Importância do acolhimento e da responsabilização
Para Deborah Pacheco, a responsabilização do agressor é fundamental para a reparação emocional da vítima.
“Quando a violência é reconhecida e nomeada, a pessoa deixa de carregar sozinha o peso do ocorrido. Isso valida a experiência, reduz a culpa e ajuda a reorganizar o psiquismo”, destaca.
Ela ressalta que o acolhimento institucional e público não deve ser tratado como espetáculo, mas como reafirmação de limites sociais. “É dizer, de forma clara, que esse tipo de comportamento não é aceitável”.
Possíveis transtornos associados
A psicóloga Julia Soutello explica que o assédio pode desencadear transtornos como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático, sobretudo quando o episódio é silenciado ou minimizado.
“O organismo entra em estado constante de alerta, o que pode levar ao adoecimento psíquico. Insônia, irritabilidade, taquicardia e dificuldade de concentração estão entre os sintomas mais comuns”, afirma.

Ela ressalta que nem todas as vítimas desenvolvem transtornos mentais, mas o risco aumenta quando não há reconhecimento do sofrimento, suporte emocional ou intervenção adequada.
Reconstrução e papel da mídia
Segundo Julia Soutello, a reconstrução da sensação de segurança é um processo gradual, que envolve apoio psicológico, redes de apoio e, em alguns casos, medidas legais.
“A mídia tem um papel central nesse processo. Uma abordagem sensacionalista pode gerar revitimização, enquanto uma cobertura ética e responsável contribui para conscientização, prevenção e mudança cultural”, avalia.
Investigação em andamento
A Polícia Civil do Rio de Janeiro (PC-RJ), por meio da Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) de Jacarepaguá, investiga a denúncia de importunação sexual envolvendo o ex-participante do BBB 26, Pedro Henrique Espíndola.
As imagens do programa serão analisadas e o envolvido deverá prestar depoimento. As investigações seguem em andamento para o esclarecimento dos fatos.












