Gabriela Brasil – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – O Brasil e o mundo assistiram com perplexidade episódios de ataques, depredações e violência nas sedes dos Três Poderes no dia 8 de janeiro de 2023. A data, marcada por atos de vandalismo orquestrados por grupos de extremistas e por uma tentativa frustrada de fissura na democracia brasileira, completa um ano nesta segunda-feira, 8/1.
No dia, uma semana após a posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), as redes sociais foram tomadas por diversas imagens de homens e mulheres vestidos de verde e amarelo em marcha na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. O grupo depredou e vandalizou prédios do Supremo Tribunal Federal (STF), Congresso Nacional e o Palácio do Planalto.
O episódio é uma mancha no mais longo período democrático brasileiro por materializar o princípio de ataques às instituições que já agonizavam meses anteriores com a instalação de centenas de acampamentos de bolsonaristas pelo Brasil em frente aos Quartéis-Generais do Exército, os quais pediam por intervenção militar.

Conforme apontou o cientista político Helso Ribeiro, ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS, o grupo de manifestantes era formado principalmente por pessoas com pretensões golpistas e de extrema-direita. Porém, em número menor, também integravam perfis que queriam apenas protestar.
“Ali tinham pessoas golpistas, terroristas, vândalos e tinha uma meia dúzia que estava protestando e acreditando em algo. Ele [atos do 8 de janeiro] não nasceu aqui. Ele foi gestado e fortalecido nas manifestações em frente aos quartéis. Eu acredito que boa parte das pessoas são de extrema-direita e estavam aguardando a chegada de generais a cavalo para um golpe que foi frustrado”, disse Helso Ribeiro.

Assim como em diversas capitais, o cenário também se repetiu em Manaus. Poucos dias após a vitória de Lula nas urnas, apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) levaram pertences pessoais e tendas para acampar em frente ao Comando Militar da Amazônia (CMA) em negação ao resultado da eleição presidencial.
No entanto, o ódio pelas instituições se concentrou na capital do país. No dia 8 de janeiro, Brasília foi palco de ações que atentavam contra a ordem democrática.
Apesar da pretensão golpista, autoridades e outros poderes detiveram a escalada antidemocrática com respostas que reverberam até hoje com investigações e prisões.
“É bom lembrar que o Brasil está engatinhando em relação à democracia face a países como Canadá, França e toda a Europa e Estados Unidos. Têm pessoas saudosas a movimentos golpistas. Eu diria que isso [8 de janeiro] demonstrou o fortalecimento das instituições”, afirmou Helso Ribeiro.
8 de janeiro
O dia 8 de janeiro de 2023 tomou rumos extremos por volta das 15h quando apoiadores de Bolsonaro saíram do acampamento em frente ao Quartel-General em Brasília e caminharam em direção à Esplanada dos Ministérios.
O grupo conseguiu ultrapassar com facilidade a barricada de policiais militares e entrou na sede dos Três Poderes. O Congresso foi tomado pelos manifestantes, que se espalharam na parte interna do local. Eles depredaram vidros, danificaram obras de arte e picharam estruturas do prédio.
O rastro de destruição se repetiu no Supremo Tribuna Federal e no Palácio do Planalto. No STF, os invasores escreveram frases em vidraças do prédio como “Destituição dos Três Poderes” e “Perdeu Mané”, que faz alusão à frase usada pelo ministro Luís Roberto Barroso, após sofrer hostilidades por um homem em Nova York.

O rompimento do ato violento deixou um prejuízo de R$ 20 milhões aos cofres públicos. A cúpula dos Três Poderes aponta que a sede do STF foi a mais prejudicada. O local precisou arcar com um prejuízo de R$ 11 milhões, seguido do Congresso com R$ 4,9 milhões, e o Planalto com R$ 4,3 milhões.
Poucas horas após os ataques, por volta das 16h, a Esplanada dos Ministérios foi completamente esvaziada pelas Forças de Segurança que utilizaram spray de pimenta e bombas de efeito moral.
Em seguida, com a derrocada da tentativa de enfraquecer a democracia, o presidente Lula instaurou uma intervenção federal.
Os desdobramentos da ação antidemocrática deram espaço a linhas de investigações que miram quatro perfis envolvidos nos ataques do 8 de janeiro: os executores, financiadores, incitadores e autores intelectuais.
Após um ano dos ataques, 1406 pessoas foram denunciadas, 30 foram condenadas, e outras 66 detidas no 8 de janeiro ainda permanecem atrás das grades.
Fake News, populismo e extrema-direita
As ações do dia 8 de janeiro, conforme o sociólogo Israel Pinheiro, se caracterizam como atos golpistas por induzir as forças democráticas a tomarem caminhos para deposição de representantes eleitos.
Discursos de ódio, o crescimento do Bolsonarismo, definido como um movimento populista, aliado ao fortalecimento da extrema-direita em todo mundo, inclusive no Brasil, foram alguns dos fatores que colaboraram com a manifestação na sede dos Três Poderes, conforme apontou o especialista.
“[O Bolsonarismo] dentro de um discurso daquilo que é entendido como é a extrema-direita reuniu grupos diversos ao redor de um determinado líder carismático e formou o cenário para que a gente tenha uma extrema-direita extremamente ativa e que se aproveite de determinadas situações”, explicou Israel.

O cientista Carlos Santiago defende que foi a partir da inquietação e descontentamento de uma parcela da população que os manifestantes conseguiram mobilizar inúmeras pessoas para os atos do 8 de janeiro.
“Aquela inquietação da sociedade brasileira que não estava contente com o sistema político virou um conflito entre as instituições. Isso aguçou ainda mais militantes a ações contra o sistema eleitoral brasileiro”, afirmou Carlos Santiago.
Outro fator que favoreceu os atos do 8 de janeiro foi a propagação de notícias falsas nas redes sociais, as quais, de acordo com o cientista político Helso Ribeiro, contribuíram para inflamar os atos de violência em Brasília.
Algumas mensagens disparadas em grupos de WhatsApp diziam que era possível cassar o presidente eleito Lula. “Criaram argumentos falsos para incentivar aquelas pessoas a tomar a atitude que tomaram”, disse Helso Ribeiro.
“A sofisticação das fake News dá a entender que aquilo é correto. Você pega uma notícia que te interessa e você enxerta notícias verdadeiras com notícias falsas para as pessoas acreditarem que aquele factoide é real. As fake News adubaram o 8 de janeiro”.
Visões sobre o 8 de janeiro
Assim que soube dos ataques nos prédios dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário em Brasília, o historiador Christopher Rocha visualizou de imediato a tentativa de um golpe contra a democracia no país.
Apesar de nunca ter imaginado o grau de radicalização por parte dos manifestantes acampados em frente aos quartéis, para ele, já era um sinal de que algo poderia acontecer.
Na sua visão, o governo não estava preparado para lidar com os atos e defende que o 8 de janeiro deixa um “alerta máximo” para a sociedade.
“É preciso que nós estejamos vigilantes e que também nesse próximo processo eleitoral a gente consiga derrotar qualquer sentimento antidemocrático que ainda se perpetue”, defendeu Christopher.

Por outro lado, o presidente do Instituto Conservador Amazonas, Sergio Kruger, contou que ficou estarrecido com a depredação contra os prédios dos Três Poderes. Isso porque ele defende que “isso nunca aconteceu em nenhum movimento liderado pela direita”. Também ressalta que a ação violenta é fruto de infiltrados.
“O 8 de janeiro foi uma armação muito bem planejada. Hoje podemos ver como aquelas pessoas foram levadas do QG do Exército até a Praça dos Três Poderes escoltadas, sem que houvesse qualquer aparato de policiamento no local. Óbvio que em uma movimentação normal ali teriam todas as forças de segurança, mas pela forma como fizeram, ficou claro que as pessoas foram levadas para uma armadilha”, concluiu.






