Gabriel Lopes – Rios de Notícias
IRANDUBA (AM) – Apesar de serem cercados pelo Rio Negro, os moradores da comunidade do Catalão, localizada no município de Iranduba, a 27 quilômetros de Manaus, enfrentam um paradoxo doloroso: a falta de água potável.
Conhecido como a “Cidade sobre as Águas”, o Catalão encanta pela paisagem amazônica, mas convive com um problema básico de infraestrutura.

A comunidade, acessível apenas por via fluvial a partir do Porto da Ceasa, em um trajeto de cerca de 20 minutos de lancha, vive com a escassez de um recurso essencial à vida. Durante o período da seca, o cotidiano dos moradores é marcado por desafios que contrastam com o cenário paradisíaco.
“O que mais o Catalão sofre é a falta de água potável. Nós temos praticamente tudo que precisamos para ter uma vida maravilhosa como a que nós temos aqui nesse lugar. Mas quando chega a seca, a gente já sofre antecipado pensando que vamos ter que carregar balde de água na cabeça”, contou Raimunda Viana, líder comunitária.

Um esforço diário pela água
O acesso à água exige esforço físico e custos financeiros. Os moradores precisam se deslocar longas distâncias para obter água adequada ao consumo, muitas vezes enfrentando riscos ao navegar sob chuvas ou em meio a fortes banzeiros. O custo do transporte de galões e tonéis é alto, segundo os relatos.

“Tem que acordar cedo para ir lá pegar água potável para a gente beber. Daqui para Manaus é longe e tem que ter gasolina, tem que ter gasto para chegar do outro lado lá e enfrentar banzeiro. Às vezes, quando o tempo tá querendo chover, fica muito chato para a gente atravessar”, explicou o morador Wellington Marinho.


Mesmo diante das dificuldades, os moradores mantêm o espírito coletivo e a resiliência. Muitos recorrem a estratégias próprias e improvisos para garantir o mínimo necessário à sobrevivência, sem deixar de valorizar a natureza, os recursos locais e o modo de vida comunitário — já retratado em dois longas-metragens.
“Daqui mesmo a gente se ajeita. Vai dando um meio da gente trazer água. Até mesmo lá fora [Manaus] dá para pegar”, disse o morador Atemilton Leal. “Mas também tem coisas boas no Catalão. É uma convivência muito boa com a natureza e a pesca. Essas coisas que a gente só tem aqui”, acrescentou sua esposa, Maria do Carmo.
Negócios que flutuam: o desafio de empreender sobre o rio
Também há quem busque empreender no Catalão, seja no comércio ou até no turismo. É o caso dos proprietários de estabelecimentos como a Mercearia Catalão e a pescaria El Shaday, que também encontram barreiras para o pleno andamento de seus negócios. O comerciante José Alencar relata os desafios do cotidiano profissional na comunidade.

“Aqui tem que ser adequada à realidade, né? Quando é a época agora que está cheio o rio, fica fácil para trazer as coisas. A gente traz da Ceasa, de carro, bota na lancha, normal. Aí quando seca, a gente tem que pegar na Ceasa, trazer para a beira do rio lá, carregar de carro, de mão ou no ombro, 60 metros, colocar no outro bote para chegar aqui”, afirmou ele.

Já a empresária Isadora Queiroz, comenta sobre o dia a dia em sua pescaria. “A gente precisa se deslocar daqui desse local para ir comprar em Manaus os garrafões de água mineral, que é para a gente poder se manter, beber, fazer comida, mingau das crianças e é assim que funciona a moradia por aqui. Tem parte boa, mas também tem a dificuldade da vida”, disse ela.
Cobertura de acesso à água e esgoto
No entanto, a ausência de saneamento básico e de água potável não é uma realidade exclusiva do Catalão. Na região Norte, apenas 61,7% dos domicílios têm acesso à rede geral de abastecimento de água. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Além disso, dos cerca de 77 milhões de domicílios existentes no Brasil em 2024, 29,5% não possuíam ligação com a rede geral de esgoto — o equivalente a três em cada dez residências.

O levantamento compara a situação de 2024 com a de 2019. Cinco anos antes, 68% dos lares brasileiros estavam ligados à rede geral de esgoto, enquanto 32% permaneciam sem acesso.
Falta de saneamento desafia poder público
Para a pesquisadora em Geociências e superintendente regional do Serviço Geológico do Brasil (SGB), Jussara Cury, as comunidades ribeirinhas da Amazônia necessitam de atenção especial por parte do poder público, especialmente com a proximidade da Conferência do Clima das Nações Unidas (COP30), que será realizada em Belém (PA).

“Os pesquisadores do clima têm receio de a gente criar esse êxodo rural, e a gente tem os refugiados do clima, que são essas pessoas que não saem dessas regiões, por não estarem sendo totalmente atendidos, abastecidos, e eles vão procurar outros locais, e normalmente são os centros urbanos”, declarou Cury.
Possível solução para o Catalão
Um dos problemas enfrentados pela população do Catalão é a ausência da coleta de esgoto na comunidade, o que faz com que os dejetos sejam descartados diretamente no rio, causando a poluição da água e tornando-a imprópria para o consumo.
Quando os moradores da comunidade do Catalão relatam essas adversidades, uma pergunta sempre paira no ar: quais seriam as possíveis soluções para tamanha contradição? Em Manaus, no entanto, é possível encontrar boas iniciativas que vêm fazendo a diferença na vida das pessoas.

A região de palafitas conhecida como Beco Nonato, no bairro Cachoeirinha, zona Sul, foi a primeira área desse tipo em Manaus a receber coleta e tratamento de esgoto, por meio de um projeto que se tornou política pública em 2023, conforme explica o gerente de eficiência operacional da concessionária Águas de Manaus, Marlon Ferreira.

“É um trabalho não tão simples, demandou novas ideias, inovação, como fazer um elevatório de esgoto em uma região tão baixa como a palafita, tubulações expostas. Isso foi uma conquista muito grande. Não é uma questão de retorno financeiro, mas sim de melhorar a vida das pessoas e trazer mais dignidade para elas”, explicou Ferreira.
Hoje, as moradias da região contam com grandes tubulações que transportam os dejetos diretamente para a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Educandos, localizada às margens do Rio Negro. Cerca de 900 moradores da área foram beneficiados por essa iniciativa adotada na capital amazonense.
Cosama se posiciona
O Portal RIOS DE NOTÍCIAS questionou a Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama) sobre a possibilidade de instalação no local de uma estação do projeto Água Boa, do Governo do Estado, para garantir acesso à água limpa na comunidade.
Por meio de nota, a entidadade esclareceu que o Catalão chegou a ser contemplado com o projeto em outubro de 2023, e que uma equipe técnica da Defesa Civil será enviada à comunidade para avaliar a unidade instalada e, se necessário, realizar os devidos reparos no sistema.
Por enquanto, os moradores do Catalão ainda ousam sonhar com um futuro mais próspero e em maior sintonia com o meio ambiente, aguardando medidas efetivas para que possam usufruir daquilo que veem todos os dias: a água.












